A Microsoft desistiu do acordo que manteria com a Nscale para um data center em Loughton, no condado inglês de Essex. O recuo atinge a startup britânica de neocloud — grupo de empresas que constrói grandes complexos de computação para inteligência artificial — quando ela tenta captar até US$ 3 bilhões em uma oferta pública inicial de ações (IPO), possivelmente ainda neste mês.
O dado que dimensiona o revés não aparece no anúncio, mas nos documentos da própria oferta: 85% dos contratos da Nscale estão concentrados em dois clientes, a Microsoft e a Anthropic. A fabricante americana de software era esperada como principal cliente do primeiro data center britânico da companhia, o de Essex — exatamente o projeto que ela abandonou agora.
O atraso de energia que trava o projeto de Essex
Loughton já vinha travado por restrições ao fornecimento de energia elétrica. Na Noruega, o principal centro da Nscale soma seis meses de atraso, com apenas 6,4 megawatts dos 30 megawatts previstos efetivamente em operação, conforme informações reunidas pela Bloomberg.
Em comunicado enviado por e-mail, a Nscale afirmou manter o compromisso com o empreendimento de Loughton e com o Reino Unido. A empresa declarou buscar fontes alternativas de energia para o local e avaliar outros pontos de expansão no país, além de sustentar que a relação com a Microsoft segue sólida e de longo prazo e que o problema na rede elétrica da região de Londres não afeta os demais contratos.
A Microsoft, procurada, preferiu não comentar.
A cadeia de IA onde a Nscale se encaixa
Neocloud é o rótulo dado a companhias que alugam capacidade computacional em larga escala para treinar e rodar modelos de inteligência artificial. Elas tentam capturar parte das centenas de bilhões de dólares que as grandes empresas de tecnologia prometeram investir no setor, ocupando um posto central na cadeia de fornecimento do boom da IA.
Esse posicionamento tem dois lados. Se coloca a Nscale no meio de um fluxo gigantesco de capital, também faz sua receita depender de poucas e enormes decisões de compra — e uma delas acaba de ser revista.
O que o mercado já precifica
O ambiente para a oferta da Nscale esfriou nos últimos dias. A CoreWeave, outra neocloud, amargou a pior semana para seus papéis desde novembro, com queda de 25%, após um de seus cofundadores mencionar a possibilidade de captar recursos em mercados de dívida com grau de investimento, onde há grande volume de capital disponível, sobretudo entre seguradoras.
Na esteira do movimento, a australiana Firmus cancelou seus planos de IPO, diante de apoio insuficiente dos investidores ao preço pretendido para as ações.
Por trás desse clima está o receio com o endividamento: fornecedores de infraestrutura para IA e seus clientes vêm contraindo dezenas de bilhões de dólares em empréstimos para financiar a expansão da capacidade de data centers.
O que muda para quem acompanha o setor
A concentração de receita é o ponto sensível. Companhias de infraestrutura de IA que dependem de poucos clientes ficam mais expostas a mudanças de rota de gigantes da tecnologia, e a saída de um deles tende a reduzir a previsibilidade de receita antes mesmo da estreia na bolsa. Em um setor que cresce puxado por promessas de investimento de longo prazo, essa dependência funciona como amortecedor de expectativa.
Historicamente, IPOs de empresas com carteira concentrada enfrentam desconto maior na precificação. Para a Nscale, o desfecho do projeto de Essex e a evolução da capacidade energética na Noruega são os sinais a monitorar até a definição da oferta.
Para o investidor brasileiro, o episódio funciona como termômetro da cadeia global de IA: o apetite por esses ativos caminha junto com a percepção de risco de crédito do setor, e não isolado dela. A cautela que derrubou papéis de pares e cancelou uma oferta na Austrália tende a se refletir no preço que a Nscale conseguirá obter na bolsa.
