O mercado não comprou a ideia. A ação do Nubank (NU) recuou com força em Nova York depois que a imprensa britânica noticiou uma possível compra da fintech inglesa Monzo, avaliada entre £8 bilhões e £10 bilhões — faixa que equivale a 16% a 20% do valor de mercado da empresa brasileira. Por volta das 12h50, o recuo era de 8,79%, com o papel cotado a US$ 12,40, depois de chegar a 9% de queda no início do pregão. As conversas, segundo o relato, ainda estariam em estágio embrionário e poderiam ser financiadas com caixa e ações da Nu Holdings.
O ponto que trava a reação não é a qualidade do alvo britânico, e sim o tamanho do desembolso. Cerca de um quinto do valor de mercado iria para uma única operação, e o múltiplo embutido na compra supera aquele pelo qual a própria Nu é negociada hoje. Em termos simples, o comprador pagaria mais caro pela Monzo do que o mercado paga pelas ações do Nubank — uma assimetria que costuma pesar sobre quem já carrega o papel na carteira.
O múltiplo que explica a reação
Os cálculos do Safra ajudam a medir o desconforto. A avaliação do banco situa a Monzo entre 6,2x e 7,8x o patrimônio líquido do exercício fiscal de 2026. Já a projeção sobre o lucro bruto de 2027 ficaria na casa de 6,6x a 8,3x, considerando um avanço próximo de 20% sobre o ano anterior. No caso do Nubank, o múltiplo atual de patrimônio é de 6,0x.
| Múltiplo | Monzo (estimado) | Nubank |
|---|---|---|
| Patrimônio líquido (ano fiscal 2026) | 6,2x a 7,8x | 6,0x |
| Lucro bruto projetado (2027) | 6,6x a 8,3x | — |
A conta leva a uma conclusão desconfortável para o acionista: o comprador estaria antecipando a distribuição de lucros futuros da operação. Traduzindo para o dia a dia de quem investe, o capital que hoje sustenta a tese no mercado brasileiro seria redirecionado para uma aposta cujo retorno tende a demorar mais para se materializar.
O JPMorgan reforça esse incômodo com o momento escolhido. Para a equipe do banco, o Nubank negocia perto de mínimas históricas em termos de múltiplos e estaria migrando de um modelo de crescimento orgânico para outro mais dependente de aquisições. Preço alto e mudança de rota, combinados, tendem a deixar o mercado mais seletivo na hora de precificar o papel.
O que a Monzo entrega
Do outro lado da balança, a Monzo não é um ativo qualquer. A fintech reúne 15,2 milhões de clientes e 10,4 milhões de usuários ativos mensais; no Reino Unido, 9% dos usuários ativos mensais de varejo já a consideram o banco principal. O crescimento recente também chama atenção: a receita do ano fiscal de 2026 subiu 39% na comparação anual, o lucro bruto avançou 35% e os depósitos saltaram 55%, chegando a £25,7 bilhões.
Pelo ângulo estratégico, o Safra enxerga na operação uma via para dar escala imediata ao Nubank no mercado britânico, somando uma plataforma bancária já consolidada, marca reconhecida, serviços voltados a empresas e presença regulada pela União Europeia na Irlanda. A casa descreve um encaixe em que a Monzo contribuiria com distribuição, base de depósitos, licenças e marca, enquanto o Nubank acrescentaria análise de crédito, venda cruzada, uso de dados e disciplina operacional.
Onde as casas divergem
O JPMorgan reconhece os atributos da Monzo — escala operacional, base robusta de depósitos, força de marca e posição em um mercado com poucas oportunidades de aquisição. Ainda assim, questiona o momento e o valuation elevado, além do risco de o Nubank se afastar de frentes prioritárias no México, nos Estados Unidos e na Colômbia por causa dos desafios de integração.
O UBS BB adota uma leitura mais alinhada à estratégia. Em relatório a clientes, os analistas avaliam que a operação faria sentido dentro do plano de expansão global da fintech brasileira, funcionando como porta de entrada para o Reino Unido e, mais amplamente, para a Europa — trilha já seguida por concorrentes internacionais como o Revolut, que cresce por meio de licenças e aquisições. O banco pondera, porém, que o modelo de negócios da Monzo difere do Nubank, com menos peso em crédito e mais foco em serviços de carteira digital, e que o risco de execução merece atenção, sobretudo diante do esforço paralelo para escalar a operação recém-lançada nos Estados Unidos.
O que ainda está em jogo
As tratativas seguem em estágio considerado relativamente inicial. A Monzo já teria contratado os bancos de investimento Morgan Stanley e Qatalyst para assessorá-la, sinal de que as conversas avançaram o suficiente para envolver assessoria especializada. Procurado nesta segunda-feira, o Nubank afirmou que não comenta rumores nem especulações e não confirmou qualquer negociação com a fintech inglesa.
O cenário doméstico adiciona camadas ao debate. Um eventual desembolso se somaria a outros já em curso, como a expansão nos Estados Unidos, em um momento em que o Brasil convive com um ciclo de crédito em deterioração e com a possibilidade de medidas macroprudenciais — regras que restringem o avanço do crédito para conter o endividamento das famílias.
Para quem acompanha NU, a pergunta que se impõe não é apenas se a Monzo é um bom ativo. O que está em jogo é quanto do capital que hoje sustenta a tese no mercado brasileiro será direcionado para uma aposta em outro continente, e em que prazo essa aposta tende a amadurecer.
