Um engenheiro que ficou conhecido por reconstruir o Creative Cloud da Adobe com inteligência artificial voltou o método contra o alvo mais valioso da produtividade corporativa. Word, Excel e PowerPoint ganharam clones gratuitos e de código aberto, batizados de WordCraft, GridCraft e DeckCraft, com 88% dos recursos de faixa de opções do editor de texto replicados e 91 MB de instalação — enquanto a Microsoft pede US$ 99,99 por ano pelo Microsoft 365 Personal.

Uma suíte paralela em três velocidades

Quem assina o projeto é Brandon Thomas, o mesmo desenvolvedor por trás do ArtCraft, conjunto que reproduziu Photoshop, Illustrator, Premiere e Lightroom sem custo. A nova leva foi publicada no GitHub sob licenças MIT e Apache 2.0, modelos jurídicos que autorizam leitura, cópia, modificação e até exploração comercial do código por terceiros.

O estágio de cada aplicativo, porém, é bastante desigual.

AplicativoEquivalenteCobertura declaradaProntidão para trabalho real
WordCraftWord88% dos recursos de faixa de opçõescerca de 60%
GridCraftExcel513 de 523 funções de planilhacerca de 50%
DeckCraftPowerPoint79% dos recursos e 93% dos essenciaisainda sem versão alfa

A faixa de opções é a barra de abas e botões no topo da tela, onde ficam as ferramentas mais usadas. Nela, o clone do Word já cobre controle de alterações, notas de rodapé, citações e mala direta — o recurso que puxa nomes de uma planilha para personalizar centenas de cartas. O clone do Excel domina 89% dos comandos dessa barra e roda praticamente todas as fórmulas que fazem uma planilha calcular, de SOMA a PROCV. O substituto do PowerPoint abre e salva arquivos .pptx, executa transições e animações e exporta para PDF.

Rust, sala limpa e agentes de IA

Os três programas foram escritos em Rust, linguagem valorizada pela velocidade de execução e por impedir falhas de memória que derrubam softwares. Um único código-base roda nativamente em Windows, macOS, Linux e BSD, além do navegador.

Thomas classifica o trabalho como recriação clean-room: os aplicativos nasceram de especificações públicas de formato de arquivo e da observação do comportamento dos originais, sem reaproveitar linhas da Microsoft. É a mesma estratégia jurídica que a Compaq adotou nos anos 1980 para clonar a BIOS dos primeiros PCs da IBM, o software básico que inicializa a máquina.

Cada botão dos três aplicativos também funciona como comando acionável por um agente de inteligência artificial — um modelo capaz de executar tarefas em várias etapas sem supervisão. A ponte é o MCP, ou Model Context Protocol, padrão criado pela Anthropic para que modelos de IA operem fora do próprio chat. Na prática, dá para pedir ao Claude que monte um gráfico na planilha ou reformate um relatório sem tocar no mouse.

A conta de US$ 99,99

A Microsoft cobra US$ 99,99 anuais pelo plano pessoal do Microsoft 365 e US$ 129,99 pelo familiar, caminho pelo qual boa parte das famílias obtém Word e Excel. Uma alternativa sem custo que abre os mesmos arquivos ataca diretamente essa linha de receita recorrente.

Do outro lado da equação está o custo de construir com IA. O Claude Opus 5.5, modelo que sustenta o ArtCraft e foi lançado em 22 de setembro, é cobrado a US$ 4 por milhão de tokens de entrada e US$ 20 por milhão de tokens de saída — tokens são os fragmentos de texto que o modelo lê e escreve, e a unidade de cobrança do setor. No Terminal-Bench 4.0, teste que mede a conclusão de tarefas profissionais complexas em linha de comando, o modelo marcou 66,4%.

Alternativas gratuitas não são novidade — o ritmo é

O movimento de clonar suítes de escritório tem décadas. O OpenOffice.org surgiu quando a Sun Microsystems abriu o código do StarOffice em outubro de 2000, e o LibreOffice se separou dele em 2010. Nos dois casos, foram necessários anos de trabalho de comunidades numerosas de desenvolvedores.

A diferença agora é o tempo. Thomas colocou os três aplicativos no ar menos de duas semanas depois de lançar os clones da Adobe, apoiado em um único modelo de linguagem. O WordCraft já somava mais de 12.000 estrelas no GitHub até quarta-feira — a métrica que a plataforma usa como marcador de interesse da comunidade.

O que muda para quem investe

Para quem acompanha ações de tecnologia, o episódio interessa menos pelo software em si e mais pelo que ele sinaliza sobre a economia da assinatura. Produtos maduros de produtividade sustentam suas margens sobre duas barreiras: o custo de troca, já que o usuário reluta em abandonar uma interface que domina, e o esforço de engenharia necessário para replicar formatos proprietários. A primeira continua de pé; a segunda está sendo corroída.

Formatos como .docx, .xlsx e .pptx são padronizados e documentados, o que sempre permitiu clonagem. O que mudou foi o preço da mão de obra. Quando um desenvolvedor aproxima três aplicativos de um padrão corporativo em duas semanas, o custo marginal de construir alternativas cai a um patamar que a indústria de software licenciado não enfrentava desde a virada do século.

No Brasil, a leitura passa pelas empresas de software listadas na B3 e pelas distribuidoras de soluções Microsoft, cujo modelo depende de licenciamento recorrente e serviços associados. Nada indica migração imediata de bases corporativas — conformidade, suporte e integração pesam mais que preço em contratos de médio e grande porte. Mas a existência de uma alternativa funcional, aberta e gratuita altera o poder de barganha na próxima renovação.

Vale observar ainda a assimetria de custos entre os dois lados. Enquanto a Microsoft monetiza usuário por ano, o desenvolvedor paga por token consumido. Se o custo por token seguir caindo, replicar software maduro fica progressivamente mais barato, e o valor migra para distribuição, marca e ecossistema.

Os limites que o próprio projeto admite

A equipe calcula que o WordCraft está perto de 60% pronto para substituir o Word em trabalhos reais, e o GridCraft, cerca de 50%. O clone do Word segue rotulado como alfa, estágio inicial em que falhas são esperadas. O do Excel conhece quase todas as fórmulas, mas ainda pode travar diante da planilha de orçamento de uma empresa, e a compatibilidade com arquivos .xlsx do mundo real está no topo da lista de pendências.

Antes de uma versão beta, o roteiro do WordCraft prevê testes com arquivos .docx reais, gráficos e SmartArt que sobrevivam a um salvamento, layout de página mais próximo ao do Word, varredura de estabilidade e impressão nativa.

Thomas também tem histórico de prometer mais do que entrega. Ele já recuou da promessa de igualar o conjunto de recursos da Adobe em um mês.