Uma carteira adormecida desde julho de 2010 voltou a se mexer nesta quarta-feira e transferiu 100,02 BTC, lote que hoje vale cerca de US$ 8,3 milhões. O dado que mais chama a atenção do mercado está no custo da operação: para tirar esse montante do lugar, o dono desembolsou US$ 1,22 em taxas de rede. As moedas seguem sob controle de endereços novos, e nada no registro público aponta venda.
O que a rede registrou
A confirmação saiu às 15h52 (horário de Brasília), dentro do bloco 970.379 — uma das rodadas que o protocolo fecha, em média, a cada dez minutos no livro-razão público do Bitcoin.
O saldo foi repartido em duas carteiras recém-criadas: uma recebeu 10 BTC, a outra ficou com 90,02 BTC. Ambas operam no formato bc1q, padrão de endereço que simplesmente não existia em 2010. A taxa cobrada pela rede ficou em 1.467 satoshis, o que, na conversão do momento, deu o US$ 1,22 citado. Um satoshi corresponde a um centésimo-milionésimo de bitcoin.
| Métrica | Valor |
|---|---|
| Volume transferido | 100,02 BTC |
| Valor na transferência | US$ 8,3 milhões |
| Cotação implícita por moeda | US$ 83 mil |
| Valor estimado na mineração (2010) | US$ 29 |
| Taxa de rede | 1.467 satoshis (US$ 1,22) |
| Bloco da confirmação | 970.379 |
A origem das moedas
O lote nasceu de duas recompensas de mineração separadas por poucos dias. A primeira rendeu 50,02 BTC no bloco 70.522, em 26 de julho de 2010. A segunda trouxe 50 BTC no bloco 70.748, dois dias depois. Em 30 de julho daquele ano, os dois pagamentos foram reunidos em uma única transação, e o resultado foi parar no endereço que acabou de movimentar tudo.
Quem minerava naquele período recebia muito mais por bloco do que hoje. A premiação já foi cortada pela metade em quatro oportunidades, e o halving de abril de 2024 a deixou em 3,125 BTC. Um bloco fechado atualmente paga, portanto, um dezesseis avos do que aqueles dois pagamentos de 2010 renderam.
Um endereço com histórico próprio
A antiga carteira não ficou intocada o tempo todo. Em 8 de agosto de 2015, saíram 100 BTC duas vezes; em dezembro de 2017, outros 100 BTC; em março de 2018, 249 BTC. Eram outras moedas guardadas ali — o bitcoin funciona como peças individuais, de modo que um mesmo endereço pode gastar parte do saldo e manter o restante. Firmas de análise como a Galaxy rastreiam as moedas uma a uma, não o endereço, e sustentam que esse lote específico permaneceu parado desde 2010.
Era Satoshi e a onda de 2025
Moedas mineradas nos primeiros anos da rede carregam o rótulo de era Satoshi, referência ao criador pseudônimo do protocolo, Satoshi Nakamoto.
Aquele ano ficou marcado por outro episódio: o programador da Flórida Laszlo Hanyecz trocou 10.000 BTC por duas pizzas, uma conta de cerca de US$ 41. A valorização acumulada desde então supera um milhão de vezes.
Movimentos desse tipo têm se repetido. Em fevereiro de 2025, 50 BTC minerados quando cada um valia US$ 0,10 foram transferidos após cerca de 15 anos, então avaliados em aproximadamente US$ 5 milhões, sem a tradicional transação de teste antes. Em agosto, 49,97 BTC recebidos em julho de 2011, quando o bitcoin era negociado abaixo de US$ 15, chegaram a uma carteira que a Arkham, plataforma de análise de blockchain, identificou como ligada à FalconX, corretora primária voltada a empresas de trading — o rótulo, isoladamente, não confirma venda.
Entre 16 e 26 de agosto, seis carteiras paradas desde 2011, 2012 ou 2014 movimentaram 553,59 BTC, perto de US$ 40 milhões. Duas delas traziam vínculos com uma ação judicial em Nova York que pede o reconhecimento de 39.069 endereços inativos como propriedade abandonada.
O que interessa ao investidor
Até quinta-feira, os 10 BTC e os 90,02 BTC continuavam nos endereços de destino, sem repasses adiante. A leitura prática é direta: transferir não é vender, e pressão de oferta só aparece se esse estoque chegar a uma exchange.
O ponto de atenção mora na mensagem que a operação transmite. Um saldo parado por 16 anos, migrado para carteiras de formato atual e movido por taxa irrisória, sugere reorganização de custódia — e não descarte de posição. Ainda assim, cada despertar de carteira antiga vira manchete e alimenta especulação sobre oferta futura, mesmo quando nenhuma moeda foi vendida.
