O Nubank suspendeu os depósitos e saques de criptomoedas na sexta-feira (6), segundo um aviso exibido dentro do próprio aplicativo. O banco não divulgou prazo para a volta do serviço, tampouco explicou o motivo da paralisação. O caso surge em meio à preocupação com a segurança do setor cripto, após uma sequência de ataques cibernéticos contra empresas do segmento.
O que foi visto no aplicativo
O primeiro registro público partiu do perfil Paradigma Education, na rede social X, por volta das 9h47 (horário de Brasília). O post contém um print de mensagem supostamente enviada pelo app do banco, segundo a qual as transferências de cripto estão fora do ar de forma provisória. O texto afirma que a equipe trabalha para normalizar o serviço o mais cedo possível e sugere que o cliente procure os canais de atendimento caso tenha dúvidas.
Hipótese de ataque sem comprovação
A Paradigma levantou a possibilidade de a interrupção estar ligada a uma invasão contra um fornecedor do Nubank. Até aqui, porém, não existe comprovação oficial de que o banco ou algum parceiro tenha sido atingido nesse sentido. Também não surgiram indícios de perdas para clientes nem de comprometimento dos ativos guardados na plataforma.
Chainalysis: o incidente que pesa sobre o caso
Na quarta-feira (4), a Chainalysis, companhia americana de rastreamento de transações cripto, admitiu que criminosos acessaram informações de seus usuários. Os dados afetados incluem nomes, identificadores das contas, versões criptografadas de senhas (os chamados hashes) e tokens de autenticação em uso. Um mecanismo de ataque também expôs diretamente as senhas de parte da base, e algumas contas foram bloqueadas como medida preventiva. A empresa atende corretoras, bancos e órgãos policiais, o que amplia o alcance do problema.
A apuração apontou ainda atividade anormal no Know Your Transaction (KYT), serviço usado por companhias para acompanhar operações cripto e identificar movimentações possivelmente ligadas a crimes. Com isso, a empresa suspendeu o funcionamento da interface visual e do canal de programação (a API, que permite a sistemas conversarem entre si), além de outras ferramentas de checagem de carteiras. O bloqueio chegou a produtos como Reactor e Data Solutions, empregados para rastrear fluxos na blockchain (registro público e distribuído das transações) e levantar informações de mercado.
Em nova nota divulgada de madrugada, nesta sexta-feira, a Chainalysis disse que começou a reativar, aos poucos, o KYT e o Address Screening, recurso que avalia riscos ligados a endereços de criptomoedas. O processo inclui conferências extras, acesso restrito a endereços IP previamente autorizados e exigência de nova senha, além da troca de chaves de API pelos usuários. Segundo a empresa, mesmo com o vazamento de credenciais, não houve sinal de acesso a dados de investigações nem de alteração nas bases usadas para identificar entidades e transações na rede.
Ligação com o Nubank ainda não está comprovada
A própria página do Nubank menciona o uso de tecnologias da Chainalysis para viabilizar envio e recebimento de cripto, com recursos de análise voltados à proteção das operações. Ainda assim, não existem dados públicos que conectem o incidente da empresa americana à suspensão das transferências. Também não se sabe se o banco usa exatamente os módulos que ficaram indisponíveis nos últimos dias.
Quanto o app oferece e onde está a restrição
Segundo a página do Nubank Cripto, a plataforma tem hoje 28 ativos digitais disponíveis para negociação. A função de enviar e receber, porém, vale para um conjunto mais restrito, que contempla Bitcoin (BTC), Ethereum (ETH) e Solana (SOL), além da moeda digital USDC, atrelada ao dólar, usada como stablecoin (criptoativo com valor vinculado a uma moeda de referência).
Desde 2022, a instituição disponibiliza compras e vendas de cripto dentro do aplicativo. Depois, passou a aceitar o envio de determinados ativos para carteiras de terceiros. O aviso não deixa claro se compras e vendas dentro do app também foram afetadas, nem se a restrição vale para todos os clientes.
Fornecedores: onde cada etapa pode falhar
A operação do Nubank depende de mais de um parceiro. A Fireblocks, anunciada como parceira em 2023, fornece tecnologia de custódia (a guarda dos ativos em nome do cliente) e de movimentação de cripto, incluindo a gestão das chaves privadas (códigos que dão controle sobre os ativos) e a autorização de transferências. A Paxos, por sua vez, esteve ligada ao início da atuação do banco nesse mercado e fornece infraestrutura para negociação e custódia.
Na prática, cada fornecedor cobre uma etapa: guarda, movimentação ou checagem de risco. Por isso, uma pane em um desses elos pode interromper uma função específica sem que, necessariamente, os valores de quem usa o app sejam atingidos.
No contrato de uso da NuCrypto, companhia do conglomerado que opera cripto no país, já havia previsão de atrasos ou paradas por problemas operacionais, falhas próprias ou de fornecedores e procedimentos de segurança. A revisão mais recente, válida desde 8 de outubro, prevê ainda que certas operações possam ser retidas, rejeitadas ou bloqueadas por exigência legal ou para proteger o cliente.
Semana de alertas no setor
Na segunda-feira (2), o Mercado Bitcoin havia comunicado uma pausa em serviços após detectar saídas de ativos digitais não autorizadas. Até o momento, não há indício de conexão entre os casos.
Os números do caso
| Item | Informação |
|---|---|
| Data do aviso no Nubank | Sexta-feira (6) |
| Primeiro registro público | 9h47, horário de Brasília |
| Ativos disponíveis para negociação | 28 |
| Grupo com envio e recebimento | BTC, ETH, SOL e USDC, entre os ativos citados na fonte |
| Incidente na Chainalysis | Confirmado na quarta-feira (4) |
| Causa da suspensão no Nubank | Não divulgada |
| Prazo de retomada | Não informado |
O que observar como investidor
O principal problema, até agora, é a falta de transparência: o aviso não traz causa, alcance nem prazo. Para quem mantém cripto no Nubank, a distinção entre bloqueio operacional e perda de ativos é decisiva, e não há registro público de perdas. Ainda assim, o episódio expõe um risco que costuma ficar fora do radar. Quando uma instituição delega custódia, análise ou transferências a terceiros, uma falha em qualquer elo pode travar o acesso ao patrimônio digital sem necessariamente comprometê-lo.
Para acompanhar o caso, vale monitorar:
- Os canais oficiais do Nubank, que deverão informar a causa e o prazo de normalização.
- As atualizações da Chainalysis sobre a retomada do KYT e do Address Screening.
- Os termos da NuCrypto, que descrevem as hipóteses de retenção e bloqueio de movimentações.
- A confirmação, ou não, de que o banco utiliza os serviços da Chainalysis que ficaram indisponíveis.
Enquanto não houver esclarecimento, o quadro confirmado se resume a três pontos: a suspensão anunciada no aviso, o incidente comprovado na Chainalysis e a ausência de vínculo oficial entre os dois.
