Os invasores por trás do maior roubo já registrado em uma exchange de criptomoedas já fizeram circular 81% do Solana (SOL) desviado da Binance. Conforme a Arkham, plataforma de análise de blockchain, as carteiras reunidas sob a entidade hacker ainda guardam 182.443 SOL — aproximadamente US$ 16,9 milhões —, o equivalente a 18,8% das 970.522 unidades subtraídas no ataque de US$ 6,3 bilhões.

A rota em quatro etapas até o Bitcoin

A Lookonchain, que também rastreia fluxos on-chain, detalhou na quarta-feira o percurso: os SOL foram espalhados por diversas carteiras, vendidos por USDC — stablecoin pareada ao dólar —, transportados para a rede Ethereum por uma ponte (mecanismo que move ativos entre blockchains) e aplicados em Ether. A ponta final do trajeto foi a conversão do ETH em Bitcoin (BTC) dentro da THORChain, protocolo descentralizado que faz trocas entre redes distintas.

Os números do rastro

MétricaValor divulgado
SOL subtraídos no exploit970.522 SOL
SOL ainda sob controle da entidade hacker182.443 SOL (US$ 16,9 milhões)
Parcela já movimentada81%
Valor total do ataqueUS$ 6,3 bilhões
Tokens repostos pela Binance98%
Transações dos invasores em Tron e Solanamais de 47.600
Fatia automatizada dessas transaçõesaproximadamente 54%
Valor total que passou pela Troncerca de US$ 500 milhões

A leitura central está em 81% do Solana roubado já convertido em outros ativos, o que reduz a chance de recuperação por congelamento direto dos tokens originais.

A brecha começou nos dispositivos dos funcionários

Antes de qualquer movimentação on-chain, a Binance rastreou a porta de entrada: computadores e aparelhos de colaboradores foram comprometidos por falsas entrevistas de emprego e por downloads de softwares maliciosos. A exchange informou na terça-feira que repôs 98% dos tokens afetados e que absorveria as perdas — ponto sensível para quem mantém posições na corretora, porque separa o dano ao saldo do cliente do dano ao balanço da empresa.

TraderTraitor, FBI e a negativa de Pyongyang

O FBI atribuiu o ataque no sábado ao TraderTraitor, grupo de hackers associado à Coreia do Norte, e pediu que provedores de serviços de cripto — incluindo operadores de nós da THORChain — bloqueassem transações vinculadas aos ativos desviados. Kim Yo Jong, irmã do líder norte-coreano Kim Jong Un, tratou as acusações como retórica absurda.

O histórico sustenta o alerta: investigadores suspeitam que quadrilhas ligadas ao regime norte-coreano usem a THORChain para lavar o produto de alguns dos maiores golpes do setor, entre eles o desfalque de US$ 1,4 bilhão sofrido pela Bybit.

A pane que atrasou a lavagem

A THORChain retomou na quarta-feira as negociações de Bitcoin, Ethereum e outras redes. O serviço havia parado no sábado, depois que uma reorganização de bloco na Ethereum — evento em que a rede descarta e reescreve parte do histórico recente — expôs uma falha no mecanismo de reembolsos. Na avaliação da Chainalysis, a paralisação travou involuntariamente o trabalho de branqueamento dos invasores.

O investigador SomaXBT calculou que cerca de 54% das mais de 47.600 transações realizadas pelos hackers na Tron e na Solana tinham execução automatizada. No domingo, o grupo ampliou a atividade para a Solana, após esvaziar a maior parte das carteiras temporárias de custódia mantidas na Tron. A Chainalysis estima que perto de US$ 500 milhões em valor total transitaram pela rede Tron, incluindo transferências repetidas entre carteiras que inflam o volume bruto.

O que isso significa para o investidor

Três frentes merecem atenção. A primeira é o risco de custódia: o episódio nasceu de falha humana em segurança de dispositivos, não de uma brecha no protocolo da exchange, e mostra como o elo mais frágil costuma estar na engenharia social. A reposição de 98% dos tokens preservou o saldo dos usuários, mas não elimina a discussão sobre concentração de ativos em intermediários centralizados.

A segunda é a rastreabilidade. Mesmo com 81% do SOL já convertido, o caminho é público e verificável em exploradores de blockchain. A conversão final em BTC, ativo de maior liquidez do setor, é a etapa que historicamente mais dificulta o congelamento, porque dilui o valor em milhões de endereços e negociações pulverizadas.

A terceira é o risco regulatório de protocolos de interoperabilidade. Com o FBI pedindo formalmente que operadores de nós bloqueiem transações, a THORChain entra no centro de um teste de governança: quem fornece liquidez ou mantém validadores pode passar a responder a exigências de bloqueio e a escrutínio crescente. Para o investidor com exposição a esses ativos, vale acompanhar comunicados oficiais da exchange, relatórios de transparência de reservas e o desenrolar das medidas de compliance antes de rever teses.