Bitcoin supera US$ 78 mil com democratas no comando do Congresso
O Bitcoin (BTC) retomou o patamar de US$ 78 mil nesta quarta-feira (4) e era negociado a US$ 78.451, alta de 2,3% nas últimas 24 horas, após uma madrugada de recuperação forte. Convertida em reais, a maior criptomoeda do mercado valia R$ 430.029, num pregão em que o desfecho das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos retirou parte da incerteza política que vinha pesando sobre os ativos de risco.
O gatilho foi eleitoral. Os democratas asseguraram maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, e o presidente Donald Trump saiu derrotado do pleito, com o Legislativo sob controle adversário pelos próximos dois anos. A reação do mercado não passou por preferência partidária, e sim por previsibilidade: casas de previsão como a Polymarket já atribuíam mais de 75% de chance a esse resultado antes da votação, e os futuros do Nasdaq — que caíram mais de 2% durante a apuração — limitaram a perda a cerca de 0,3% pela manhã.
Os números do pregão
A alta se espalhou pelas principais altcoins, sem discrepância relevante em relação ao BTC:
| Ativo | Preço | Variação em 24h |
|---|---|---|
| Bitcoin (BTC) | US$ 78.451 (R$ 430.029) | +2,3% |
| Ethereum (ETH) | US$ 2.325 | +2,9% |
| XRP | — | +2,4% |
| Solana (SOL) | — | +1,4% |
| BNB | — | +1,3% |
| Futuros do Nasdaq | — | -0,3% (após -2% na apuração) |
A correlação foi unânime: nenhuma das grandes moedas digitais destoou do Bitcoin, padrão típico de movimento de apetite por risco no setor inteiro, e não de rotação entre ativos.
Opções: US$ 660 milhões no dia da eleição
O dinheiro que sustentou a virada apareceu com clareza no mercado de derivativos. Nicolas Quatravaux, chefe para Europa, Oriente Médio e África da Paradigm, contabiliza cerca de US$ 660 milhões em grandes operações com opções de Bitcoin no dia da eleição, o equivalente a mais de duas vezes o giro da sessão anterior. Desse total, aproximadamente US$ 420 milhões saíram em compras de calls (opções de compra, contratos que dão o direito de adquirir o ativo por um preço fixo até o vencimento). Consideradas também as pontas vendidas, a posição líquida ficou em cerca de US$ 230 milhões em apostas na valorização da criptomoeda.
O dado separa dois tipos de investidor: quem aceitou pagar prêmio para se posicionar na alta durante a volatilidade da apuração e quem reduziu exposição nos fundos listados, como mostram os números de ETFs mais adiante.
Agenda pró-cripto perde velocidade no Legislativo
Dick Lo, fundador da TDX Strategies, descreve um movimento em duas etapas: queda inicial com a confirmação da vitória democrata e recuperação à medida que o resultado clareou o cenário político. Um Congresso sob controle democrata é lido como menos amigável à pauta cripto, mas a divisão de poder em Washington também diminui a probabilidade de mudanças regulatórias bruscas. Trump mantém a possibilidade de governar por ordens executivas e de usar o veto contra projetos que contrariem sua agenda.
Para o setor, o revés é concreto. A indústria investiu pesado em candidatos alinhados e vinha se beneficiando da agenda regulatória do governo republicano. Com o Legislativo em outras mãos, a tramitação de textos como o Clarity Act — que busca regras mais nítidas para empresas de ativos digitais em operação nos Estados Unidos — deve perder ritmo, e cresce o espaço para fiscalização sobre companhias de cripto e negócios da família presidencial.
Tim Sun, pesquisador sênior da HashKey, não vê necessariamente uma reversão das políticas favoráveis às criptomoedas já implementadas. O pesquisador sustenta que os contrapesos entre os dois poderes dificultam guinadas radicais e que a adoção de tecnologia blockchain por instituições financeiras tradicionais tornou o setor menos dependente do aval de um único partido.
Texas: mineração e data centers sob nova regra
A disputa estadual oferece o exemplo mais concreto do risco regulatório localizado. No Texas, a democrata Gina Hinojosa derrotou o governador republicano Greg Abbott. O estado é um dos principais polos americanos de mineração de Bitcoin e de infraestrutura de inteligência artificial, e a campanha vencedora defendeu restrições à construção de novos centros de processamento de dados, além de exigências mais duras de consumo de energia e água nessas instalações. Papéis de mineradoras e de empresas de infraestrutura tecnológica recuavam perto de 5% nas negociações anteriores à abertura das bolsas americanas.
ETFs à vista: US$ 515 milhões de saída em outubro
Do outro lado da balança, a demanda institucional via fundos listados segue fraca. Dados da SoSoValue apontam aproximadamente US$ 515 milhões em resgate líquido nos ETFs americanos de Bitcoin à vista ao longo de outubro. Nos dois primeiros pregões de novembro, as retiradas já haviam alcançado montante semelhante.
Vikram Subburaj, CEO da corretora indiana Giottus, coloca as próximas sessões como teste decisivo. Caso o Bitcoin consiga se sustentar acima de US$ 78 mil mesmo com a sangria dos ETFs, o sinal é de que existe demanda fora dos fundos digerindo a oferta. A volta dos aportes daria base mais sólida à alta.
A faixa entre US$ 80 mil e US$ 82 mil
Markus Thielen, fundador da 10x Research, trabalha com a hipótese de o BTC buscar US$ 82 mil nos próximos dias. O argumento técnico é o momentum (velocidade da tendência): os indicadores mostram o ativo em sobrevenda, condição de exaustão da queda que costuma abrir espaço para repique. Thielen acrescenta dois fatores de sentimento — o compromisso de Trump de respeitar o resultado eleitoral e a chance de retomada das negociações de paz ligadas ao conflito com o Irã.
Na leitura de Lacie Zhang, chefe de pesquisa da Bitget Wallet, a faixa de US$ 80 mil a US$ 82 mil concentra a resistência mais importante do momento. A recuperação ganharia consistência não apenas ao superar esses níveis, mas também se o mercado secundário voltar a ganhar tração e o capital institucional retomar o fluxo de entrada.
O que fica no radar
A agenda da semana reserva um teste adicional: os dados de emprego dos Estados Unidos, previstos para sexta-feira (6), alimentam as apostas sobre os próximos movimentos do Federal Reserve e, por consequência, o humor dos ativos de maior risco. Para o investidor brasileiro, a combinação é conhecida — BTC em dólar respondendo a fluxo institucional americano, preço em reais definido também pelo câmbio e volatilidade concentrada em manchetes de política e regulação.
Um Congresso dividido tende a produzir menos clareza regulatória no curto prazo, porém menos risco de choque legislativo abrupto. Esse equilíbrio favorece quem acompanha o fluxo dos ETFs e a liquidez do mercado de opções, em vez de reagir apenas à manchete do dia: a recuperação atual tem lastro em opções, mas ainda enfrenta o contrapeso dos fundos listados — e é a diferença entre esses dois vetores que deve definir a consistência do movimento nas próximas sessões.
