A OranjeBTC (OBTC3) conseguiu elevar em cerca de 25% a quantidade de Bitcoin atribuída a cada ação em 2026. Durante a abertura do OranjeBTC Summit 2026, realizada na quinta-feira (5), o CEO Gui Gomes anunciou que a companhia prepara novos instrumentos financeiros inspirados em empresas internacionais de tesouraria de Bitcoin, entre eles ações preferenciais, papéis com regras de remuneração diferentes das ações ordinárias. A empresa também pretende ampliar sua presença nos Estados Unidos.
Quanto Bitcoin cabe em cada ação
Hoje a companhia tem 3.950 bitcoins em tesouraria, conforme o painel oficial divulgado por ela. Em termos simples, trata-se de manter a criptomoeda no balanço como reserva de valor. A OranjeBTC é tida como a maior companhia desse tipo na América Latina e figura entre as maiores companhias abertas do planeta quando o critério é o volume de reservas.
O indicador que orienta a estratégia é a quantidade de Bitcoin embutida em cada papel. No começo do projeto, eram necessárias cerca de 43.649 ações para representar indiretamente um bitcoin. Hoje, esse número caiu para aproximadamente 35.500 ações, resultado de duas frentes que se somam: o acúmulo da criptomoeda e a redução do total de papéis em circulação.
Essa melhora, porém, não obriga a bolsa a refletir o mesmo ganho. Cada ação passou a representar uma fatia maior das reservas, mas o preço do papel pode não acompanhar essa evolução na mesma proporção.
Outra alavanca é a recompra, operação em que a própria companhia adquire suas ações no mercado. Em setembro, a empresa comprou cerca de 4,36 milhões de papéis por R$ 23,1 milhões, em um momento de negociação abaixo do valor das reservas de Bitcoin. Com isso, a exposição dos acionistas à criptomoeda aumentou sem que novos bitcoins fossem adquiridos naquele período.
DIGY11 abriu a agenda de produtos
O ponto de partida foi o Digital Yield ETF (DIGY11), fundo negociado na B3. ETF é a sigla para fundo de índice negociado em bolsa, que pode ser comprado e vendido como uma ação. Diferentemente da maioria dos ETFs de criptomoedas, que acompanha diretamente a cotação do Bitcoin, o DIGY11 aplica em papéis emitidos por companhias que usam a criptomoeda como principal ativo de tesouraria, com a meta de distribuir renda periódica.
A carteira de estreia reúne ações preferenciais da Strategy, a maior companhia do segmento no mundo, e da Strive, empresa americana que também mantém reservas de Bitcoin. A exposição vem com proteção cambial, mecanismo que reduz o efeito da variação do dólar sobre o retorno em reais, e o objetivo declarado é pagar rendimentos em reais.
Nas oito primeiras semanas de existência, o fundo chegou a cerca de R$ 40 milhões em patrimônio e a mais de 1.200 investidores. Um recorte chamou a atenção do executivo: cerca de 40% dos cotistas do DIGY11 também possuem ações da OranjeBTC. Para ele, o dado mostra que há público interessado em diferentes instrumentos ligados ao Bitcoin, o que estimula novos lançamentos.
Ações preferenciais entram no radar
Ações preferenciais são uma classe de papel com regras próprias de remuneração, geralmente com prioridade sobre as ordinárias na distribuição de proventos. Nos Estados Unidos, companhias que acumulam Bitcoin em seus balanços têm recorrido a esse formato, que pode pagar remuneração periódica e captar dinheiro sem precisar emitir novas ações ordinárias.
A Strategy, comandada por Michael Saylor, usa o instrumento para financiar operações e ampliar suas reservas da criptomoeda. Uma das atrações é a perspectiva de dividendos, que permitem buscar renda sem depender apenas da valorização das ordinárias.
A OranjeBTC já acompanha esse mercado, tendo informado anteriormente que incorporou à própria carteira ações preferenciais da Strategy. Gomes enxerga com simpatia a ampliação desse mercado no exterior e indicou que instrumentos parecidos estão entre as novidades em estudo para os próximos meses no Brasil. Ainda assim, a companhia não divulgou características, valores ou datas de eventuais emissões.
Expansão internacional e o ADR ORNJY
O Brasil seguirá como principal mercado da empresa, mas o executivo identifica oportunidades em outros países, sobretudo nos Estados Unidos, onde há demanda de investidores estrangeiros por produtos ligados ao Bitcoin.
O primeiro movimento concreto nessa direção foi um programa de American Depositary Receipts (ADR), certificados que representam ações de uma companhia estrangeira e são negociados no exterior. O código ORNJY é negociado no mercado de balcão, modalidade fora do pregão centralizado da bolsa, e dá a investidores americanos exposição à empresa brasileira sem que precisem comprar as ações na B3. Gomes não apresentou cronograma para novos investimentos ou operações fora do país.
Receita recorrente e a aposta de longo prazo
Gomes colocou a rentabilidade operacional como prioridade. Para ele, a companhia precisa criar fontes de receita capazes de sustentá-la no longo prazo, independentemente das oscilações do Bitcoin. A proposta dialoga com a ideia de um negócio desenhado para durar 100 anos, e não apenas para atender resultados trimestrais ou ciclos de alta da criptomoeda.
Mesmo com a diversificação, o Bitcoin continua no centro das operações. O objetivo principal, segundo o CEO, é aumentar continuamente a quantidade de criptomoeda atribuída a cada ação.
A base de acionistas saltou de cerca de 150 no início do projeto para mais de 10 mil hoje. Gomes também afirmou que os papéis já estão entre os 150 de maior liquidez da B3, ou seja, entre os que podem ser comprados e vendidos com menor impacto no preço. Ele atribui esse movimento ao maior interesse por companhias que usam Bitcoin como ativo de tesouraria.
Os números que sustentam a estratégia
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Bitcoins em tesouraria | 3.950 |
| Ações por bitcoin no início | cerca de 43.649 |
| Ações por bitcoin hoje | cerca de 35.500 |
| Recompra de setembro | cerca de 4,36 milhões de ações por R$ 23,1 milhões |
| Patrimônio do DIGY11 nas primeiras oito semanas | cerca de R$ 40 milhões |
| Investidores do DIGY11 | mais de 1.200 |
| Acionistas da OranjeBTC | de cerca de 150 para mais de 10 mil |
O que muda para o investidor
Os anúncios ainda estão no campo da intenção. Há produtos já em operação, como o DIGY11 e o programa de ADRs, e há planos sem prazo, valor ou estrutura definidos, como as novas emissões de ações preferenciais. Separar essas duas categorias é o primeiro passo para avaliar o caso com precisão.
A métrica de Bitcoin por ação mede a exposição à criptomoeda por papel, mas não projeta o preço da ação na bolsa, que depende de outros fatores. Ações preferenciais, por sua vez, dependem da capacidade de pagamento da companhia emissora, e quem acompanhar futuras emissões precisará conferir regras de remuneração, prioridades e riscos de cada papel quando forem divulgados.
A sobreposição de cerca de 40% entre cotistas do DIGY11 e acionistas da OranjeBTC também sugere concentração de público. Na prática, parte relevante dos investidores tende a reagir ao mesmo cenário para o Bitcoin, o que aproxima os produtos entre si em vez de diversificá-los.
Para acompanhar a tese, o critério mais útil é separar três leituras: a quantidade de Bitcoin por ação, a cotação na bolsa e a geração de receita própria. A companhia apresenta as três como partes de uma mesma estratégia, mas elas nem sempre se movem na mesma direção.
