Principais pontos

  • O ouro bruto para uso não monetário, conhecido no mercado como bulhão dourado, saltou 52% nas vendas ao Canadá, atingindo US$ 2,06 bilhões.
  • Enquanto isso, commodities tradicionais perderam terreno: a alumina calcinada recuou 35%, para US$ 572,8 milhões, e o açúcar despencou 59%.
  • As aquisições de cloreto de potássio subiram 48%, com os chamados "outros cloretos de potássio" somando US$ 940,4 milhões.

A mutação da balança: o ouro como novo motor do superávit

O comércio bilateral entre Brasil e Canadá atingiu uma marca histórica no primeiro semestre de 2026, mas os bastidores desse recorde revelam uma mutação profunda na pauta de trocas. Segundo o Quick Trade Facts (QTF), da Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC), a corrente de comércio (soma de exportações e importações) saltou para US$ 5,47 bilhões, uma alta de 15% na comparação anual. O motor desse avanço não é o agronegócio tradicional, mas a migração de capital para ativos de refúgio em meio a tensões globais.

Para o investidor que acompanha o fluxo de divisas, o dado mais revelador está na composição das vendas. O ouro bruto para uso não monetário, conhecido no mercado como bulhão dourado, saltou 52% nas vendas ao Canadá, atingindo US$ 2,06 bilhões. Esse montante representa mais da metade de tudo o que o Brasil vendeu ao país norte-americente no período, que totalizou US$ 3,67 bilhões (+8%). A leitura analítica é que a busca por proteção patrimonial (hedge) em cenários de incerteza geopolítica está reconfigurando o superávit brasileiro, que fechou o semestre em US$ 1,88 bilhão.

A decadência das commodities tradicionais

A dependência do metal precioso contrasta com o desempenho de itens que historicamente lideram as vendas brasileiras. A pauta exportadora tradicional encolheu de forma expressiva, enquanto nichos específicos compensaram parte da perda.

ProdutoVariação no 1º Semestre 2026Valor / Destino
Alumina calcinada-35%US$ 572,8 milhões
Café verde-14%Queda expressiva
Açúcar-59%Colapso nas vendas
Carne bovina desossada+321%Disparo nas vendas
Máquinas carregadoras+140%Alta robusta
Querosene de aviação+89%Forte expansão

Enquanto isso, commodities tradicionais perderam terreno: a alumina calcinada recuou 35%, para US$ 572,8 milhões, e o açúcar despencou 59%. O executivo Hilton Nascimento, diretor-presidente da CCBC, pondera que a pauta permanece diversificada, com setores industriais contribuindo para o resultado, mas o peso do metal nobre ofusca a perda de espaço de produtos com maior cadeia de empregabilidade.

Geopolítica e a corrida por fertilizantes

Do lado das importações, o Brasil comprou US$ 1,80 bilhão em produtos canadenses, avanço de 31%. O vetor aqui é a segurança alimentar e a reorganização das cadeias de suprimentos. Nascimento pontua que o Canadá ganha relevância como fornecedor de insumos estratégicos, oferecendo estabilidade em um mercado global fragilizado por entraves logísticos e atritos entre Estados Unidos e Irã.

Os fertilizantes dominam as compras, respondendo por mais da metade do valor total. As aquisições de cloreto de potássio subiram 48%, com os chamados "outros cloretos de potássio" somando US$ 940,4 milhões. A diversificação de fornecedores para o Canadá reduz a exposição do agronegócio brasileiro a rotas marítimas vulneráveis no Oriente Médio. Além do campo, a indústria nacional também ampliou as compras de químicos, fármacos, máquinas e equipamentos aeronáuticos, como turborreatores e helicópteros.