O contrato de ouro para dezembro fechou a quinta-feira (29) a US$ 4.031,4 por onça-troy no Comex, o pregão de metais de Nova York — recuo de 0,50% numa sessão que teve como pano de fundo a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) de manter o juro básico no intervalo de 3,75% a 4,00% ao ano. A prata, no mesmo vencimento, sofreu perda bem mais acentuada: 2,40%, encerrando a US$ 52,380 por onça-troy. A onça-troy é a unidade de medida padrão nas negociações de metais preciosos.
O placar da reunião diz mais sobre o rumo do metal do que o preço de fechamento em si. A manutenção já estava no consenso; o que mexeu com a mesa foi a combinação de votos divergentes com um diagnóstico mais favorável da economia americana — arranjo que, na leitura do Sucden Financial, mantém a possibilidade de alta da taxa em dezembro segue viva. A corretora acrescenta que a tendência de aperto monetário segue como fonte de pressão sobre ouro e prata.
O canal de transmissão é o custo de oportunidade, expressão que traduz o rendimento que o investidor abre mão ao escolher um ativo sem juros nem proventos, caso do metal. Juro mais alto pela frente tende a tornar esse custo mais visível para quem carrega posição.
Duas dissidências e uma economia lida como mais otimista
A votação não foi unânime. Lisa Cook, dirigente do Fed, e Beth Hammack, presidente da unidade de Cleveland do banco central americano, registraram posição contrária à da maioria. O colegiado também passou a descrever a atividade econômica de forma menos pessimista, o que, segundo o Sucden Financial, alimenta a aposta em aperto já no encontro de dezembro.
Para o mercado de metais, o efeito é direto: um Fed com viés de alta retira parte do argumento de proteção que costuma favorecer o ouro em ciclos de juro em queda. Historicamente, o metal tende a perder tração quando a taxa real — o juro descontado da inflação — aponta para cima.
PCE de setembro e PIB do 3º trimestre vêm fortes
Antes da decisão, o Departamento do Comércio dos EUA divulgou o PCE de setembro, índice de preços de gastos com consumo pessoal que é a medida de inflação acompanhada de perto pelo Fed, e o PIB do terceiro trimestre. Os resultados vieram robustos e, na avaliação da Capital Economics, dão lastro à tese do banco central de que as pressões inflacionárias continuam elevadas e a atividade segue firme.
O raciocínio se completa assim: inflação resistente tende a prolongar o período de juro alto, e juro alto costuma reduzir o apetite por ativos que não remuneram o investidor. Nesta sessão, esse encadeamento prevaleceu sobre qualquer busca por proteção.
BCE também mantém, com juros em 2,5% ao ano
Na Europa, o Banco Central Europeu (BCE) repetiu a decisão de setembro e deixou a taxa em 2,5% ao ano, conforme comunicado da mesma quinta-feira. O ambiente de política monetária restritiva, portanto, não é exclusividade americana — o que amplia o peso do fator juro sobre os metais.
| Referência (vencimento dezembro, Comex) | Fechamento | Variação |
|---|---|---|
| Ouro | US$ 4.031,4/onça-troy | -0,50% |
| Prata | US$ 52,380/onça-troy | -2,40% |
| Banco central | Decisão | Taxa |
|---|---|---|
| Fed (EUA) | manutenção | 3,75% a 4,00% ao ano |
| BCE (zona do euro) | manutenção | 2,5% ao ano |
Saxo Bank vê US$ 4.500 no fim do ano e faixa de US$ 5.000 a US$ 5.500
O Saxo Bank projeta que o ouro pode avançar até US$ 4.500 por onça até o encerramento do ano e, num cenário sem novos repiques nos preços de energia e sem piora das expectativas de inflação, circular entre US$ 5.000 e US$ 5.500. Um dos pilares citados pela casa é a compra persistente de ouro por bancos centrais ao redor do mundo, que sustenta a demanda física pelo metal mesmo em períodos de juro elevado.
Encontro de dezembro é o próximo teste para o metal
A agenda que o mercado passou a monitorar tem data: a reunião do Fed marcada para dezembro, apontada como janela possível para um novo aperto. Até lá, cada indicador de inflação e de atividade americano entra na conta do preço do ouro.
Para o investidor brasileiro com exposição ao metal, o preço em dólar é apenas parte do resultado. A conversão para reais acrescenta o efeito do câmbio, que pode amplificar ou amortecer o movimento visto na Comex. Já a prata, que caiu bem mais do que o ouro nesta sessão, tende a responder com oscilações proporcionalmente maiores às mesmas mudanças de política monetária — característica que amplia o risco de quem a utiliza como diversificação.
