Tese em 3 pontos

  1. A Petrobras (PETR4) assinou um contrato de compra de GNL (gás natural liquefeito) com os Estados Unidos com duração de 22 anos, prevendo 800 mil toneladas por ano — o equivalente a 17,6 milhões de toneladas ao longo da vigência.
  2. A disputa envolve 40 declarações de compensação, as chamadas DECOMs.
  3. A UBS BB reduziu o preço-alvo das ações da Vale para apenas R$ 77, ante os R$ 85 fixados antes, e adotou recomendação neutra.

A tese de PETR4, VALE3 e BBAS3 chega ao fim de setembro em direções distintas. O Ibovespa subiu 5% no mês, os bancos sustentaram a alta no último pregão e a Vale tocou a mínima do ano, enquanto a Petrobras trocava volatilidade de curto prazo por previsibilidade contratual de duas décadas.

A pergunta que organiza a decisão é o que, de fato, mudou no caso de investimento de cada ativo. Na Petrobras, a leitura é a de redução de risco de custo, mas com um passivo tributário bilionário ainda em aberto. No Banco do Brasil, o preço embute um prêmio eleitoral. Na Vale, a distância entre os preços-alvo das casas de análise expõe o desacordo sobre o valor do minério e do frete.

Petrobras: o contrato de gás que muda a previsibilidade (PETR4)

A Petrobras (PETR4) assinou um contrato de compra de GNL (gás natural liquefeito) com os Estados Unidos com duração de 22 anos, prevendo 800 mil toneladas por ano — o equivalente a 17,6 milhões de toneladas ao longo da vigência. O modelo é do tipo FOB: a subsidiária americana entrega o gás no terminal de exportação e, a partir dali, a Petrobras assume a logística marítima.

O negócio não parece isolado. Semanas antes, a companhia havia fechado outro acordo, com a americana Sempre, para mais 0,8 milhão de toneladas anuais por 20 anos. Somados, os dois contratos chegam a 1,6 milhão de toneladas de GNL por ano quando estiverem simultaneamente em vigor. Em 2025, a estatal já havia contratado outros 0,8 milhão de toneladas anuais com a britânica Centrica, por 15 anos.

O GNL cumpre a função de seguro de abastecimento: cobre faltas de gás no sistema brasileiro ou picos de demanda das termelétricas, evitando compras emergenciais no mercado spot — justamente quando os preços disparam. Para a tese de longo prazo, o efeito tende a ser a redução da volatilidade de custo e da exposição inflacionária, o que pode tornar a geração de caixa mais previsível.

A perda de R$ 2,8 bilhões em créditos tributários

Do outro lado, a Petrobras sofreu uma derrota bilionária. A companhia perdeu R$ 2,8 bilhões em créditos tributários de PIS e Cofins que entendia ter direito a usar para compensar impostos ou pedir restituição, ligados a operações de 2010 e 2011, principalmente compra de gás boliviano para revenda e ativos imobilizados.

A disputa envolve 40 declarações de compensação, as chamadas DECOMs. A 3ª Turma da Câmara Superior do CARF manteve, de forma unânime, o entendimento desfavorável de 2019, sob o argumento de que cabia à própria Petrobras comprovar a existência e a origem dos créditos, e de que a documentação apresentada foi insuficiente. O colegiado não reexaminou integralmente o mérito da disputa, por considerar que o precedente apresentado não era suficientemente semelhante.

O caso pode não ter terminado. A empresa pode apresentar embargos ao próprio CARF e, depois, levar a discussão ao Judiciário — o que mantém a incerteza sobre o desfecho e sobre o impacto contábil definitivo.

O que os múltiplos de PETR4 dizem sobre a tese

A ação era negociada a R$ 49,77, com valorização de 67,55% nos últimos 12 meses. A leitura de valuation aponta para um papel ainda considerado barato: o P/L aparece em patamar baixo, o P/VP está 33% acima do valor patrimonial e o dividend yield soma 7,37%.

Segundo a fórmula de Benjamin Graham aplicada no material, o preço justo das ações da Petrobras seria de R$ 93, o que implicaria alta potencial de 87% — número que a fonte atribui ao método e não a uma projeção de resultado. Vale lembrar que o dividend yield cai quando a cotação sobe, enquanto o investidor que comprou há 12 meses carrega um dividend on cost maior.

AtivoCotaçãoVar. 12 mesesP/LP/VPDY
PETR4R$ 49,77+67,55%abaixo de 5x33% acima do patrimônio7,37%
BBAS3R$ 23,00+7,87%10,7529% abaixo do patrimônioabaixo de 3%
VALE3R$ 70,36+26,45%não citado59% acima do patrimônio8%

Setembro, o rally dos bancos e o Banco do Brasil (BBAS3)

O Ibovespa terminou setembro em alta de 5%, e os bancos foram decisivos no pregão de 30 de setembro: o Itaú avançou 5%, o Bradesco subiu cerca de 4% e o Banco do Brasil ganhou 4,7%, voltando à região dos R$ 23. Como os bancos têm peso relevante no índice, uma alta sincronizada tem força para empurrar o Ibovespa inteiro para cima.

No caso do Banco do Brasil, há um componente adicional: as expectativas ligadas ao cenário eleitoral, que vêm aumentando a volatilidade da ação. Uma pesquisa divulgada em 30 de setembro mostrou 39,4% para Lula e 38,4% para Flávio Bolsonaro no primeiro turno, dentro da margem de erro de 2,2 pontos percentuais, com 2.000 eleitores entrevistados entre 25 e 28 de setembro.

Os números do banco mostram P/L de 10,75, P/VP 29% abaixo do valor patrimonial e dividend yield abaixo de 3%. A leitura é a de um papel que já foi muito mais barato, mas que convive com um momento diferente — reforçando que o prêmio de risco hoje parece mais político do que operacional.

Vale: mínima do ano e a divergência entre UBS BB e Itaú BBA (VALE3)

A Vale terminou setembro em situação desconfortável. Depois de cair mais de 10% no mês, rompeu os R$ 70 e fechou a R$ 69,61 no pregão de 29 de setembro, o menor fechamento do ano até então. Os dois culpados apontados são o minério de ferro mais barato e o frete marítimo mais caro — o frete no mercado spot chegou a cotar R$ 43 por tonelada.

A UBS BB reduziu o preço-alvo das ações da Vale para apenas R$ 77, ante os R$ 85 fixados antes, e adotou recomendação neutra. Considerando o fundo do movimento, em torno de R$ 69,91, a casa passaria a enxergar alta potencial de cerca de 10%. Já o Itaú BBA trabalha com R$ 94 até o fim de 2027, vindo de R$ 95, e manteve a recomendação de compra em relatório publicado em 18 de agosto.

A leitura é a de que a discussão não é tanto sobre a qualidade do ativo, mas sobre quais premissas de minério, frete e geração de caixa entram na planilha. Duas grandes casas olham para a mesma empresa e enxergam potenciais de valorização muito diferentes — o que expõe o grau de incerteza da tese.

A ação era negociada a R$ 70,36, com valorização de 26,45% nos últimos 12 meses, 59% acima do valor patrimonial e dividend yield de 8%.

CPFL Energia (CPFE3): dividendos e a divergência dos bancos

Entre as elétricas apontadas como favoritas para grandes pagamentos de dividendos, a CPFL Energia (CPFE3) pode pagar cerca de 11%. Itaú BBA e Bradesco BBI elevaram o preço-alvo das ações, mas apenas um deles mantém recomendação de compra — um contraste que resume o trade-off da tese: o atrativo da renda convive com a divergência sobre o espaço de valorização.

Destaques do mês na bolsa

O varejo e a mineração apareceram entre as maiores altas do Ibovespa em setembro, mostrando o giro setorial do mês:

  • Magazine Luiza subiu 10,11%, a R$ 7,30 por ação, contrariando quem projetava dificuldades.
  • CSN Mineração avançou 7,22%, em um papel de oscilação forte.
  • R Vida ganhou 6,69% e Dux subiu 6,53%.
  • Cosan (CSAN3) avançou 6,18%, a R$ 3,99, depois de cair 35% nos últimos 12 meses e amargar prejuízo — o P/L é negativo.

O que muda para investidores

Os fatos de setembro não fecham a decisão, mas reposicionam o risco de cada tese. Na Petrobras, o contrato de 22 anos pode reduzir a volatilidade de custo, enquanto o passivo de R$ 2,8 bilhões segue pendente de recurso. No Banco do Brasil, o preço embute prêmio eleitoral que pode ou não se confirmar. Na Vale, o trade-off está entre o dividend yield de 8% e a divergência de preço-alvo entre as casas — o que exige clareza sobre qual cenário de minério e frete o investidor aceita como premissa.

A leitura é direta para quem acompanha: cada ativo traz um catalisador diferente — o gás e o CARF na Petrobras, a eleição no Banco do Brasil e o custo do frete na Vale — e é esse conjunto que define a assimetria entre o que se ganha no cenário bom e o que se perde no ruim.