Tese em 3 pontos

  1. O Banco do Brasil registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões no segundo trimestre, com ROE de 8,3% e inadimplência acima de 90 dias em 5,61%.
  2. O Safra estima que as ações possam render de uma queda de 45% a uma alta de 100% até 2027, mas mantém recomendação neutra e preço-alvo de R$ 23.
  3. O consignado para beneficiários do INSS e servidores públicos responde por cerca de R$ 14,2 bilhões, aproximadamente 35% dos R$ 40 bilhões que viraram manchete no novo Desenrola Brasil.

Safra vê de -45% a +100%: a assimetria que organiza a tese de BBAS3

O Banco do Brasil (BBAS3) entra no período eleitoral com uma tese que o mercado trata como binária. Segundo o Safra, as ações podem entregar desde uma queda de 45% até uma alta de 100% até 2027, a depender do cenário macroeconômico e do resultado das urnas. A casa mantém, ainda assim, recomendação neutra e preço-alvo de R$ 23 — praticamente o mesmo nível da cotação de R$ 23,69 observada no momento da análise.

O Safra estima que as ações possam render de uma queda de 45% a uma alta de 100% até 2027, mas mantém recomendação neutra e preço-alvo de R$ 23. Na prática, a recomendação neutra indica ausência de prêmio no cenário-base: o alvo fica levemente abaixo do preço de tela, e o investidor que olha apenas para o papel não encontra, na projeção central, o desconto que justificaria o risco adicional.

O que decide o caso é o que o banco não controla: juros, dólar e percepção fiscal. No cenário chamado de Grey Sky — sem consolidação fiscal, inflação elevada e relação dívida/PIB em alta —, o Safra projeta Selic a 16,5% e dólar a R$ 6,50, com tombo de 49% para o papel. No extremo oposto, o Blue Sky trabalha com Selic recuando a 8,5% e dólar a R$ 4,20, o que levaria o retorno total estimado a 94%.

CenárioSelic projetadaDólar projetadoRetorno total estimado para BBAS3
Grey Sky16,5%R$ 6,50-49%
Blue Sky8,5%R$ 4,20+94%

A assimetria é grande em magnitude, mas não é simétrica em probabilidade. A própria curva de juros futuros, segundo a leitura apresentada, aponta hoje para alta e não para queda — o que significa que o mercado trabalha mais próximo do cenário adverso do que do cenário de céu de brigadeiro.

O balanço: lucro de R$ 3,9 bi, ROE de 8,3% e crédito caro

O Banco do Brasil registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões no segundo trimestre, com ROE de 8,3% e inadimplência acima de 90 dias em 5,61%. O lucro cresceu 13,9% frente ao trimestre anterior e 3,3% na comparação anual, mas a rentabilidade segue muito distante dos patamares históricos na casa dos 20%.

A margem financeira bruta somou R$ 27,5 bilhões, praticamente estável na comparação trimestral (0,2%) e 9,6% acima do registrado um ano antes. As receitas com prestação de serviços alcançaram R$ 9,1 bilhões, com alta de 3,4% no trimestre e 4,2% em doze meses. Do outro lado, as despesas administrativas avançaram 0,6% no trimestre e 4,1% ano contra ano — ou seja, cresceram mais que o lucro ajustado. O índice de capital principal ficou em 11,27%.

O ponto de pressão continua sendo o custo do crédito, que somou R$ 18,5 bilhões: queda de 2,1% contra o trimestre anterior, mas alta de 16,1% na comparação anual. Em outras palavras, o banco gerou receita, e boa parte dela foi consumida pelas provisões.

A carteira de crédito expandida superou R$ 1,3 trilhão, com expansão de 1,5%. O problema apontado é a composição: cresceram 4,4% as linhas de pessoa física e 4,1% o agronegócio — justamente os segmentos que mais geram calote —, enquanto o segmento de menor inadimplência recuou 2,5%. Entre as perdas detalhadas, a pessoa jurídica respondeu por R$ 2,8 bilhões, o menor ofensor da carteira, com agronegócio e pessoa física liderando as provisões.

O índice de inadimplência acima de 90 dias saiu de 3,96% no segundo trimestre do ano anterior para 5,05% no primeiro trimestre e 5,61% no trimestre mais recente. Aplicado sobre uma carteira de R$ 1,3 trilhão, o percentual deixa de ser um detalhe contábil e passa a consumir diretamente o lucro — e, por consequência, a base de dividendos.

O contraste com o Bradesco é explícito na análise: enquanto o concorrente reformulou sua linha de crédito, redesenhou estratégias e vem melhorando gradualmente o ROE com queda de inadimplência, o Banco do Brasil segue na direção oposta, ampliando carteira exatamente onde o crédito performa pior.

Desenrola Brasil: os R$ 40 bilhões que a manchete não explica

Em meio à pressão de inadimplência, o banco anunciou R$ 40 bilhões negociados no novo Desenrola Brasil. O número, porém, mistura operações de naturezas diferentes. No Desenrola Famílias foram R$ 4,5 bilhões negociados com 496 mil clientes; fora do programa, outros R$ 10 bilhões foram renegociados com 794 mil pessoas físicas. O Fies respondeu por R$ 3,7 bilhões e o Desenrola Rural, por R$ 16 milhões.

Há ainda R$ 6,2 bilhões desembolsados para empresas via Pronamp e Procred. E o consignado para beneficiários do INSS e servidores públicos responde por cerca de R$ 14,2 bilhões, aproximadamente 35% dos R$ 40 bilhões que viraram manchete no novo Desenrola Brasil. Parte do total é renegociação de dívida antiga; parte é crédito novo concedido — distinção que muda completamente a leitura do anúncio.

Privatização entra no radar eleitoral

A avaliação de que o papel poderia destravar valor em um cenário de venda do controle ganhou força após declarações atribuídas a integrantes da campanha de Flávio Bolsonaro, que admitiram a possibilidade de privatização. O mercado passou a precificar alternativas de preço para esse cenário, partindo da premissa de que empresas privatizadas tendem a ser reavaliadas por conta das ineficiências associadas à gestão estatal no Brasil.

A ressalva é que privatização, nesse caso, é hipótese condicionada ao resultado eleitoral — não é fato com prazo definido. Para o investidor, o tema funciona como opção embutida no preço, e não como parte do cenário-base.

Análise técnica: rompimento, resistência e suporte

No gráfico semanal, a ação rompeu a estrutura lateral que vinha sendo montada e superou a região de resistência considerada mais relevante, em R$ 23,28. Apenas na última semana do período analisado, a valorização foi de 9,87%. Com o rompimento, cresce a expectativa de teste dos R$ 24,84, sem, no momento, elemento técnico que contrarie esse movimento — ressalvado o risco de um evento externo, como o desfecho eleitoral, degradar o quadro.

A região de suporte mais relevante é apontada entre R$ 21,27 e R$ 21,40. Abaixo disso, a leitura é de reversão da tendência de curto prazo.

O que muda para investidores

O caso de investimento em BBAS3 pode ser resumido em três frentes que a fonte trata como interdependentes:

  • Macro e eleições: a faixa de retorno projetada, de queda de 45% a alta de 100%, transforma o papel em uma aposta direta no cenário fiscal, na Selic e no dólar — e não apenas na operação bancária.
  • Qualidade do crédito: enquanto a inadimplência acima de 90 dias não ceder de 5,61% e o custo do crédito não recuar dos R$ 18,5 bilhões, boa parte da receita tende a continuar sendo absorvida por provisões, o que pressiona o lucro e a capacidade de distribuição.
  • Valuation e expectativa: com P/L de 11,08 e preço-alvo de R$ 23 do Safra, o retorno esperado no cenário-base é modesto. O prêmio maior tende a aparecer apenas em cenários condicionais — privatização ou queda forte de juros —, ambos dependentes de eventos fora do controle do banco.

O que reforçaria a tese é a combinação de melhora da safra de crédito com arrefecimento da curva de juros. O que a enfraquece é a persistência da composição de carteira atual, que concentra expansão em agronegócio e pessoa física, os dois maiores ofensores de provisão. Os próximos balanços e o desfecho eleitoral funcionam como os dois testes objetivos dessa leitura — e é neles que a assimetria de -45% a +100% começa a se resolver.