O Itaú BBA colocou números nas frentes que podem disputar o caixa da Petrobras (PETR3; PETR4) e o resultado aponta para investimentos acima do que consta no planejamento da estatal. O banco projeta capex — os desembolsos em ativos e projetos — de US$ 22,7 bilhões em 2027 e US$ 22 bilhões em 2028, contra US$ 21 bilhões e US$ 20,5 bilhões previstos no Plano Estratégico em vigor. Em 2029 e 2030, as estimativas recuam para US$ 17,3 bilhões e US$ 16,1 bilhões.

O relatório temático do banco mantém a exploração e produção como núcleo da estratégia, mesmo com a lista de oportunidades sob avaliação tendo crescido. Além de óleo e gás, a estatal discute combustíveis, fertilizantes, petroquímica, minerais críticos, etanol e uma possível reentrada na distribuição de combustíveis e no gás liquefeito de petróleo (GLP), o gás de botijão usado no consumo doméstico. O leque de destinos do capital cresceu, mas o petróleo segue dono da maior parte da conta.

Oito etiquetas de preço na mesa

Para quem acompanha o papel, a pergunta prática deixou de ser apenas quanto a Petrobras vai investir e passou a ser em quantas direções esse capital pode se dividir. O banco atribuiu valores às apostas em avaliação, e o contraste entre elas mostra o que está em disputa.

FrenteValor estimado pelo Itaú BBAPonto de referência
Exploração e produçãoUS$ 11,5 bilhõesBúzios 12 e revitalização de Albacora, com a fatia da Petrobras
Refinocerca de US$ 2 bilhõesaporte incremental para atender 100% do diesel até 2030
Refinaria de MataripeUS$ 1,5 bilhão a US$ 3 bilhõesativo alienado em 2021 por US$ 1,65 bilhão
GLPaproximadamente R$ 7 bilhõesvalor de referência da Ultragaz
Braskemcerca de US$ 2 bilhõesaporte em cenário de aumento de capital
EtanolR$ 20 bilhões ou R$ 18 bilhõesvalor de firma de empresa consolidada ou patrimônio de projetos novos
Fertilizantescerca de US$ 4,8 bilhõesexpansão hipotética até 2,95 milhões de toneladas por ano
Minerais críticosR$ 250 milhões a R$ 1 bilhãode exposição baixa até o controle de um projeto novo

Os dois projetos de exploração e produção apontados como candidatos a decisão final de investimento — a etapa em que a companhia aprova formalmente o orçamento de um campo — somam US$ 11,5 bilhões de capex, considerando a fatia da Petrobras. Búzios 12 e a revitalização de Albacora estão entre os maiores compromissos individuais do mapa. Na fronteira exploratória, a Margem Equatorial permanece como a mais relevante do país, enquanto a África se destaca entre as iniciativas internacionais.

O leque de destinos do capital cresceu, mas o petróleo segue dono da maior parte da conta.

Refino: meta de diesel a 100% sai mais barata que refinaria nova

A Petrobras reafirmou o objetivo de atender 100% da demanda brasileira por diesel até 2030. Para o Itaú BBA, isso exigiria cerca de 175 mil barris por dia de produção adicional frente ao que está no Plano de Negócios 2026-2030. A rota apontada como mais econômica passa por modernizações e eliminação de gargalos nas unidades existentes, com aproximadamente US$ 2 bilhões em aportes incrementais. Erguer uma refinaria nova custaria algo entre US$ 10 bilhões e US$ 12 bilhões, o que muda a natureza da decisão de alocação.

Mataripe também entrou no radar. O banco estima o ativo entre US$ 1,5 bilhão e US$ 3 bilhões, com a variação atrelada principalmente às premissas de utilização e de margem de refino. A Petrobras alienou a refinaria em 2021 por US$ 1,65 bilhão — o topo do intervalo hoje projetado supera com folga o valor recebido na venda.

Distribuição, GLP e etanol: o calendário manda

A volta à distribuição de combustíveis esbarra em uma trava contratual. A Petrobras confirmou que analisa a reentrada, mas qualquer movimento depende do fim do acordo de não concorrência com a Vibra (VBBR3), previsto para meados de 2029. O banco considera a compra de uma distribuidora já em operação o caminho mais plausível; estruturar uma operação do zero aparece como hipótese menos provável.

No GLP, a discussão é sobre recomprar um negócio que já foi da casa: a distribuição do segmento foi vendida em 2020 por R$ 4 bilhões. Como parâmetro de valor, o Itaú BBA cita a Ultragaz, estimada em aproximadamente R$ 7 bilhões.

O etanol entrou no plano em 2024, quando a companhia anunciou o retorno ao setor por meio de parcerias. Duas rotas estão na mesa segundo o banco: comprar uma fatia minoritária de uma empresa consolidada, avaliada em cerca de R$ 20 bilhões, ou apostar no desenvolvimento de projetos novos, com patrimônio estimado em R$ 18 bilhões.

Braskem, fertilizantes e minerais: apostas fora do óleo

Na petroquímica, a Petrobras detém 47% do capital votante e 36,2% do capital total da Braskem (BRKM5). Caso a companhia decida acompanhar um aumento de capital da petroquímica e manter a fatia que já tem, o desembolso calculado pelo banco é de cerca de US$ 2 bilhões.

Em fertilizantes, a companhia estuda ampliar a capacidade das plantas existentes e mencionou a possibilidade de dobrar o tamanho das instalações atuais e da UFN-III. Usando a UFN-III como referência, o banco calcula que levar a produção a 2,95 milhões de toneladas por ano custaria cerca de US$ 4,8 bilhões.

Os minerais críticos fecham a lista. A Petrobras avalia oportunidades em insumos ligados a baterias e armazenamento de energia — lítio, sódio, grafite, níquel e cobalto —, além de potássio e fosfato para fertilizantes. Uma eventual entrada em mineração exigiria mudança no estatuto da companhia. O banco dimensiona a alocação em cerca de R$ 250 milhões em um cenário de baixa exposição, podendo chegar a R$ 1 bilhão caso a estatal assuma o controle de um projeto novo.

Capex, petróleo e produção: as premissas por trás da conta

Indicador20262027202820292030
Capex estimado (Itaú BBA)US$ 22,7 biUS$ 22,0 biUS$ 17,3 biUS$ 16,1 bi
Capex no Plano EstratégicoUS$ 21,0 biUS$ 20,5 bi
Produção estimada (milhões de barris/dia)2,72,93,1
Petróleo no fim do ano (US$/barril)8075656565

A última linha traz a projeção do banco para o encerramento de cada período; a partir de 2028, o patamar de US$ 65 é mantido. O volume de produção projetado supera o que está no Plano Estratégico nos três primeiros anos da série.

Na avaliação do Itaú BBA, a Petrobras mantém recomendação de compra, com PETR3 e PETR4 entre as principais escolhas do banco no setor e alvo revisado de R$ 63 para R$ 64. A casa destaca a robustez operacional — produção em crescimento, maior utilização das refinarias e custos de extração menores — como elemento que ajuda a sustentar a geração de caixa mesmo se os preços do petróleo voltarem a um patamar mais normal.

A aceleração dos investimentos também não aparece como preocupação relevante por ora. Segundo o relatório, o avanço do capex está concentrado no pré-sal — projetos de baixo custo de extração e retorno potencial elevado — e antecipar essas obras tende a adiantar a geração de caixa futura.

O que observar daqui para frente

Dois pontos concentram o monitoramento. O primeiro é a política de preços: a Petrobras anunciou um reajuste da gasolina em setembro e depois voltou atrás sem apresentar justificativa empresarial detalhada, o que reacendeu questionamentos sobre o quanto essas decisões são consistentes e independentes. O segundo é o diesel, sensível porque o país depende de importações e os preços internos vinham defasados frente ao mercado internacional.

Para quem tem exposição ao papel, o mapa de alocação de capital passa a ter tanto peso quanto o volume produzido. Cada frente nova carrega um valor estimado, um prazo próprio — como o acordo com a Vibra, que empurra qualquer movimento na distribuição para meados de 2029 — e um grau diferente de execução. O capex acima do plano para 2027 e 2028 é o sinal mais concreto de que essa disputa por recursos já começou a aparecer nos números.