A PetroReconcavo (RECV3) encerrou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 236 milhões, crescimento de 94% sobre o mesmo intervalo de 2025 e de 16% frente aos três meses anteriores. O número que abre o balanço, porém, carrega um componente que não passa pelo caixa: a marcação a mercado dos swaps vinculados à dívida — o ajuste contábil de contratos de troca de indexadores de juros e câmbio, que sobe quando as curvas futuras recuam.

Com juros e câmbio futuros em queda no período, esse ajuste empurrou o resultado para cima. A companhia informou que, sem os efeitos contábeis, o lucro líquido ajustado do trimestre ficaria em aproximadamente R$ 145 milhões. É um patamar saudável, mas bem distante da leitura de lucro quase dobrado que o indicador bruto sugere.

Receita estável, Ebitda de R$ 379 milhões e margem de 48,2%

A receita líquida somou R$ 786 milhões entre julho e setembro, praticamente repetindo o 3T25 e recuando 3% frente ao 2T26. A queda das receitas com petróleo puxou o resultado para baixo; o avanço das vendas de gás natural e da prestação de serviços compensou parte da perda.

O Ebitda ajustado — lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, na sigla em inglês — alcançou R$ 379 milhões, 8% acima de um ano antes. A margem chegou a 48,2%, contra 44,5% no 3T25. Na comparação sequencial o indicador cedeu 4%, movimento que acompanha a desvalorização de 7% do preço médio do Brent no período. O Ebitda contábil ficou em R$ 360 milhões, com alta de 3%.

Produção de 23,7 mil boe/d: Potiguar pesa e a Bahia compensa em parte

A produção média ficou em 23,7 mil barris de óleo equivalente por dia (boe/d, medida que soma petróleo e gás convertidos em energia), recuo de 10% em base anual e de 2% frente ao 2T26. O Ativo Potiguar foi o principal responsável pela perda, parcialmente neutralizada pelos projetos de recuperação secundária — técnicas para retirar mais petróleo de campos já em produção — e pelo avanço em campos baianos.

Os números do 3T26 lado a lado

Indicador3T26Comparação
Lucro líquidoR$ 236 mi+94% a/a e +16% t/t
Lucro líquido ajustado~R$ 145 miexclui efeito dos swaps
Receita líquidaR$ 786 miestável a/a e -3% t/t
Ebitda ajustadoR$ 379 mi+8% a/a e -4% t/t
Margem Ebitda ajustada48,2%44,5% no 3T25
Produção média23,7 mil boe/d-10% a/a e -2% t/t
Fluxo de caixa livreR$ 134 mi+81% t/t
CaixaR$ 1,7 biposição de setembro
Dívida líquidaR$ 1,2 bi-23% vs fim de 2025
Dívida líquida/Ebitda0,90x1,10x no fim de 2025

Fluxo de caixa livre de R$ 134 milhões e dívida 23% menor

O fluxo de caixa livre — o que sobra após despesas operacionais e investimentos — ficou em R$ 134 milhões, 81% mais que no trimestre anterior. No acumulado de 2026 o indicador chega a R$ 288 milhões, contra geração negativa em igual janela de 2025. A posição de caixa em setembro era de R$ 1,7 bilhão.

A dívida líquida caiu a R$ 1,2 bilhão, 23% abaixo do patamar de encerramento de 2025 — o endividamento bruto menos o dinheiro disponível em caixa. A relação dívida líquida/Ebitda, principal termômetro de alavancagem usado pelo mercado, recuou de 1,10 vez para 0,90 vez.

Contrato com a Brava até 2030 e a fatura de US$ 60 milhões em Miranga

Na frente comercial, a companhia fechou contrato de comercialização de petróleo com a Brava Energia (BRAV3) com validade até 2030. Em gás, contratou capacidade de processamento na UTG Catu para o intervalo de 2028 a 2037, movimento que permitiu suspender aportes estimados em US$ 60 milhões na unidade de processamento de Miranga.

Dívida menor e caixa de R$ 1,7 bilhão: o que muda para quem acompanha RECV3

O trimestre separa dois tipos de resultado. O lucro contábil tende a oscilar ao sabor das curvas de juros e câmbio, o que torna o avanço de 94% pouco comparável entre períodos e sujeito a reversão quando o vetor macro vira. A geração de caixa e a queda da alavancagem, por outro lado, respondem menos a esse vaivém e ajudam a dimensionar o fôlego da empresa justamente em uma janela de produção menor e Brent mais baixo.

Historicamente, a combinação de caixa robusto com endividamento em queda costuma dar às companhias de óleo e gás mais graus de liberdade para atravessar ciclos de preço, refinanciar passivos e sustentar investimentos. No caso da PetroReconcavo, a trajetória de produção — especialmente a recuperação do Ativo Potiguar — segue como a variável a monitorar nos próximos balanços, ao lado da capacidade de repetir o fluxo de caixa livre positivo agora que o acumulado do ano virou o jogo em relação a 2025.