Principais pontos

  • O Índice de Preços ao Produtor (PPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos apresentou estabilidade em julho, frustrando as projeções de mercado
  • a valorização recente das ações está, paradoxalmente, gerando pressão inflacionária via tarifas de administração
  • eventuais ajustes ficarão para outubro ou dezembro, condicionados aos próximos dados

O Índice de Preços ao Produtor (PPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos apresentou estabilidade em julho, frustrando as projeções de mercado e consolidando a tese de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) manterá a taxa de juros inalterada na próxima reunião. Enquanto o indicador geral recuou para 4,7% no acumulado de 12 meses, a leitura detalhada revela uma divisão clara entre o alívio nos bens e a persistência inflacionária em certos serviços.

O que os dados brutos não mostram de imediato é a influência direta do mercado de capitais na métrica que o Fed realmente monitora: o PCE (Índice de Despesas de Consumo Pessoal). Segundo cálculos do Goldman Sachs, a alta de 6,5% na categoria de gestão de carteiras e aconselhamento de investimentos deve ser responsável por 11 pontos-base do avanço de 0,20% estimado para o núcleo do PCE em julho. Ou seja, a valorização recente das ações está, paradoxalmente, gerando pressão inflacionária via tarifas de administração, mantendo a inflação de serviços resiliente.

O alívio nos bens e a sombra dos serviços

A estagnação do PPI mensal — que ficou em 0,0%, ante a expectativa de alta de 0,1% e o recuo de 0,1% de junho — foi puxada pelo setor de bens, que registrou queda de 0,7%. O destaque negativo ficou por conta da energia, com tombo de 3,1%, e da gasolina, que despencou 5,7%. Os alimentos também aliviaram o índice, com retração de 0,9%.

Do outro lado da moeda, o setor de serviços desacelerou, mas ainda avançou 0,2% em julho, abaixo dos 0,5% de junho. Essa dinâmica foi distorcida pela mencionada alta na gestão de portfólios, que parcialmente compensou a queda de 1,8% nos custos de transporte de cargas por caminhão. O núcleo do PPI, que exclui alimentos e energia, subiu 0,2%, aquém dos 0,3% projetados, enquanto a leitura anual ficou em 4,2%, em linha com o consenso.

IndicadorJulho (Mensal)ExpectativaAcumulado 12m
PPI Geral0,0%0,1%4,7%
Núcleo (exclui alimentos/energia)0,2%0,3%4,2%
Bens-0,7%--
Energia-3,1%--
Gasolina-5,7%--
Alimentos-0,9%--
Serviços0,2%--
Gestão de carteiras6,5%--

O banco Goldman Sachs ainda apontou que, enquanto o núcleo tradicional ficou ligeiramente abaixo do consenso, a métrica do PPI que exclui alimentos, energia e serviços comerciais subiu 0,4%, superando as estimativas. Contudo, os componentes relevantes para o PCE reportaram força menor no saldo líquido. A estimativa da instituição é que o núcleo do PCE avance 0,20% no mês, o que corresponde a uma taxa anual de 3,24%. Mais da metade desse incremento, exatamente 11 pontos-base, provém do aconselhamento de investimentos, refletindo os ganhos recentes nas cotações de ações.

O mercado de trabalho e o calendário do Fed

Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, avalia que o indicador ligeiramente abaixo do esperado traz conforto sobre a trajetória da inflação na direção almejada pelo Fed. Para o especialista, o ambiente macroeconômico atual retira a urgência de um aperto monetário imediato, reforçando a aposta de que não haverá mudança na taxa de juros em setembro. Eventuais ajustes ficarão para outubro ou dezembro, condicionados aos próximos dados.

Complementando o cenário, os pedidos iniciais de seguro-desemprego nos EUA, encerrados em 8 de agosto, subiram em 9 mil, totalizando 209 mil solicitações — um patamar ligeiramente acima do previsto, o que indica um mercado de trabalho que, mesmo aquecido, começa a dar sinais de arrefecimento marginal.