A Gamma alcançou US$ 100 milhões de receita recorrente anual em 2025 e, em março de 2026, estava prestes a cruzar a marca de 100 milhões de usuários. O cofundador e CEO da companhia, Grant Lee, leva esse histórico ao palco do Disrupt 2026, evento marcado para 13 a 15 de outubro no Moscone West, em São Francisco, onde divide a discussão com o fundador e CEO da Engine, Elia Wallen, e com a sócia geral da GV (Google Ventures), Crystal Huang, sobre como uma startup conquista os primeiros mil clientes sem marca consolidada, verba de marketing ou equipe comercial.
O salto da Gamma: de apresentações a plataforma de IA
Antes de cofundar a Gamma, Grant Lee acumulou cargos executivos: foi COO da ClearBrain, adquirida pela Amplitude, e CFO da Optimizely. Engenheiro formado em Stanford, com trânsito entre finanças e operações, passou anos produzindo apresentações — atividade que acabou inspirando uma nova forma de criar e compartilhar ideias.
A receita recorrente anual (ARR, métrica que anualiza o faturamento de contratos recorrentes e permite comparar empresas de software) atingiu US$ 100 milhões em 2025. A plataforma deixou de ser apenas uma ferramenta de slides e passou a abranger criação de sites, conteúdo para redes sociais e materiais de marketing gerados por inteligência artificial.
O número que interessa a quem analisa o setor, porém, não é o teto alcançado, e sim a base de clientes construída muito antes disso. Convencer os primeiros usuários a testar o produto de uma empresa desconhecida costuma ser o gargalo de qualquer operação jovem — e é exatamente esse trecho da curva de crescimento que a sessão pretende destrinchar, com ênfase em comunidade, produto como canal de aquisição e venda conduzida pelo próprio fundador.
Engine: caixa positivo antes do capital externo
Elia Wallen trilhou outro caminho. Em 2008 fundou a Travelers Haven e a desenvolveu com bootstrap, modelo em que o negócio cresce com recursos próprios e receita gerada, sem aporte de investidores. A aposta rendeu: a empresa se tornou uma das maiores do segmento de moradia corporativa nos Estados Unidos.
O primeiro capital de terceiros chegou apenas em 2019, quando Wallen já direcionava a atenção para a plataforma de viagens. Hoje a Engine soma mais de 30 mil empresas atendidas e 2 milhões de viajantes, com fluxo de caixa positivo — sinal de que a operação se sustenta sem depender de novas rodadas de investimento.
Em julho, a Engine adquiriu a Options Travel, gestora de viagens com mais de 30 anos de atuação, e incorporou ao portfólio o TempoTrip, produto voltado a voos em grupo. Wallen reúne, portanto, as etapas que costumam definir a sobrevivência de uma startup: construir sem marca, encontrar clientes, adaptar o produto ao que eles pedem e escalar a partir daí.
O corte do investidor
Crystal Huang chega ao palco na posição de sócia geral da GV, onde avalia negócios de software como serviço, infraestrutura e IA, com foco especial em adoção puxada pelo produto e pela comunidade de desenvolvedores. Antes disso, investiu na NEA e na Notable Capital e iniciou a trajetória profissional em fusões e aquisições de tecnologia na Blackstone. No evento, também avalia startups na condição de jurada do Startup Battlefield 200.
O evento em números
| Frente | Dados divulgados |
|---|---|
| Gamma | US$ 100 mi de ARR em 2025; perto de 100 mi de usuários em março de 2026 |
| Engine | +30 mil empresas; 2 mi de viajantes; fluxo de caixa positivo |
| Options Travel | Comprada em julho; +30 anos de operação |
| Disrupt 2026 | 13 a 15 de outubro; 200+ sessões; 10 mil+ participantes; 250+ palestrantes; 300+ startups expositoras |
A programação reúne mais de 200 sessões distribuídas em seis palcos setoriais, além de mesas-redondas e encontros menores. A expectativa da organização é de público superior a 10 mil fundadores, investidores, operadores e executivos de tecnologia. Ingressos têm desconto de até US$ 100, com 50% de abatimento na compra do segundo passe.
O que muda no radar de quem investe
O vocabulário da sessão não é decorativo: comunidade, product-led growth, venda liderada pelo fundador, prospecção ativa e boca a boca são os mecanismos que sustentam a fase inicial de empresas de tecnologia — a mesma que precede qualquer rodada relevante. Do lado do investidor, esses elementos funcionam como pistas sobre qualidade de execução antes que os números de receita apareçam.
Entender essas engrenagens ajuda o investidor pessoa física a ler com mais critério as teses de venture capital, os fundos de participações em empresas de tecnologia e as companhias de software listadas na B3. Métricas como ARR em expansão, clientes corporativos ativos e geração de caixa — três dimensões presentes nas trajetórias de Gamma e Engine — costumam pesar mais na avaliação de um negócio do que volume de usuários isolado.
Não se trata, contudo, de sinal imediato de resultado para a bolsa brasileira: Gamma e Engine são companhias privadas, sem capital aberto. O valor do painel está em expor os critérios que investidores profissionais usam para separar crescimento consistente de crescimento aparente — leitura útil, inclusive, para quem avalia startups por meio de plataformas de investimento em participações.
