A medida provisória que suspendeu as apostas de quota fixa no Brasil colocou sob revisão uma carteira de 16 mil metros quadrados de escritórios alugados por casas de apostas em diferentes cidades brasileiras. Levantamento da consultoria SiiLA estima que esses contratos rendam R$ 22,6 milhões em aluguéis por ano. São Paulo concentra a fatia principal: cerca de 13,2 mil m² repartidos entre 15 locatárias em 15 edifícios, com valor de mercado estimado em R$ 20 milhões anuais.
O tamanho do valor agregado não é o que define o risco. O que importa é onde ele está concentrado: na média da capital o efeito de uma devolução em massa seria quase imperceptível, mas em dois bairros específicos a conta muda de escala e passa a pressionar a receita de proprietários e de fundos imobiliários que dividem esses endereços.
Onde uma laje vira metade da vacância
Se todas as casas de apostas entregassem seus espaços de uma só vez, a vacância média da capital paulista sairia de 15,88% para 16,02%, segundo o estudo. São 0,14 ponto percentual — número que, isolado, não altera o equilíbrio do mercado paulistano de lajes corporativas, os andares de escritórios destinados à locação.
O recorte por região conta outra história.
| Recorte | Vacância atual | Cenário com devolução |
|---|---|---|
| São Paulo (média) | 15,88% | 16,02% |
| Rebouças | 3,99% | 5,83% |
| Rebouças (padrão A+) | 4,09% | 8,19% |
| Vila Leopoldina | 14,36% | 28,90% |
| Belo Horizonte | 12,98% | 13,48% |
O caso mais extremo aparece na Vila Leopoldina: a devolução dos 864 m² ocupados pela BetMGM levaria a vacância do bairro de 14,36% para 28,90%, praticamente o dobro em um único movimento. Em Rebouças, praça de vacância baixa, a taxa subiria de 3,99% para 5,83%; olhando só os imóveis de padrão A+, classificação que identifica edifícios corporativos de alto padrão, o salto iria de 4,09% para 8,19%.
Giancarlo Nicastro, CEO da SiiLA, atribui a disparidade ao tamanho de cada submercado. Regiões menores absorvem qualquer movimentação com muito mais força, enquanto praças vastas diluem o efeito: a Chucri Zaidan, que reúne quase 1 milhão de metros quadrados, praticamente não sentiria a entrega de uma laje. Esse contraste é o eixo do estudo — um percentual agregado baixo convive com deslocamentos relevantes em praças específicas, e é nesse nível que a negociação entre proprietário e inquilino realmente acontece.
Os três maiores contratos em São Paulo
| Locatária | Edifício / região | Área | Aluguel anual estimado |
|---|---|---|---|
| Betano | Eldorado Business Tower (Rebouças) | 3,7 mil m² | R$ 8,6 milhões |
| Betnacional | Faria Lima Square | 804 m² | R$ 3,2 milhões |
| Novibet | Torre Z (Chucri Zaidan) | 1,9 mil m² | R$ 2,3 milhões |
O contrato mais pesado é o da Betano, que ocupa 3,7 mil m² no Eldorado Business Tower, na avenida Rebouças, zona oeste paulistana, com aluguel anual estimado em R$ 8,6 milhões. Em valor locativo, essa única locatária representa cerca de 43% de toda a exposição imobiliária das bets na cidade. Depois dela vêm a Betnacional, com 804 m² no Faria Lima Square e R$ 3,2 milhões por ano, e a Novibet, que aluga 1,9 mil m² na Torre Z, na avenida Chucri Zaidan, por R$ 2,3 milhões anuais.
Por que a exposição é pequena por natureza
Parte da explicação para o impacto agregado modesto está no perfil das apostadoras. Segundo a SiiLA, são companhias que dependem muito mais de tecnologia do que de gente — e a regulamentação brasileira permite que uma única licença opere até três marcas diferentes. Com isso, uma mesma estrutura física atende a mais de uma operação, o que reduz a necessidade de lajes adicionais. Traduzido para o mercado de escritórios, o modelo gera ocupações pequenas diante do tamanho total do mercado, e isso ajuda a explicar por que a saída de uma única empresa raramente reposiciona a vacância de uma cidade inteira.
A localização também segue lógica de custo. Nicastro observa que Rebouças e Vila Leopoldina cobram menos do que praças como Faria Lima e Paulista. As bets não abriram mão da qualidade dos ativos, mas ajustaram o aluguel à realidade de custo fixo de suas operações — decisão típica de locatários corporativos em busca de eficiência.
Os FIIs que aparecem no mapa
A exposição não se resume a contratos diretos. Parte dos escritórios ocupados por apostadoras está em imóveis com participação de fundos imobiliários. A Betnacional aluga o 24º e o 25º andares do Faria Lima Square, endereço no qual o BRCR11 detém 34% de participação. A SorteNaBet ocupa o 18º andar do iTower Alphaville, edifício em que o VPPR11 tem fração de 50%; a Responsa Game também utiliza uma sala do portfólio desse fundo. Já a Superbet é locatária de um imóvel de propriedade do FII Opportunity, conforme o levantamento.
Fora de São Paulo, a fatia é menor
Nos demais mercados acompanhados pela consultoria, foram mapeados 2.838 m² alugados por casas de apostas em Belo Horizonte, Campinas, Porto Alegre e Rio de Janeiro, com valor de mercado estimado em R$ 2,61 milhões por ano. Belo Horizonte responde por quase dois terços da metragem, com 1.775 m². Uma devolução integral desses espaços elevaria a vacância da capital mineira de 12,98% para 13,48%.
O relógio do Congresso e o prazo dos contratos
Uma desocupação não ocorreria de forma instantânea, por dois motivos. O primeiro é regulatório: a medida provisória que proibiu as bets foi publicada na sexta-feira (25), tem validade imediata, mas precisa ser votada e aprovada pelo Congresso Nacional em até 120 dias para continuar em vigor. O segundo é contratual: romper um acordo de locação exige notificação ao proprietário, renegociação, vistoria e um processo operacional que consome tempo.
Quem pode ocupar as lajes devolvidas
Na avaliação do CEO da SiiLA, o principal risco para proprietários — incluindo os FIIs — não seria uma queda estrutural da demanda, e sim a perda temporária da receita de aluguel. Em Rebouças, a reposição tende a ser facilitada pela vacância baixa e pela procura latente por espaços; uma estratégia citada por Nicastro é manter os escritórios mobiliados e aproveitar a infraestrutura deixada pelas casas de apostas. Na Vila Leopoldina, o cenário é distinto: com mais disponibilidade, os imóveis precisam competir com endereços mais consolidados.
Dois setores aparecem como candidatos naturais a absorver essas áreas. O financeiro, que inclui grandes bancos e fintechs, e o de tecnologia. Como as próprias bets são empresas de tecnologia, a chance de atrair um inquilino do mesmo ramo é maior, dado que os escritórios tendem a ter infraestrutura bem executada. Companhias de digital fulfillment, categoria ligada à logística de pedidos do comércio eletrônico, que reúne nomes como Amazon e Shopee, também foram apontadas como potenciais ocupantes. A combinação entre estrutura pronta e inquilinos de perfil semelhante tende a encurtar o intervalo entre a saída e a nova locação.
O que isso muda para quem acompanha FIIs
A exposição de fundos imobiliários a esses contratos é fracionária — 34% no Faria Lima Square e 50% no iTower Alphaville — e o risco descrito é de interrupção temporária de receita, não de deterioração permanente da demanda por lajes corporativas. Para quem observa fundos com ativos nesses endereços, o ponto sensível é a concentração: um único inquilino pode responder por fatia relevante do aluguel de um edifício, como mostra o caso da Betano em São Paulo.
O calendário entra como segundo elemento de acompanhamento. A janela de 120 dias da medida provisória no Congresso funciona como período de observação; se a proibição for confirmada, dois indicadores devem orientar a leitura — a velocidade de reposição nas regiões de vacância baixa e o comportamento dos aluguéis nos bairros onde a oferta já é maior.
