Um pregão, dois extremos. Na segunda-feira (26), primeira sessão após o segundo turno das eleições, o derretimento das ações financeiras levou opções de venda (puts) de B3, Bradesco e Banco do Brasil a ganhos acima de 1.000%. Por volta das 15h, a B3SAV150W5, vinculada aos papéis da B3, marcava 1.233,33%, saindo de R$ 0,03 para R$ 0,40.
O número é verdadeiro e, ao mesmo tempo, traiçoeiro. Entre o fechamento anterior e aquele patamar, o prêmio andou R$ 0,37. Uma alta de quatro dígitos que, em reais, representa centavos — e é justamente essa distância entre percentual e valor financeiro que define o tamanho real do risco para quem opera derivativos em dias de pânico.
A base de três centavos que fabrica os 1.233%
O ponto de partida explica o tamanho da estatística. Na sexta-feira anterior, a B3SAV150W5 havia encerrado o dia valendo R$ 0,03. Com a ação em queda livre, o prêmio saltou para R$ 0,40, e uma diferença de R$ 0,37 sobre uma base de três centavos produz variação superior a 1.200%. Contratos baratos, portanto, inflam o percentual: os mesmos R$ 0,37 aplicados a um prêmio mais gordo gerariam uma variação discreta. Outras puts de B3SA3 ficaram entre 650% e 900% na mesma sessão.
A conclusão prática é que ganho percentual expressivo em opções não equivale a ganho financeiro expressivo. Quem tinha 1.000 contratos a R$ 0,03 e vendeu a R$ 0,40 embolsou R$ 370 — relevante para o tamanho da posição, mas incomparável ao que o número da tela sugere.
Put, call, strike: o vocabulário mínimo desse mercado
Uma opção é um derivativo: contrato cujo valor deriva de outro ativo, o ativo-objeto (no caso, a ação que serve de referência). O comprador de uma put adquire o direito de vender esse ativo por um preço travado no contrato — o strike, ou preço de exercício. A call funciona na direção oposta: garante o direito de comprar pelo valor combinado. Por esse direito, paga-se um prêmio, que é o preço da opção em si.
Quando a ação recua abaixo do strike, uma put entra dentro do dinheiro: passa a embutir valor intrínseco, a parcela do preço ligada à diferença entre o mercado à vista e o exercício. Além dessa relação, o prêmio responde ao prazo até o vencimento (a data-limite para exercer o direito) e à volatilidade implícita — a oscilação esperada pelo mercado, embutida no preço do contrato.
Strike de R$ 14,82 com a ação a R$ 14,84
O caso da B3SAV150W5 é didático. O exercício estava fixado em R$ 14,82 e a B3SA3 era negociada a R$ 14,84 às 15h25 — praticamente no mesmo nível. Em outros contratos, a queda abriu folga maior entre o preço de exercício e a cotação da ação.
| Contrato | Ativo-objeto | Strike | Ação às 15h25 | Movimento |
|---|---|---|---|---|
| B3SAV150W5 | B3SA3 | R$ 14,82 | R$ 14,84 | +1.233,33% |
| BBDCV193W5 | BBDC4 | R$ 19,07 | R$ 15,78 | +1.114,29% |
| B3SAV185W5 | B3SA3 | R$ 18,54 | R$ 14,84 | ganho elevado |
| VALEV591W5 | VALE3 | — | R$ 65,05 | -88,37% |
| VALEV606W5 | VALE3 | — | R$ 65,05 | -80,52% |
O retrato do mercado à vista naquele pregão
A pressão sobre os bancos e a bolsa explica o efeito nas opções. O ETF BOVA11, que replica o Ibovespa, cedia 14,28%, enquanto Vale seguia na contramão.
| Ativo | Variação | Preço |
|---|---|---|
| B3SA3 | -37,25% | R$ 14,84 |
| BBAS3 | -28,32% | R$ 17,72 |
| BBDC4 | -22,53% | R$ 15,78 |
| ITUB4 | -13,85% | R$ 41,61 |
| BOVA11 | -14,28% | — |
| VALE3 | +5,09% | R$ 65,05 |
Calls zeradas e puts de Vale com perda de 88%
O espelho do movimento apareceu nas calls atreladas aos papéis que desabaram: muitas chegaram a perder praticamente todo o valor, acompanhando o tombo à vista. Em Vale, a lógica se inverteu — VALE3 subiu 5,09%, e as puts sofreram, com a VALEV591W5 recuando 88,37% e a VALEV606W5, 80,52%.
A simetria é a lição central da sessão: a mesma alavancagem que transforma centavos em quatro dígitos percentuais apaga o prêmio inteiro quando o vento vira. Quem compra uma opção tem perda máxima limitada ao que pagou, mas essa perda pode ser de 100% do valor investido no contrato.
O que muda para quem acompanha opções
Três consequências merecem atenção. A primeira é contábil: carteiras que usavam puts como proteção contra queda de ações financeiras viram a cobertura ganhar tração justamente no dia em que o mercado à vista sangrou — o mecanismo funcionou como desenhado, mas o ganho em reais depende do tamanho da posição, não do percentual estampado na tela.
A segunda é a assimetria entre tela e resultado. Um contrato que saiu de R$ 0,03 para R$ 0,40 multiplicou por 13 o prêmio pago, número que não repõe perdas de quem carregava a ação em queda de 37,25%. A terceira é a volatilidade implícita: parte do salto reflete a expectativa de oscilação futura embutida no preço. Quando essa expectativa se acomoda, o prêmio tende a se recompor mesmo com a ação parada, o que costuma punir quem comprou o contrato já no auge do movimento.
Em um pregão em que o Ibovespa e os bancos abriram o dia sob pressão extrema, a leitura que organiza a informação é simples: o percentual gigante descreve a volatilidade da sessão, não a rentabilidade média de quem opera opções. Separar as duas coisas é o que permite avaliar risco, custo de proteção e exposição real de uma carteira.
