A Sabesp (SBSP3) encerrou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido ajustado de R$ 1,107 bilhão, cifra 13,8% inferior aos R$ 1,284 bilhão apurados um ano antes. A queda não nasceu da operação de água e esgoto: o Ebitda ajustado — lucro antes de juros, tributos, depreciação e amortização, indicador que mede a eficiência do negócio em si — subiu 15,2%, para R$ 3,648 bilhões, e a margem avançou de 59% para 61% sobre uma receita líquida ajustada de R$ 5,958 bilhões (+9%).

Ebitda sobe 15,2% enquanto o lucro recua 13,8%

A distância entre as duas linhas conta a história do trimestre. O resultado financeiro líquido virou despesa de R$ 1,31 bilhão, 74% acima do visto no mesmo intervalo de 2025 — pressão que a companhia associa ao custo de captar recursos para acelerar seu programa de investimentos. A esse fator soma-se um efeito de base: no terceiro trimestre do ano passado, o balanço carregou um ganho não recorrente de R$ 1,5 bilhão ligado a precatórios, verba que não se repetiu agora.

O número ajustado divulgado pela empresa também retira do cálculo a margem de construção, o ativo financeiro, os efeitos não recorrentes e a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE) — exclusões que tornam a comparação entre períodos mais limpa.

Métrica3T263T25Variação
Lucro líquido ajustadoR$ 1,107 biR$ 1,284 bi-13,8%
Ebitda ajustadoR$ 3,648 biR$ 3,206 bi+15,2%
Margem Ebitda ajustada61%59%avanço
Receita líquida ajustadaR$ 5,958 bi—+9%
Despesa financeira líquidaR$ 1,31 bi—+74%

Tarifas sobem mais que o volume consumido

O consumo residencial somou 945 milhões de metros cúbicos, 1,4% mais que no mesmo trimestre do ano anterior (932 milhões). Nas categorias comercial e industrial, os volumes ficaram em 98 m³ e 18 m³, idênticos aos de 2025. Quem puxou a receita foi o preço: a tarifa média residencial chegou a R$ 4,32/m³ (+7%), a comercial a R$ 16,14/m³ (+6,7%) e a industrial a R$ 22,06/m³, com salto de 13,1%.

SegmentoVolumeTarifa médiaVariação da tarifa
Residencial945 milhões de m³R$ 4,32/m³+7%
Comercial98 m³R$ 16,14/m³+6,7%
Industrial18 m³R$ 22,06/m³+13,1%

Energia elétrica: alta de 37,2% e R$ 112 milhões de perdas

Do lado dos custos, a energia elétrica foi o item de maior deterioração, com alta de 37,2% que gerou R$ 112 milhões em perdas além do já desembolsado no terceiro trimestre de 2025. Na direção oposta, a estrutura de pessoal ficou mais leve: o indicador de 9.057 encerrado no trimestre ficou 249 abaixo do verificado um ano antes (-2,7%), movimento que caminha junto com a economia de 21,4% em salários, encargos, benefícios e obrigações previdenciárias — R$ 147 milhões a menos.

Capex de R$ 4,5 bilhões sustentado pela distribuição de água

Os desembolsos de capital (Capex) somaram R$ 4,5 bilhões, 13,8% mais na comparação anual. A expansão ficou concentrada na distribuição de água, cujos investimentos saltaram 47,2% e terminaram o trimestre em R$ 1,701 bilhão; a linha de esgoto seguiu estável, em R$ 2,82 bilhões. A carteira de projetos já contratados — o backlog de Capex — fechou em R$ 44,2 bilhões.

O que muda para quem acompanha a Sabesp

O retrato do trimestre mostra uma companhia que cresce em resultado operacional e, ao mesmo tempo, convive com uma conta financeira mais salgada. Como parte do lucro contábil é corroída por juros ligados ao financiamento do Capex, o desempenho do caixa livre tende a depender de dois vetores: o ritmo de execução do backlog de R$ 44,2 bilhões e o custo de captação que a empresa enfrenta para bancá-lo.

Há também uma assimetria a observar. O avanço de 15,2% do Ebitda sobre uma receita que subiu 9% sugere ganho de eficiência, mas parte do fôlego vem de tarifas reajustadas acima do consumo físico — que cresceu apenas 1,4% no segmento residencial e ficou parado nos demais. Volumes travados limitam o efeito de escala e tornam o resultado mais dependente de reajustes tarifários e de controle de custos.

A energia elétrica entra nesse mapa como risco de curto prazo: uma alta de 37,2% nesse insumo pesa em uma operação intensiva em bombeamento e tratamento. Se o custo continuar pressionando, a margem de 61% tende a ser a primeira a sentir.

A base de comparação também importa. Sem o ganho de R$ 1,5 bilhão com precatórios que engordou o 3T25, o lucro de 2026 tende a parecer menor mesmo com a operação em evolução — diferença que separa a leitura contábil da leitura de negócio.