As duas linhas de minério de ferro que a Samarco comercializa — pelotas e finos — somaram 4,3 milhões de toneladas produzidas entre julho e setembro de 2026, o maior patamar trimestral desde o reinício das atividades, no fim de 2020. O volume supera em 4% o terceiro trimestre do ano passado e em 10% o intervalo imediatamente anterior, segundo a prévia operacional que a empresa divulgou nesta quinta-feira (22). O ponto de atenção está do outro lado da cadeia: os embarques ficaram em 3,9 milhões de toneladas, sem avanço sobre o 2º trimestre e 5% abaixo do registrado um ano antes.
Produção de 4,3 milhões de toneladas contra 3,9 milhões embarcadas
A distância entre o que saiu da planta e o que chegou ao cliente foi de cerca de 400 mil toneladas apenas no trimestre. Pelotas são aglomerados de minério de ferro de alto teor, usados para dar produtividade aos altos-fornos siderúrgicos; os finos são o material particulado, vendido para sintering. Produção acima das vendas costuma sinalizar acúmulo temporário de material, movimento que tende a pressionar capital de giro e que só se dilui quando o volume embarcado volta a acompanhar o ritmo da planta.
| Indicador | 3º tri/2026 | Variação anual | Variação trimestral |
|---|---|---|---|
| Produção | 4,3 mi t | +4% | +10% |
| Vendas | 3,9 mi t | -5% | estável |
| Preço médio da pelota | US$125,1/t | +4% | estável |
| Produção em 9 meses | 12,0 mi t | +7% | — |
| Vendas em 9 meses | 11,0 mi t | +1% | — |
Nove meses: 12 milhões produzidas e 11 milhões vendidas
No acumulado de janeiro a setembro, a produção alcançou 12 milhões de toneladas, alta de 7% na base anual e o melhor intervalo de nove meses desde a volta das atividades. As vendas, porém, cresceram 1%, para 11,0 milhões de toneladas. Ou seja: a diferença entre produzir e embarcar, que no trimestre isolado foi de 400 mil toneladas, chega a 1 milhão de toneladas em 2026.
A companhia credita o desempenho à manutenção de um ritmo elevado de produção ao longo do ano. A explicação é operacional e não financeira, e aí mora a limitação do documento: a prévia não traz receita, custo, Ebitda nem lucro. Sem essas linhas, o mercado fica com metade da equação — sabe quanto saiu da mina, mas não quanto disso virou caixa.
US$125,1 por tonelada: o preço que segurou a receita
O preço médio realizado da pelota ficou em US$125,1 por tonelada, praticamente estável frente ao 2º trimestre e 4% acima do valor de um ano antes. Prêmio de pelota é o adicional pago pelo comprador sobre a referência do minério de ferro, e sua recuperação é o que permite compensar parte da queda no volume embarcado.
A Samarco atribuiu o patamar a condições comerciais mais favoráveis e a prêmios em recuperação ao longo do trimestre. Para quem acompanha o setor, o sinal é de demanda por material de maior teor — nicho em que a qualidade do produto, e não apenas a tonelagem, define o preço final.
O que a prévia ainda não mostra sobre Vale e BHP
A Samarco tem duas sócias: a Vale (VALE3), listada na B3, e a anglo-australiana BHP. Os números da mineradora chegam ao acionista das duas empresas de forma indireta, por participação societária, e não como receita operacional consolidada nas demonstrações. Por isso, a prévia tende a interessar mais como termômetro de volume e de apetite por pelota do que como evento de resultado.
O histórico segue no pano de fundo. A operação foi retomada ao final de 2020, cerca de cinco anos depois do rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração — episódio que continua a moldar a percepção de risco sobre a companhia e sobre as controladoras. Um trimestre de produção recorde melhora o retrato operacional, mas não altera essa camada.
Para quem tem exposição ao minério de ferro via B3, o trimestre entrega um recado de duas camadas: a operação roda no maior ritmo desde a volta, e o preço da pelota veio estável na margem e superior na comparação anual. A combinação favorece o volume; a receita, porém, depende de os embarques fecharem a distância que hoje separa a planta do porto. O próximo dado a observar é o resultado completo do trimestre, que traz receita e custo — itens que a prévia operacional não antecipa.
