A expectativa do mercado para o balanço do Santander Brasil (SANB11) no terceiro trimestre de 2026 aponta lucro líquido de R$ 3,161 bilhões, 21% abaixo do registrado no mesmo período de 2025, segundo consenso compilado pela Bloomberg. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE, indicador que mede o lucro gerado para cada real de capital próprio) projetado é de 12,7%.

A discussão que cerca o número não é o tamanho da queda em si, e sim o prazo da virada. O banco vem trocando crédito de risco mais alto por linhas mais seguras, e essa transição custa margem antes de aparecer como alívio nas provisões — as reservas contábeis que a instituição separa para cobrir calotes esperados.

O trimestre em uma tabela

IndicadorExpectativa para o 3T26
Lucro líquidoR$ 3,161 bilhões
Variação frente ao 3T25-21%
ROE12,7%

A combinação de lucro 21% menor com ROE de 12,7% é o centro da tese: o banco reduz risco, mas ainda não converte isso em rentabilidade. Os números vêm de consenso de mercado, não de balanço fechado — o resultado do período ainda não foi divulgado.

A comparação é com o mesmo trimestre de 2025, e é ela que separa um discurso de transição de um resultado que já estaria em recuperação. Historicamente, bancos que mexem no mix da carteira costumam amargar mais de um trimestre de margem comprimida antes de a melhora de qualidade aparecer no lucro.

Desacelerar o crédito de risco cobra margem antes de render alívio

A XP projeta crescimento da carteira concentrado em modalidades de menor risco: operações com garantia, financiamento imobiliário, Pronampe (linha de crédito a pequenos negócios com aval de fundo garantidor), veículos novos e clientes de renda mais alta atendidos pela marca Select. O problema é aritmético: linhas mais seguras rendem menos e comprimem a margem financeira, a diferença entre o custo de captação e o retorno obtido nos empréstimos.

Na prática, a instituição tende a ganhar menos por real emprestado em troca de perder menos com calotes — e essa conta só fecha quando a inadimplência cede de forma consistente.

O Itaú BBA trabalha na mesma direção. A redução da fatia de operações de risco mais alto continua apertando as margens, enquanto os ganhos da estratégia ainda não se traduzem de forma clara nos indicadores de inadimplência e de provisões.

Onde a deterioração preocupa mais

Três carteiras seguem no radar: cartões de crédito da clientela de menor renda, pequenas e médias empresas e agronegócio. São segmentos que costumam sentir mais rápido o efeito de juros altos e de renda comprimida, e uma piora neles pode exigir novas reservas para cobrir perdas.

O Citi projeta um trimestre fraco, pressionado por margens menos favoráveis e por um custo de crédito que segue alto. O Goldman Sachs avalia que a recuperação do lucro tende a esbarrar no custo de risco elevado.

A virada empurrada para 2027

O diretor financeiro Carlos Muñiz já havia sinalizado, no balanço do segundo trimestre, que a pressão sobre as provisões poderia continuar e empurrar a recuperação da rentabilidade para o começo de 2027. É esse prazo que o mercado testa agora: cada trimestre com custo de crédito alto adia a data em que o lucro volta a crescer na comparação anual.

Enquanto ela não chega, o confronto com os números do ano anterior tende a seguir negativo, e o debate sobre o prêmio de risco exigido do banco permanece aberto.

O que ainda sustenta o resultado

Nem tudo é pressão. Do lado positivo, o desempenho dos cartões tende a sustentar a receita de tarifas, enquanto a linha de despesas administrativas deve seguir contida. Créditos fiscais vindos do JCP (juros sobre capital próprio, remuneração ao acionista com tratamento tributário próprio) e de papéis isentos também entram na conta, embora com peso inferior ao visto no 2T26.

A assimetria ajuda: tarifa é receita recorrente, não depende do spread do crédito, e oferece colchão enquanto a carteira é reconstruída com ativos mais defensivos.

O que observar na divulgação

  • Se o estoque de provisões para de crescer ou volta a subir — sinal decisivo sobre o ritmo da virada.
  • Inadimplência nas três carteiras sensíveis: cartões de baixa renda, PMEs e agro.
  • Margem financeira com a carteira mais defensiva: mede o preço da troca de mix.
  • Receita de tarifas e controle de despesas: o colchão que evita queda maior no lucro.

O mercado deve olhar menos para o valor absoluto do lucro e mais para uma pergunta: a redução de risco começa a aparecer nas provisões antes que a margem menor corroa o ganho com tarifas? A resposta tende a vir aos poucos, trimestre a trimestre, com 2027 como horizonte apontado pelo próprio banco.