Principais pontos
- A projeção nova de 11,25% para a Selic no fim de 2027 contrasta com 12,75% da estimativa anterior e com cerca de 14% embutidos nos preços de mercado.
- O Ibovespa excluindo commodities segue negociado com desconto próximo de 10% ante a média histórica, com abatimentos mais profundos nos papéis mais sensíveis aos juros.
- Investidores internacionais aportaram R$ 6 bilhões no mercado à vista nos últimos dez dias, após retirada de R$ 20 bilhões nos três meses anteriores.
O Bank of America elevou a recomendação para as ações brasileiras de marketweight (posição neutra, equivalente ao peso no índice de referência) para overweight (posição acima do peso no índice de referência) em relatório distribuído na terça-feira (8), com aposta central em Selic a 11,25% no fim de 2027.
A leitura é que a mudança desloca o eixo de interesse para papéis com maior sensibilidade à taxa básica, enquanto mantém em posição neutra nomes de commodities como Vale e Petrobras. Segundo a fonte, o banco encerrou uma postura mais cautelosa adotada desde junho e passou a enxergar espaço para recuperação de múltiplos (indicadores que relacionam o preço da ação ao lucro ou a outras métricas de resultado) entre companhias que sofreram com o dinheiro caro nos últimos anos, mesmo com permanência de riscos ligados a lucros, demanda e disputa presidencial.
Selic mais baixa por mais tempo: por que 11,25% reorganiza os valuations
A projeção nova de 11,25% para a Selic no fim de 2027 contrasta com 12,75% da estimativa anterior e com cerca de 14% embutidos nos preços de mercado. Segundo o relatório, essa diferença entre a visão do banco e o que está precificado nos ativos é o principal gatilho para a elevação da recomendação, pois uma trajetória de flexibilização monetária mais profunda tende a reduzir a taxa de desconto aplicada aos fluxos futuros das companhias e, historicamente, costuma favorecer a recomposição de preços relativos.
O banco informou que a combinação de desaceleração da atividade econômica com riscos de inflação mais contidos abriria margem para um ciclo de afrouxamento mais extenso. A interpretação do Ativo Virtual é que esse argumento transfere para a política monetária o papel de variável dominante na formação de preços da Bolsa, acima de fatores que costumam pesar sobre o mercado local, como revisões para baixo nas estimativas de lucro, perda de ritmo da demanda e incertezas associadas ao calendário eleitoral.
O afrouxamento monetário tenderia a tirar os valuations de patamares deprimidos, com efeito potencial superior ao de revisões de lucro e à cautela com demanda e eleição.
O Ibovespa excluindo commodities segue negociado com desconto próximo de 10% ante a média histórica, com abatimentos mais profundos nos papéis mais sensíveis aos juros. Segundo a fonte, quando essa comparação é ajustada ao patamar corrente de juros, o desconto agregado fica perto da média, o que pode indicar que a distorção mais relevante está concentrada именно nesse subconjunto ligado ao custo do dinheiro. Para o investidor pessoa física com exposição à Bolsa, a consequência descrita é uma assimetria entre segmentos: o índice cheio reflete em parte o suporte de petróleo e minério de ferro, enquanto a parcela doméstica e dependente de crédito conserva preços relativos mais comprimidos.
| Projeção para Selic no fim de 2027 | Taxa esperada |
|---|---|
| BofA, estimativa nova | 11,25% |
| BofA, estimativa anterior | 12,75% |
| Nível embutido nos preços de mercado | cerca de 14% |
Quem captura o alívio dos juros e quem permanece em posição neutra
É nesse grupo de maior sensibilidade que o banco informou ter ampliado a alocação, buscando potencial de valorização em um ciclo de flexibilização. A estratégia prioriza companhias ligadas ao mercado de capitais, empresas mais alavancadas e os chamados bond proxies (ações com características semelhantes às de títulos de renda fixa, geralmente por apresentarem fluxos de caixa mais previsíveis e forte reação a variações nas taxas de juros). A leitura é que esses três conjuntos compartilham o mesmo canal de transmissão: queda no custo de capital, melhora nas condições de financiamento e eventual retomada de volumes e operações.
No caso das empresas vinculadas ao mercado de capitais, o relatório associa o benefício a uma possível reativação da atividade financeira, com maior giro de negociações e ambiente mais favorável para financiamento e captação. Para as companhias mais alavancadas, o canal é mais direto, por meio da redução do custo da dívida, o que tende a aliviar despesas financeiras e ampliar a flexibilidade de balanço. Já os bond proxies, por replicarem em parte o comportamento de títulos de renda fixa, historicamente costumam apresentar resposta mais imediata a mudanças nas expectativas de juros longos.
O BofA ressalta, contudo, que a Selic deve permanecer elevada mesmo durante o ciclo de flexibilização. Por isso, segundo a fonte, o banco equilibra essas apostas com large caps (empresas de grande capitalização) líquidas, geradoras de caixa, com balanços sólidos e histórico consistente de execução. A mensagem implícita para quem acompanha o mercado é de seletividade dentro do otimismo: exposição a juros convive com preferência por liquidez, geração de caixa e disciplina operacional, atributos que tendem a reduzir a vulnerabilidade a frustrações no ritmo de cortes ou na trajetória de lucros.
Nas commodities, a elevação da recomendação para o Brasil não se traduz em ampliação equivalente de exposição. O banco manteve posição marketweight para materiais por meio da Vale e para petróleo por meio da Petrobras, o que pode indicar visão mais positiva concentrada principalmente nas empresas capazes de se beneficiar diretamente da queda dos juros domésticos. Nesta terça-feira, contudo, as commodities também ajudaram o desempenho da Bolsa, com petróleo e minério de ferro em alta no exterior, oferecendo sustentação adicional ao índice na volta do fim de semana prolongado pelo feriado.
Retorno do estrangeiro, rotação global e cobertura de vendidos dão tração
Investidores internacionais aportaram R$ 6 bilhões no mercado à vista nos últimos dez dias, após retirada de R$ 20 bilhões nos três meses anteriores. Os dados mais recentes da B3 seguem na mesma direção. Nos três primeiros pregões de setembro, o saldo de capital externo na Bolsa brasileira está positivo em R$ 3,9 bilhões. A retomada do fluxo adiciona uma nova camada de suporte ao mercado depois de um período marcado por saída relevante de estrangeiros, e pode indicar recomposição parcial de posições após meses de cautela.
| Fluxo estrangeiro na Bolsa brasileira | Valor |
|---|---|
| Entrada nos últimos dez dias, segundo o BofA | R$ 6 bilhões |
| Saída nos três meses anteriores | R$ 20 bilhões |
| Saldo nos três primeiros pregões de setembro, dados B3 | R$ 3,9 bilhões |
O movimento ocorreu em um momento de forte valorização da Bolsa brasileira. Às 13h22 desta terça-feira (8), o Ibovespa subia 1,34%, aos 187.644 pontos, após atingir a máxima de 189.487 pontos. Na volta do feriado prolongado, o índice encontrou suporte na alta das commodities, como petróleo e minério de ferro, enquanto investidores acompanhavam novas pesquisas sobre a disputa presidencial. A leitura é que preço e fluxo se reforçaram no curto prazo, sem que isso elimine a dependência de confirmação do ciclo de juros projetado.
O BofA também relaciona a melhora recente do desempenho brasileiro a uma mudança na dinâmica dos mercados globais. Segundo o relatório, o movimento foi favorecido por uma perda de força do chamado AI trade (aposta concentrada em empresas beneficiadas pelo avanço da inteligência artificial). Nesse período, o mercado brasileiro apresentou desempenho melhor do que Taiwan, Coreia do Sul e as ações de empresas de semicondutores dos Estados Unidos. Na prática, o movimento sugere uma rotação parcial de recursos para mercados e setores que haviam ficado para trás durante o forte desempenho das empresas ligadas à inteligência artificial.
Outro fator identificado pelo banco é o chamado short covering (cobertura de posições vendidas, operação em que investidores que haviam apostado na queda de determinadas ações recompram os papéis para encerrar suas posições, adicionando pressão compradora ao mercado). Segundo o banco, grupos de ações entre as mais vendidas a descoberto vêm apresentando desempenho superior desde meados de agosto. Esse tipo de movimento tende a acelerar altas de curto prazo, pois a recompra forçada amplia a demanda justamente quando os preços já sobem, embora não represente por si só uma mudança nos fundamentos das companhias.
Eleição, lucros e atividade: o que pode limitar o avanço
O cenário eleitoral segue como fator relevante para os ativos brasileiros, embora não seja o principal argumento usado pelo BofA para elevar a recomendação. Pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta terça-feira mostrou o senador Flávio Bolsonaro (PL) numericamente um ponto percentual à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um eventual segundo turno. Os dois, porém, permanecem em empate técnico. Na véspera, pesquisa Quaest também mostrou Lula e Flávio empatados, ambos com 41% das intenções de voto em uma eventual disputa no segundo turno.
No relatório, o banco reconhece a incerteza eleitoral entre os riscos para o mercado, mas considera que o impacto de um ciclo de juros mais favorável pode se sobrepor, ao menos parcialmente, a esse fator. Para quem investe a partir do Brasil, a implicação descrita é que o prêmio de risco político permanece no preço, mas divide espaço com a expectativa de custo de capital menor. Acompanhar a evolução das pesquisas, sem atribuir a elas um efeito mecânico sobre cada setor, passa a integrar a agenda ao lado de juros e resultados corporativos.
Além da eleição, permanecem no radar eventuais revisões para baixo das estimativas de lucro das empresas e desaceleração da demanda. O ponto de atenção é que múltiplos mais altos sustentados apenas por juros menores podem se mostrar vulneráveis se os lucros não confirmarem a trajetória esperada. Por isso, a preferência declarada por companhias líquidas e geradoras de caixa funciona como contrapeso a apostas mais sensíveis ao ciclo, em um ambiente em que a Selic, mesmo em queda, continuaria em nível restritivo.
A agenda imediata combina, assim, três frentes verificáveis na fonte: confirmação de desaceleração da atividade e de riscos menores de inflação que sustentem a projeção de 11,25%; continuidade do retorno do capital externo após a entrada recente; e desdobramentos da disputa presidencial refletidos nas sondagens. A evolução desses elementos tende a definir se o desconto próximo de 10% no Ibovespa sem commodities se estreita de forma ordenada ou se permanece concentrado nos segmentos mais atrelados aos juros.
