O Santander revisou para novembro a última etapa do atual ciclo de queda da Selic. A nova projeção embute um corte de 0,25 ponto percentual, que levaria a taxa básica a 13,50% ao ano, abaixo dos 13,75% em vigor. Até então, a instituição trabalhava com o encerramento do movimento em setembro.
A mudança de rota aparece em relatório de revisão de cenário assinado pela equipe de macroeconomia do banco, chefiada por Marco Antonio Caruso. O documento registra a diferença entre expectativa e dado observado.
Os indícios vêm do crédito. A instituição relata perda de força nas linhas destinadas às empresas, recuo nas emissões de dívida corporativa, avanço mais lento do financiamento às famílias e desaceleração da renda do trabalho. Para a equipe, esse conjunto indica que o patamar restritivo dos juros já produz efeito sobre a atividade e diminui a pressão de demanda sobre os preços. O câmbio entra como alívio: a casa passou a trabalhar com um real mais valorizado, o que amortece a chegada dos preços internacionais aos produtos vendidos no Brasil.
Onde as projeções mudaram
A revisão alcança quatro frentes do cenário montado pelo banco.
| Indicador | Leitura anterior | Nova projeção |
|---|---|---|
| Fim do ciclo de cortes | setembro | novembro |
| Corte adicional | não previsto | 0,25 p.p., para 13,50% ao ano |
| IPCA de 2026 | 4,9% | 5,0% |
| IPCA de 2027 | 4,0% | 4,0% |
| Brent no 2º semestre de 2026 | US$ 80 | US$ 90 |
O avanço do IPCA de 2026 vem principalmente de alimentos mais caros e, em menor escala, do petróleo mais alto. Para 2027, a estimativa segue em 4,0%, com a inflação voltando a perder força a partir do segundo trimestre, quando os efeitos do El Niño se reverterem e a atividade estiver mais fraca.
Na atividade, a projeção de crescimento é de 1,8% em 2026 e 1,3% em 2027. Para o terceiro trimestre de 2026, o banco espera estabilidade na comparação com os três meses anteriores. A estabilidade projetada para esse intervalo tende a reforçar, na leitura da instituição, a perda de tração da economia mesmo com a inflação de curto prazo ainda pressionada.
Por que o ponto final segue em aberto
Depois de novembro, o Santander projeta pausa nos cortes e Selic a 12,50% no encerramento de 2027. O caminho até lá depende, segundo o relatório, de três variáveis: o câmbio, as expectativas de inflação e o risco fiscal.
O relatório do Santander resume a diferença entre o próximo movimento e o destino do ciclo.
Sobre o risco fiscal — a remuneração extra que investidores exigem para carregar ativos brasileiros —, o documento aponta a porta de saída.
O que observar daqui até novembro
- A reunião do Copom de novembro, quando o banco espera o corte de 0,25 ponto que levaria a Selic a 13,50% ao ano.
- A trajetória dos alimentos e do petróleo, responsáveis pela alta da projeção do IPCA de 2026, de 4,9% para 5,0%.
- O câmbio, as expectativas de inflação e o quadro fiscal, os três condicionantes citados pelo Santander para o tamanho do ciclo.
- A partir do segundo trimestre de 2027, a reversão do El Niño e a atividade mais fraca, que sustentam a expectativa de desaceleração da inflação.
A Selic é a referência de rentabilidade das aplicações pós-fixadas atreladas ao CDI e também do custo do crédito de famílias e empresas. Alterações no tamanho do ciclo tendem a aparecer primeiro na curva de juros e, depois, no resultado de companhias mais dependentes de financiamento. O próprio relatório condiciona esse percurso a câmbio, expectativas e risco fiscal, o que mantém o debate aberto mesmo com o passo de novembro visto como o mais claro do momento.
