O economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, defende que o Banco Central sinalize um caminho de queda da Selic rumo a 7,5% anuais ao longo de cerca de um ano, com o objetivo declarado de frear o avanço da dívida pública. O texto veio a público em 25 de setembro sob o título Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos, obteve eco em alas do PT e levou o economista ao epicentro da discussão sobre os caminhos da política econômica. Já Dario Durigan declarou que a mesa de Lula não abriga proposta de tabelamento dos juros — e negou que houvesse reunião marcada com o economista.
Duas leituras para o mesmo déficit
O pano de fundo do debate está numa distinção contábil que costuma passar batida. O resultado primário mede receitas menos despesas, sem contar os encargos da dívida; o nominal incorpora essa fatura. Para Lara Resende, o primário brasileiro próximo do equilíbrio convive com um déficit nominal elevado, empurrado justamente pelo custo dos juros. Na avaliação dele, o nível da Selic — e não apenas o descontrole de gastos — é o motor central da deterioração fiscal.
O economista reconhece problemas na qualidade e na distribuição do gasto público, mas insiste que a política de juros ocupa papel central no quadro. Sustenta que a redução da taxa básica diminui o custo de carregamento da dívida e favorece a recuperação da confiança na capacidade de pagamento do Estado. Vai além: argumenta que juros menores podem até contribuir para a inflação ceder no longo prazo, embora admita risco de pressão cambial durante a transição.
Conselho, metas de quatro a cinco anos e banda de 3% a 5,5%
A proposta não se limita à taxa. O desenho institucional prevê a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, com a atribuição de fixar metas coordenadas num horizonte de quatro a cinco anos. Num segundo estágio, a Selic recuaria para uma banda entre 3% e 5,5% ao ano, com exceções apenas quando autorizadas pelo próprio colegiado. O texto contempla ainda o uso de reservas internacionais para amortecer eventual desvalorização do real no período de transição.
| Item da proposta | Parâmetro |
|---|---|
| Selic ao fim de 12 meses | ≈7,5% ao ano |
| Banda no longo prazo | 3,0% a 5,5% ao ano |
| Horizonte de metas do conselho | 4 a 5 anos |
| Data de publicação do artigo | 25 de setembro |
O contraponto: risco cambial, prêmio longo e autonomia do BC
Identificar os juros como vilão da dívida é uma coisa; aceitar o caminho sugerido para derrubá-los é outra, e aí começa o atrito. Economistas e gestores argumentam que a fragilidade fiscal é exatamente o que mantém as taxas elevadas — e que uma redução por conveniência política tende a agravar a desconfiança dos investidores. Nesse arranjo, o BC poderia cortar a Selic enquanto o mercado exigiria prêmio maior para comprar títulos longos. A queda da taxa básica, portanto, não se traduziria automaticamente em financiamento mais barato para o Tesouro.
Os críticos apontam ainda dois riscos adicionais: pressão sobre a autonomia do Banco Central e limites à capacidade das reservas internacionais de conter um estresse cambial persistente.
Endosso político antes do detalhamento técnico
O endosso político não demorou. Gleisi Hoffmann manifestou apoio público às ideias do economista, em meio a críticas à condução da política fiscal do governo. Do outro lado, a Fazenda negou tanto o tabelamento dos juros quanto uma reunião marcada com Lara Resende. O episódio ocorre em meio às expectativas sobre a composição da equipe econômica do próximo mandato — o que amplia o alcance da discussão para além do campo acadêmico.
O que muda para quem investe
Para o investidor pessoa física, o ponto sensível está na precificação de risco. Se a discussão ganhar tração, a tendência é que três vetores passem a oscilar de forma mais acentuada: a curva de juros futuros, o prêmio exigido nos títulos públicos de prazo longo e a formação do dólar. Cada movimento desses altera o retorno esperado de aplicações pós-fixadas, de papéis atrelados ao IPCA e das NTN-B (títulos do Tesouro indexados à inflação).
Se a Selic de fato recuar para o patamar proposto, o carregamento de uma carteira conservadora entra em outro cálculo. Do outro lado, o prêmio de risco embutido nos vencimentos longos, se aumentar, pode compensar parte da queda para quem tem horizonte alongado. Qual das duas forças prevalece depende menos do artigo e mais da percepção do mercado sobre a sustentabilidade das contas públicas — percepção que, historicamente, costuma se mover antes de qualquer mudança concreta de taxa.
O que observar daqui para frente
Três sinais merecem acompanhamento nos próximos capítulos. O primeiro é a confirmação — ou o desmentido definitivo — de uma agenda entre Lula e o autor da proposta. O segundo é o tom do Banco Central ao se manifestar sobre a trajetória da Selic, especialmente em comunicados e entrevistas. O terceiro é o comportamento do prêmio embutido nos títulos longos sempre que o tema voltar ao noticiário. Nenhum deles, isolado, confirma ou descarta a tese. Juntos, sinalizam se o debate migra do campo das ideias para o da política econômica efetiva.
