A curva de juros brasileira chega à véspera do primeiro turno sem consenso sobre o próximo passo do Copom (Comitê de Política Monetária). Metade das apostas embutidas nos contratos futuros indica corte de 25 pontos-base na Selic em novembro, e a outra metade trabalha com a taxa parada em 13,75% ao ano, segundo Flávio Serrano, economista-chefe do Bmg.
A cautela aparece com mais força no trecho longo. No vencimento de janeiro de 2036, o Depósito Interfinanceiro (DI) — contrato futuro que funciona como termômetro das expectativas de juros e referência para boa parte da renda fixa — subiu 10 pontos-base, para 14,175%, contra 14,075% do ajuste anterior.
2027 estável, 2031 e 2036 em alta: os três vencimentos do dia
O movimento foi desigual entre os vértices. O DI para janeiro de 2027, de curtíssimo prazo, ficou próximo da estabilidade, a 13,545% em relação ao ajuste anterior. O contrato para janeiro de 2031 marcou 14,050%, avanço de 4 pontos-base, e o de 2036 concentrou a maior alta da sessão.
| Vencimento do DI | Taxa | Variação |
|---|---|---|
| Janeiro de 2027 | 13,545% | estável |
| Janeiro de 2031 | 14,050% | +4 pontos-base |
| Janeiro de 2036 | 14,175% | +10 pontos-base |
Cada ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual.
Payroll de setembro esfria o meio da curva, mas não o fim
A melhora apareceu cedo: os vencimentos intermediários chegaram a recuar até 5 pontos-base, num movimento colado ao alívio dos Treasuries, os títulos do Tesouro dos Estados Unidos. O gatilho foi o payroll — como é chamado o relatório oficial de emprego americano —, que mostrou a criação de 29 mil vagas em setembro, bem abaixo do esperado, e a taxa de desemprego passando de 4,1% para 4,2%. Para o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, o dado elevou a 80% a aposta de manutenção dos juros.
A tentativa de queda que não sobreviveu à tarde
O alívio não se sustentou até o fechamento. Operadores reduziram exposição ao risco com a eleição de domingo no radar e a divisão sobre o rumo da Selic reapareceu, mesmo com os números mais fracos do mercado de trabalho americano. A sessão começou com taxas menores nos vencimentos intermediários e terminou com prêmio maior nos longos — mistura de sinal externo favorável e cautela local.
Dezembro entra na conta com 10% de chance de corte
Além de novembro, a curva precifica 10% de chance de redução da taxa básica na reunião de dezembro. A probabilidade é bem menor que a do encontro anterior e mostra o quanto o mercado trabalha com a hipótese de juros altos por mais tempo.
Empate técnico na eleição de domingo (4)
A poucos dias do primeiro turno, a disputa pela Presidência aparece como a mais apertada desde 2002, com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em empate técnico nas pesquisas de intenção de voto. Nos mercados preditivos, proibidos no Brasil, a vantagem apontada é do senador. Uma eventual consolidação desse quadro tende a abrir espaço para reação positiva dos ativos brasileiros.
Dois gatilhos para a carteira: o turno de domingo e o Copom de novembro
A divisão 50/50 deixa o prêmio embutido nos vencimentos mais longos sensível a dois eventos de curto prazo: o resultado das urnas no domingo (4) e a decisão do Copom em novembro. Enquanto os vértices curtos mal se movem, o alongamento da curva sinaliza que o mercado cobra mais para carregar risco de prazo maior num ambiente sem clareza sobre a trajetória da Selic. Se as apostas de corte ganharem espaço, esse prêmio tende a ceder; se a cautela eleitoral prevalecer, ele segue pressionado. Esse tipo de configuração costuma surgir em janelas de incerteza política e monetária simultâneas e, por si só, não antecipa a direção do próximo movimento.
