O bloqueio que atravessa o conselho de sete membros do Fed

A conquista democrata do Senado americano na eleição de terça-feira retirou de Donald Trump a via mais curta para influenciar o Federal Reserve. O Conselho de Governadores do Fed tem sete assentos, e é o Senado que confirma cada indicação presidencial para o colegiado. Sem maioria republicana, a Casa Branca perde essa porta de entrada — e o comando do Comitê Bancário, órgão que avalia as nomeações, deve passar para Elizabeth Warren, senadora por Massachusetts. A legisladora tem histórico de defesa de supervisão mais dura sobre Wall Street, mas também de preservação da autonomia do banco central na definição dos juros.

A troca de maioria é descrita na apuração como uma alteração política de grande porte, que antes da votação parecia distante. O efeito prático é objetivo: Trump deixa de contar com um Senado alinhado depois de quase dois anos de pressão sobre o Fed.

Procurada, Warren não quis se manifestar. A Casa Branca, em comunicado divulgado antes da votação, afirmou que Trump estava dedicado à campanha para manter a maioria republicana no Congresso e, com isso, preservar sua agenda econômica.

O placar no Senado e os dois estados que faltam

Na manhã seguinte à votação, os democratas já haviam garantido pelo menos 54 cadeiras, com Alasca e Mississippi ainda sem resultado definido. A configuração anterior somava 47 cadeiras, incluindo duas de independentes que votam com o partido. A mudança de maioria é o que trava a confirmação de nomes para o conselho do Fed.

IndicadorSituação
Cadeiras democratas confirmadas54
Cadeiras antes da eleição47, com dois independentes alinhados
Estados pendentesAlasca e Mississippi
Assentos no Conselho do Fed7

Um Fed com mais espaço para juros altos contra a inflação

O novo desenho político pode dar ao Fed, e ao presidente Kevin Warsh, mais margem para responder à inflação com juros mais altos. Quanto menor a interferência do Executivo na composição do colegiado, maior a chance de a política monetária responder a critérios técnicos — e não a conveniências eleitorais. Para o investidor, o ponto que importa é o preço do dinheiro na maior economia do mundo.

A resistência que já vinha de dentro do próprio campo governista

Mesmo com os republicanos no comando do Senado, a Casa Branca enfrentou resistência no Comitê Bancário. O republicano Thom Tillis segurou a indicação de Warsh ao posto máximo do Fed até o Departamento de Justiça concluir a apuração sobre o ex-presidente Jerome Powell. O presidente endossou essa investigação, classificada por um juiz federal e por parlamentares de legendas distintas como excesso de autoridade.

O governo também tentou destituir Lisa Cook, governadora indicada por Biden. Trump convocou uma audiência na Casa Branca para analisar a acusação, não comprovada, de fraude hipotecária contra Cook. Um integrante do alto escalão da Casa Branca sinalizou, na semana passada, que a sessão deve acontecer em dezembro.

Nenhuma cadeira vaga: os prazos que amarram Trump

Hoje não há assento disponível no conselho. Powell contrariou a tradição e não abriu uma vaga para Trump, permanecendo no colegiado depois do fim de seu mandato como presidente, em maio. Seu mandato como membro vai até janeiro de 2028. O vice-presidente Philip Jefferson tem mandato até setembro de 2027; se continuar no conselho depois dessa data, Trump precisará escolher alguém que já esteja no colegiado para a posição de liderança.

O histórico mostra o outro lado. Quando Adriana Kugler renunciou de forma inesperada em agosto de 2025, a equipe de Trump correu junto aos senadores republicanos para confirmar Stephen Miran, um dos principais assessores econômicos da Casa Branca. Já empossado, Miran votou contra em todas as seis reuniões de política monetária das quais tomou parte, defendendo reduções de juros mais profundas, antes de dar lugar a Warsh em maio.

A regra da justa causa e o risco de cadeiras vazias

Pela lei, um presidente só pode destituir um membro do Conselho de Governadores por justa causa — critério que juristas interpretam como prova de má conduta grave ou negligência no exercício do cargo, não divergência política. Trump é o primeiro presidente a tentar remover um governador em mandato.

Se aparecer uma cadeira livre, por ordem judicial ou outro motivo, o comando democrata do Comitê Bancário tem a prerrogativa de não indicar ninguém e deixar o posto desocupado, frustrando a chance de Trump emplacar um nome alinhado.

O limite da proteção democrata

Alguns analistas do Fed avaliam que o controle do Senado oferece apenas uma defesa parcial contra um Executivo agressivo. O partido não dispõe de ferramentas para bloquear pressões do Executivo, como a sinalização de demissões, sobre parlamentares pouco engajados. Além disso, caso o Executivo consiga remover desafetos e mantenha os postos vazios, a correlação de forças no colegiado ainda pode se alterar.

Michael Strain, diretor de estudos de política econômica do American Enterprise Institute, descreveu o cenário como uma redução marginal da ameaça à independência do Fed, sem mudança radical. Ele apontou que o risco maior é o uso do sistema de justiça criminal para influenciar decisões de política monetária — avaliação registrada na apuração.

O que observar a partir de agora

Três frentes seguem abertas: o desfecho dos resultados no Alasca e no Mississippi, a audiência sobre Lisa Cook prevista para dezembro e eventuais decisões judiciais sobre tentativas de destituição. Qualquer renúncia inesperada no conselho do Fed também entra no radar, porque uma vaga abriria uma disputa política que o Senado democrata pode travar.

O que isso muda para quem investe do Brasil

A independência do Fed tende a ancorar as expectativas de inflação americana e reduzir o prêmio de risco embutido nos títulos do Tesouro dos EUA. Juros americanos mais altos por mais tempo, por sua vez, costumam manter o dólar firme e pressionar ativos de economias emergentes, incluindo o real e a curva de juros brasileira. O canal de transmissão é o diferencial de juros e o câmbio.

O bloqueio no Senado, porém, não elimina o risco político. A avaliação de analistas citada na apuração é que a proteção é limitada, porque o Executivo mantém instrumentos de pressão. Para o investidor, o cenário que se desenha é de menos interferência direta na composição do Fed, mas não de fim da disputa.