As stablecoins — criptoativos programáveis desenhados para manter paridade estável de 1 para 1 com moedas fiduciárias — consolidaram uma posição hegemônica no ecossistema digital brasileiro, respondendo por aproximadamente 80% de todo o volume de transações declaradas à Receita Federal. O salto, divulgado pelo órgão na última terça-feira (30), representa uma migração estrutural de capital que partiu de uma fatia residual de 3,5% em 2019 para níveis superiores a 90% em picos de mercado, sinalizando a preferência de agentes por instrumentos de menor volatilidade nominal e liquidez imediata.
Evolução da Participação e Volume Agregado
Entre agosto de 2019 e dezembro de 2025, o mercado processou R$ 1,58 trilhão em operações declaradas. Desse montante, R$ 1,13 trilhão (71,7%) foram alocados exclusivamente em moedas estáveis. A tração do segmento acelerou-se a partir de 2020, delineando uma curva de adoção que se estabilizou recentemente na faixa de 76% a 80%, após registrar máximas históricas. O volume nominal mensal atingiu a marca recorde de R$ 39,7 bilhões em novembro de 2025, refletindo a maturação das tesourarias digitais e o uso intensivo dessas ferramentas para gestão de caixa.
| Período de Referência | Participação no Volume Declarado | Contexto de Mercado |
|---|---|---|
| 2019 | 3,5% | Fase inicial de experimentação |
| 2022 | 79,7% | Aceleração pós-ajuste de liquidez global |
| 2023 | 91,5% | Pico anual consolidado |
| Julho de 2023 | 94,3% | Maior fatia mensal da série histórica |
| Ciclos Recentes | 76% a 80% | Estabilização estrutural do fluxo |
Concentração de Liquidez e Fluxo de Negociação
A hegemonia se reflete na distribuição de mercado. A Tether (USDT) responde por 88,7% do volume declarado no segmento, equivalendo a cerca de R$ 1,0 trilhão. A USD Coin (USDC) detém 7,1%, enquanto a Brazilian Digital Token (BRZ) — principal referência atrelada ao real — ocupa 3,4%. Em termos operacionais, o mercado registrou 185,7 milhões de compras e vendas no período analisado. A intensidade transacional atingiu 18,2 milhões de operações em novembro de 2024, representando a maior parte dos 31,9 milhões de trades realizados no universo cripto naquele mês.
A Regra da DeCripto e o Alinhamento Internacional
A partir de julho de 2026, entra em vigor a obrigatoriedade de reporte via DeCripto — sistema de declaração de ativos digitais instituído pela Instrução Normativa RFB nº 2.291, publicada em 14 de novembro de 2025. O mecanismo espelha o Crypto-Asset Reporting Framework (CARF), padrão da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) voltado ao intercâmbio automático de informações fiscais entre jurisdições. A normativa estende a obrigação às plataformas estrangeiras que direcionem serviços ao público brasileiro, independentemente de sede jurídica, conforme o artigo 5º. O desenho regulatório busca blindar o sistema contra evasão de divisas, lavagem de ativos e financiamento de atividades ilícitas.
O que isso significa para o investidor
A migração massiva para instrumentos com lastro fiduciário indica uma priorização de gestão de risco e preservação de capital sobre a especulação direcional. Para o investidor pessoa física, o cenário demanda organização contábil rigorosa e atenção redobrada aos custos de aquisição e tributação sobre ganhos líquidos. A estabilização recente da participação das stablecoins sugere que o mercado atingiu um equilíbrio entre a busca por rentabilidade em ativos voláteis e a necessidade de caixa digital seguro. A predominância de referências em dólar reforça o uso desses instrumentos como proteção cambial, enquanto ativos atrelados ao real ganham espaço para operações de liquidez doméstica. A proximidade da vigência da nova obrigação fiscal exige que os participantes ajustem seus registros de posição, evitando passivos tributários futuros.
Riscos e Pontos de Atenção
- Conformidade Regulatória Expandida: A inclusão de plataformas offshore na malha de fiscalização amplia o escopo de vigilância e exige transparência absoluta sobre a origem e o destino dos recursos.
- Risco de Descolamento de Paridade (Peg): Embora operem com mecanismo de estabilização, ativos digitais podem apresentar volatilidade temporária em cenários de estresse de liquidez ou falhas na manutenção das reservas de lastro.
- Exposição Cambial Direta: A concentração em moedas estrangeiras introduz flutuação direta na conversão para reais, exigindo gestão ativa do risco de câmbio na composição da carteira.
Perspectiva e Próximos Passos
O mercado deve se preparar para a primeira rodada de entrega obrigatória da DeCripto, prevista para meados de 2026. A consolidação do padrão internacional e a vigilância contínua sobre prestadores de serviços de ativos virtuais tenderão a reduzir a opacidade nas operações transfronteiriças, elevando a segurança jurídica e a integridade dos dados reportados ao longo da próxima safra fiscal.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
