Starbucks corta 250 lojas e soma nova fatura à recuperação

A Starbucks (BDR SBUB34) aprovou o encerramento de aproximadamente 250 cafeterias nos Estados Unidos e no Canadá. A decisão do conselho, tomada em 22 de setembro, deve custar cerca de US$ 300 milhões em despesas. As unidades equivalem a perto de 1% das mais de 18 mil lojas que a rede mantém na América do Norte, e a maior parte dos fechamentos tem prazo até o fim do exercício fiscal de 2026, segundo o formulário 8-K protocolado na Securities and Exchange Commission (SEC), órgão equivalente à Comissão de Valores Mobiliários nos Estados Unidos.

O que chama atenção no anúncio não é a quantidade de portas que se fecham, mas a fatura que se acumula. Esta é a terceira rodada de reestruturação aprovada em pouco mais de 12 meses, e cada etapa veio com previsão própria de despesa — sinal de que a reconstrução da operação segue em curso, sem data para terminar.

Três rodadas, três faturas

EtapaAprovaçãoEscopoDespesa prevista
1ªsetembro de 2025fechamento de cafeterias e mudança na estrutura administrativacerca de US$ 1 bilhão
2ªmaio de 2026simplificação da estrutura global de suporte e das operações Starbucks Reserve e Roasterycerca de US$ 400 milhões
3ª22 de setembro de 2026saída de cerca de 250 unidades nos EUA e no Canadácerca de US$ 300 milhões

Na primeira rodada, os US$ 1 bilhão estimados se dividiam entre US$ 150 milhões em benefícios de desligamento, US$ 400 milhões em baixas de ativos e US$ 450 milhões ligados sobretudo a contratos de aluguel. Somadas as três previsões divulgadas, a companhia já sinalizou perto de US$ 1,7 bilhão em custos de reorganização — valor que não aparece em manchete isolada alguma, mas que descreve a dimensão real do esforço.

Do total agora anunciado, US$ 200 milhões representam saída efetiva de caixa, com destaque para rescisões de contratos de aluguel e pagamentos vinculados ao desligamento de funcionários. Os US$ 100 milhões restantes são despesas sem desembolso direto, ligadas ao reconhecimento de perdas contábeis e à desvalorização patrimonial das unidades encerradas — a baixa contábil, no jargão do setor, é o registro em resultado de um ativo que perdeu valor. Sobre as pessoas atingidas, a empresa informou que há possibilidade de transferência para outras unidades quando existir vaga e, quando a realocação não acontece, apoio financeiro atrelado à dispensa.

O que as etapas anteriores já consumiram em lojas

O encerramento de unidades é movimento antigo dentro do plano. Ao término do quarto trimestre fiscal de 2025, a companhia havia fechado 627 lojas na primeira reestruturação, mais de 90% concentradas na América do Norte, com 584 lojas na região e 43 fora dela. Nos dois primeiros trimestres fiscais de 2026, outras 227 unidades ligadas ao mesmo processo saíram da rede.

Vendas melhoram, margem recua

O contraste entre operação e resultado aparece nos números. No trimestre que se encerrou em 28 de junho, as vendas comparáveis subiram 7,9%, quarta melhora consecutiva. Na outra ponta, os aportes em pessoal consumiram pelo menos US$ 500 milhões ao longo do processo. Na margem operacional consolidada, o indicador recuou a 12,9%, ante 15,8% de dois anos antes. Já a operação da América do Norte viu a margem recuar de 21% para 13,6% no mesmo intervalo.

Esse é o ponto que tende a definir a leitura do caso: a melhora de tráfego e de vendas ainda não se converteu em rentabilidade equivalente. Historicamente, custos de reestruturação pesam por alguns trimestres e depois saem da base de comparação — o que se observa aqui é o intervalo entre o gasto e o retorno.

O que muda nas lojas que continuam abertas

Enquanto encerra unidades, a rede reforma parte daquelas que seguem em operação. Desde o fim de 2025, mais de 1 mil lojas passaram por reformas nos dois países, e a rede persegue a marca de pelo menos 1,5 mil unidades renovadas até o fim do exercício fiscal de 2026. A reforma troca mobiliário, renova a iluminação, acrescenta obras de arte e amplia as áreas de convivência e o número de assentos. A intenção declarada é fazer com que a loja volte a ser um terceiro lugar na rotina do cliente — um espaço entre a casa e o escritório —, e não apenas um balcão de retirada de pedidos.

Essa frente integra o plano Back to Starbucks, criado pelo presidente-executivo Brian Niccol, que também passa por um menu mais curto, atendimento mais veloz, aportes em pessoal e mudanças na rotina das unidades.

Expansão segue no planejamento

O corte de unidades não eliminou a aposta em crescimento. A companhia afirma ver oportunidades na América do Norte e mantém uma carteira de novas cafeterias em desenvolvimento. O material divulgado à comunidade de investidores no início de 2026 aponta para a abertura de cerca de 400 lojas próprias líquidas nos EUA até o ano fiscal de 2028 — unidades líquidas, no jargão, são as aberturas menos os fechamentos do período.

O que observar daqui para frente

Quem acompanha a Starbucks pela B3, por meio do BDR — recibo negociado no Brasil que espelha a ação estrangeira —, tende a olhar menos para o número de lojas e mais para a capacidade de transformar aumento de vendas em margem. Três rodadas de reestruturação em pouco mais de um ano indicam que o processo pode se estender, e cada etapa adiciona custo antes de adicionar resultado. A composição das despesas ajuda a separar o efeito contábil do caixa: US$ 200 milhões saem do bolso e US$ 100 milhões não.

Um segundo ponto de atenção é o equilíbrio entre fechar e reformar. A rede retira lojas sem desempenho financeiro considerado aceitável e reinveste nas que permanecem, estratégia que costuma exigir paciência do acionista. Enquanto as reformas não se completam e os gastos com pessoal seguem no balanço, a comparação com os patamares de margem de dois anos atrás tende a continuar desfavorável.