O Tesouro Direto passou toda a manhã desta segunda-feira (26 de outubro) com as negociações suspensas e só voltou a exibir preços por volta do horário do almoço. Na primeira atualização da plataforma do Tesouro Nacional, os prefixados surgiram com taxas acima de 15% e os papéis corrigidos pela inflação a 7,5% + IPCA. O Tesouro IPCA+ 2050 aparecia com desvalorização superior a 20% frente à sexta-feira (23).

Para quem já carrega esses títulos, o efeito imediato é contábil: o preço de revenda cai, e a perda só se materializa se a venda acontecer antes do vencimento. O fluxo contratual — cupons e valor de face — continua o combinado no momento da compra. Quem precisa de liquidez agora, porém, negocia o papel pelo valor que o mercado aceita pagar hoje, e é nessa diferença que o salto das taxas vira prejuízo concreto.

De 13% para 15%: o repique em um único pregão

A comparação com o fechamento anterior mostra a dimensão do movimento. Na sexta-feira (23), a mesma plataforma exibia retornos abaixo de 13% nos prefixados e abaixo de 7% nos indexados ao IPCA. A marca de 8% + IPCA, que havia sumido do mercado, reapareceu no Tesouro IPCA+ 2032 e em alguns vencimentos do Tesouro Educa+, modalidade usada para acumular recursos destinados a estudos. Em diversos vencimentos, a perda na marcação a mercado superou 10% em um só dia. Marcação a mercado é o ajuste diário do preço do título ao valor que o mercado pagaria por ele antes do vencimento.

TítuloSexta-feira (23/10)Segunda-feira (26/10)
Prefixadosabaixo de 13%acima de 15%
Indexados à inflaçãoabaixo de 7%7,5% + IPCA
Tesouro IPCA+ 2032—8% + IPCA
Tesouro Educa+ (alguns vencimentos)—8% + IPCA
Tesouro IPCA+ 2050—queda de mais de 20%

Juros futuros voltam a precificar Selic a 15%

A parada das negociações não foi uma decisão comercial: trata-se de procedimento padrão quando o mercado de juros futuros abre com volatilidade extrema, porque as taxas dos títulos públicos são formadas a partir desses contratos. Os DIs — juros futuros negociados na B3, usados como termômetro da expectativa para a Selic — amanheceram com alta forte, acima de 20% nos vencimentos mais longos. A curva passou a projetar a taxa básica de volta aos 15%, nível vigente quando o Banco Central iniciou o ciclo de queda mais recente.

O gatilho foi o resultado eleitoral de domingo (25). A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contrariou a expectativa de vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), que aparecia como favorito na disputa. O senador é associado, entre investidores, a uma agenda de ajuste fiscal e de responsabilidade nas contas públicas — pauta que o mercado vinha aguardando para conseguir precificar juros menores.

O pregão desta segunda devolve, em poucas horas, o alívio registrado no primeiro turno. Quando o senador terminou a primeira rodada à frente, os juros futuros e o dólar recuaram com força, enquanto ações, prefixados e papéis indexados à inflação avançaram. Agora a direção se inverteu em todos esses mercados, com a devolução dos ganhos recentes.

Tesouro cancela leilões e abre recompra de até 15 milhões de NTN-F

O Tesouro Nacional anunciou o cancelamento das duas ofertas tradicionais previstas para esta semana: a de papéis indexados à inflação, marcada para terça-feira (27), e a de prefixados, agendada para quinta-feira (29). A colocação de LFTs — Letras Financeiras do Tesouro, que acompanham a Selic — segue mantida para terça.

No lugar dos leilões, o Tesouro convocou uma operação extraordinária para recomprar até 15 milhões de Notas do Tesouro Nacional série F (NTN-F), título prefixado com pagamento de juros semestrais. As NTN-F recompradas terão vencimentos em 2031, 2033 e 2037, com teto de 5 milhões de títulos para cada data. O desembolso final depende das propostas que forem aceitas.

As duas medidas atacam o mesmo problema. Investidores que exigem taxas mais altas encarecem o financiamento do governo; suspender as ofertas evita que o Tesouro contrate dívida prefixada ou indexada à inflação nessas condições de mercado. A recompra, por sua vez, cria uma porta de saída para quem quer se desfazer dos papéis e ajuda a absorver a pressão sobre os preços.

O que muda para quem carrega o papel

  • Preço de tela e fluxo contratual: a queda de mais de 20% no IPCA+ 2050 vale para quem vender hoje, não para quem permanecer até o vencimento — nesse caso, prevalecem as condições originais do título.
  • Liquidez: em dias de volatilidade elevada, o comprador do outro lado exige desconto maior para assumir o papel, o que amplia a diferença entre o preço ofertado e o valor teórico da carteira.
  • Custo de rolagem do governo: taxas mais altas no mercado secundário tendem a se refletir nas próximas emissões, encarecendo a dívida pública que ainda será colocada.

Passam a existir, na prática, dois preços para o mesmo título: o que a curva oferece nesta segunda-feira e o que foi travado na compra. A distância entre eles mede o custo de sair antes do prazo, e é justamente esse intervalo que a recompra de NTN-F torna explícito, com valores definidos pelas propostas aceitas no leilão extraordinário.

Na agenda da semana, os pontos de observação são o leilão de LFTs de terça-feira e o resultado da recompra das NTN-F. As ofertas de papéis atrelados à inflação e de prefixados não ocorrem nos dias originalmente previstos.