As taxas do Tesouro Direto recuaram outra vez nesta terça-feira (6), no segundo dia seguido de queda depois do recuo de magnitude histórica registrado na véspera. O gatilho é o mesmo: Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e parte do mercado passou a trabalhar com uma política fiscal mais austera em um eventual novo governo. O Tesouro IPCA+ 2050 cedeu de IPCA + 6,59% para IPCA + 6,51%, uma das maiores quedas do grupo, e o Tesouro Prefixado 2032 saiu de 12,81% para 12,71%.
A queda das taxas produz dois efeitos ao mesmo tempo. Para quem já tem o papel na carteira, ela empurra o preço unitário para cima pela marcação a mercado — mecânica em que o valor de negociação do título sobe quando a taxa cai. Para quem compra agora, o retorno contratado é menor do que o oferecido na sexta-feira, antes do primeiro turno, e é essa segunda leitura que muda o cálculo de quem monta posição hoje.
Prefixado 2029 cede a 12,55% e IPCA+ 2032 perde os 7%
| Título | Segunda (5) | Terça (6) |
|---|---|---|
| Tesouro Prefixado 2029 | 12,62% | 12,55% |
| Tesouro Prefixado 2032 | 12,81% | 12,71% |
| Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037 | 12,90% | 12,79% |
| Tesouro IPCA+ 2032 | IPCA + 7,00% | IPCA + 6,95% |
| Tesouro IPCA+ 2040 | IPCA + 6,68% | IPCA + 6,64% |
| Tesouro IPCA+ 2050 | IPCA + 6,59% | IPCA + 6,51% |
No Prefixado 2029, o recuo foi de 7 pontos-base — cada ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual. Já o Prefixado com Juros Semestrais 2037 recuou de 12,90% para 12,79%, o equivalente a 11 pontos-base. Entre os papéis indexados à inflação, o IPCA+ 2050 registrou uma das maiores quedas, de 8 pontos-base.
O contraste com a sexta-feira é bem maior. Naquele fechamento, o IPCA+ 2032 ainda pagava IPCA + 7,66% e o IPCA+ 2050, IPCA + 7,08%; agora, as taxas estão em IPCA + 6,95% e IPCA + 6,51%. Prefixados travam uma taxa nominal já conhecida na compra; papéis atrelados ao IPCA combinam a inflação acumulada no período com um prêmio fixo, e por isso são mais sensíveis ao vaivém das expectativas.
Preço unitário sobe 13,6% desde o fechamento pré-turno
| Título | Sexta-feira | Terça (6) | Variação |
|---|---|---|---|
| Tesouro Prefixado 2032 | R$ 500,69 | R$ 536,88 | +7,2% |
| Tesouro IPCA+ 2050 | R$ 938,25 | R$ 1.065,86 | +13,6% |
A marcação a mercado já aparece no valor dos papéis. O ganho, porém, é contábil até que o investidor venda: quem leva o título até o vencimento recebe a taxa contratada no momento da compra, e o sobe-e-desce do preço no meio do caminho não altera esse resultado final.
Ritmo perde força, mas o gatilho fiscal segue no comando
A intensidade é menor do que a vista na segunda-feira (5). O fechamento das taxas mostra que a reprecificação iniciada na véspera ainda encontra espaço, mas depende da percepção dos investidores sobre a corrida presidencial e, sobretudo, sobre o quadro fiscal. No mercado de juros futuros, os contratos de DI — termômetro das apostas para a taxa básica — recuaram na abertura desta terça, acompanhados pelo dólar. As duas pontas ainda refletem a repercussão do primeiro turno.
A ponta longa da curva tende a ser a mais sensível a mudanças na percepção de risco fiscal, o que ajuda a explicar por que vencimentos como o IPCA+ 2050 e o IPCA+ 2040 concentraram quedas expressivas em tão pouco tempo. A velocidade do movimento também revela o ponto de partida: os prêmios embutidos carregavam uma dose de risco que o mercado, agora, recalibra para baixo, à espera de sinais sobre a política econômica do próximo governo.
Para quem acompanha renda fixa, a curva mudou de patamar em pouco mais de um dia. Os prêmios disponíveis antes da votação não estão mais na tela, e a decisão de travar uma taxa hoje ocorre em um nível mais baixo. O ponto de atenção passa a ser a próxima leitura do cenário político e fiscal, capaz de devolver ou aprofundar o recuo das taxas.
