A Tether encerrou setembro com US$ 7,95 bilhões em reservas excedentes, quase o dobro dos US$ 4,1 bilhões apurados três meses antes, e reportou US$ 1,5 bilhão de lucro operacional no terceiro trimestre. Os números constam do atestado mais recente da emissora do USDT, elaborado pela BDO, empresa independente de contabilidade, e recolocam no centro do debate a estrutura que sustenta a maior stablecoin do mercado.

O colchão que fica fora dos tokens emitidos

O atestado — relatório em que um contador externo confirma a existência dos ativos em uma data específica, sem o escopo de uma auditoria completa — compara US$ 191,5 bilhões em ativos com US$ 183,5 bilhões em passivos no fim de setembro. A diferença entre os dois lados do balanço é justamente o excedente de reserva: capital que não corresponde a nenhuma unidade de USDT em circulação e funciona como amortecedor caso uma parcela relevante dos detentores decida resgatar seus tokens ao mesmo tempo.

IndicadorPosição em 30/09/2026
Ativos totaisUS$ 191,5 bilhões
Passivos totaisUS$ 183,5 bilhões
Reservas excedentesUS$ 7,95 bilhões
Reservas excedentes em junhoUS$ 4,1 bilhões
Títulos do Tesouro dos EUAUS$ 132,4 bilhões
Reservas em BitcoinUS$ 8,37 bilhões
Lucro operacional no trimestreUS$ 1,5 bilhão
Lucro operacional em nove mesesUS$ 4,5 bilhões

No acumulado de janeiro a setembro de 2026, o lucro operacional líquido chegou a US$ 4,5 bilhões. A receita vem principalmente dos juros pagos pelos papéis do Tesouro americano e dos acordos de recompra reversa — operações de curtíssimo prazo em que a empresa empresta recursos lastreados em títulos públicos e recebe remuneração por isso.

Exposição a dívida americana em escala de país

A fatia mais robusta da carteira está em títulos do governo dos Estados Unidos, somando US$ 132,4 bilhões entre posições diretas e indiretas. Para dimensionar o volume, dados de agosto do próprio Departamento do Tesouro americano mostram a Coreia do Sul com US$ 134,2 bilhões em dívida pública dos EUA e os Emirados Árabes Unidos com US$ 116,1 bilhões.

A comparação ajuda a entender o modelo de negócio: a Tether capta recursos ao emitir uma moeda digital atrelada ao dólar e aplica esse caixa em ativos de baixo risco de crédito. O resultado é uma receita que acompanha de perto o nível dos juros americanos — e que se comprime quando o Federal Reserve corta as taxas.

Bitcoin: de cerca de US$ 5,8 bi para US$ 8,37 bi

Na parcela de maior volatilidade da carteira, a posição em Bitcoin aparecia avaliada em US$ 8,37 bilhões ao final de setembro, contra aproximadamente US$ 5,8 bilhões no fechamento de junho. O montante é pequeno diante dos US$ 191,5 bilhões de ativos totais, mas ganha peso simbólico em uma estrutura cujo passivo é composto por tokens indexados ao dólar: movimentos bruscos do BTC não podem, em tese, comprometer a paridade de 1 para 1 do USDT.

700 milhões de usuários e 60% do mercado

O USDT segue na liderança isolada do segmento, com cerca de 60% de participação em um mercado de stablecoins avaliado em US$ 297,3 bilhões, conforme dados da DefiLlama. Na sexta-feira, o CEO da Tether, Paolo Ardoino, afirmou em publicação no X que a base de usuários do token superou 700 milhões, com adoção concentrada em mercados emergentes.

Transparência continua no radar

A qualidade da divulgação financeira da Tether é tema de escrutínio há anos. Em agosto, a companhia informou ter concluído sua primeira auditoria integral e independente das demonstrações financeiras, conduzida pela KPMG US — mas os documentos auditados não foram divulgados ao público. Um atestado trimestral, como o assinado pela BDO, verifica a existência e a composição dos ativos em uma data de corte; não substitui a análise de um exercício contábil completo, com avaliação de controles internos e de passivos contingentes.

O que isso significa para o investidor

Quem usa stablecoin como ferramenta de liquidez — para operar criptoativos ou para manter posições dolarizadas sem sair do ambiente digital — deveria olhar três pontos deste balanço:

  1. O excedente de US$ 7,95 bilhões é o principal indicador de folga financeira do emissor, mas é medido em uma data específica e não captura estresse prolongado de resgates.
  2. A concentração em Treasuries reduz o risco de crédito e, ao mesmo tempo, torna a receita da Tether sensível ao ciclo de juros dos Estados Unidos.
  3. A ausência de demonstrações auditadas públicas mantém uma assimetria de informação entre a empresa e quem depende do token como infraestrutura de liquidez.

A stablecoin cumpre função de meio de pagamento e de Reserva de valor em dólar, sem render juros a quem a carrega. Separar essa função do risco de crédito do emissor é o primeiro passo para dimensionar a exposição real de uma carteira.