A Uber colocou toda a sua força de trabalho global — aproximadamente 30 mil pessoas — para operar o ChatGPT Work, produto corporativo que a OpenAI lançou em julho. O movimento, anunciado na quinta-feira (22), amplia a parceria entre a companhia de mobilidade e a desenvolvedora do ChatGPT e transforma em implantação mundial um teste que havia começado em escala reduzida no início do ano.

Do piloto restrito à adoção integral

Na primeira fase, o acesso à ferramenta ficou limitado a 1.000 funcionários, com representantes de áreas como finanças, operações e produto. A expansão para o quadro completo veio depois dessa experiência. Um número do piloto ajuda a explicar a decisão: 80% dos primeiros usuários não eram engenheiros de software — a ferramenta foi absorvida por gente de rotinas administrativas e operacionais, não apenas por times técnicos.

Esse é o ponto que interessa ao mercado. Ferramentas de IA generativa, capazes de produzir texto, código e análise a partir de comandos em linguagem comum, deixam de ser linha de orçamento exclusiva da área de tecnologia e passam a ocupar o cotidiano de funções corporativas amplas. Para os fornecedores, cresce o número de licenças vendáveis. Para quem compra, o debate se desloca de qual modelo adotar para quanto custa por funcionário e qual retorno aparece.

MétricaValor
Funcionários alcançados30.000
Piloto inicial1.000 funcionários
Não engenheiros no piloto80%
Lançamento do ChatGPT Workjulho
Custo do contratonão divulgado

Custo fora da mesa e governança por métrica

A Uber não informou quanto desembolsa nessa ampliação. A companhia afirma que vai acompanhar a adoção interna — que tipos de fluxo de trabalho os times criam e que ganho efetivo surge — e usar essas medições para orientar a distribuição da IA pelo negócio. A OpenAI participou diretamente da integração da ferramenta ao ambiente da empresa.

A ausência do número é relevante. Contratos corporativos de IA seguem opacos, no Brasil e no exterior, e a dificuldade de mensurar produtividade é justamente o que trava orçamentos. Ao condicionar a implantação à avaliação de resultados, a Uber sinaliza que a decisão de compra passa a ser guiada por indicadores internos, e não apenas pelo entusiasmo com a novidade tecnológica.

A corrida pelo cliente corporativo

O acordo também serve de termômetro para a disputa entre OpenAI e Anthropic. A criadora do ChatGPT construiu reputação no público final e, mais recentemente, passou a brigar por clientes empresariais com a rival. Contratos de larga escala com companhias globais funcionam como vitrine: reduzem a desconfiança de departamentos de compras e de segurança da informação e pressionam concorrentes a apresentar referências equivalentes.

O que o investidor brasileiro deve observar

Não existe exposição direta na B3 a Uber ou OpenAI. O efeito chega de forma indireta, por três canais. O primeiro é o custo operacional das empresas listadas que embarcam ferramentas semelhantes: ganho de produtividade sem controle de gasto vira despesa recorrente. O segundo é o impacto sobre fornecedores de software, cujo modelo de cobrança por licença convive cada vez mais com agentes de IA, programas capazes de executar tarefas em sequência com pouca intervenção humana. O terceiro é a leitura de ciclo: adoções amplas como essa encurtam a curva de maturação do mercado e antecipam a cobrança por retorno tangível, tema recorrente nas teleconferências de resultados das companhias de tecnologia locais.

O dado de 80% de não engenheiros é o mais informativo da notícia. Ele mostra que a adoção corporativa de IA saiu do laboratório e chegou ao funcionário comum — e é nesse contingente que o mercado de software corporativo vai medir crescimento nos próximos trimestres.