Cerca de US$ 158 milhões já foram devolvidos a correntistas do Ueno Bank, segundo o Banco Central do Paraguai (BCP), mas 669.336 contas seguem sem receber. Os pagamentos atingiram 64% das 1.867.531 contas com saldo no banco digital, que sofreu intervenção oficial depois que seu índice de solvência, medida da capacidade de cumprir obrigações, caiu para menos da metade do mínimo regulatório.
Guaranis devolvidos e a base de contas com saldo
As restituições somam 994,6 bilhões de guaranis, moeda paraguaia. A base de 1.867.531 contas exclui as zeradas e não se confunde com os cerca de 3 milhões de clientes que o banco atendia.
Nova rodada na segunda e desconto de dívidas
A partir de segunda-feira (9), o BCP pretende abrir outra etapa de pagamentos, agora com correntistas que devem ao banco. Enquanto isso, o órgão prepara a fase no fim de semana, e bancos e financeiras mantêm transferências e saques em espécie nas agências no sábado e no domingo.
Quem tem dívida recebe menos. A legislação paraguaia manda abater parcelas vencidas antes da devolução: quem tinha 5 milhões de guaranis e devia 2 milhões em atraso fica com 3 milhões.
A partir de quinta-feira (12), o BCP começa a examinar, na ordem de chegada, os pedidos individuais de quem segue sem receber.
Quem cumpria os requisitos e ainda não recebeu
Na primeira rodada, foram pagos correntistas sem empréstimos, sem dívidas no cartão e sem outras obrigações com o Ueno, desde que tivessem conta em outra instituição ou a abrissem. Parte deles ficou de fora por bloqueios nas contas, e a previsão é incluí-los na segunda (9) ou, no limite, na terça (10).
Para brasileiros que tinham dinheiro no banco paraguaio, o detalhe relevante é a moeda: os pagamentos saem em guaranis, mesmo para contas originalmente em dólar.
Agenda de pagamentos e aposentadorias
| Data | Etapa |
|---|---|
| Segunda-feira (9) | Nova rodada de pagamentos, com clientes que têm dívidas |
| Terça-feira (10) | Limite para incluir casos travados por bloqueios |
| Quinta-feira (12) | Início da análise de pedidos individuais, por ordem de chegada |
| 17 de novembro | Pagamento de aposentadorias e do benefício anual complementar |
Teto de R$ 201 mil e o papel da liquidação
O Fundo de Garantia de Depósitos (FGD) cobre clientes quando uma instituição não consegue cumprir suas obrigações. O fundo tem cerca de US$ 1,663 bilhão, dos quais 9,5% já foram usados nas restituições do Ueno. A cobertura vai até 75 salários mínimos paraguaios, ou 228,3 milhões de guaranis, equivalentes a cerca de R$ 201 mil por cliente.
Valores acima desse teto ficam sujeitos à liquidação, processo em que o banco é encerrado e seus ativos são apurados para pagar credores. Não há prazo para esse desfecho.
Impeachment, prisão domiciliar e 32 mil aposentados
Na sexta-feira (6), o Senado destituiu o presidente Santiago Peña em processo de impeachment ligado ao colapso do banco, e o então vice Pedro Alliana assumiu o governo. Peña, que manteve fatia na controladora do banco até 2025, cumpre prisão domiciliar e nega irregularidades. No sábado (7), depôs ao Ministério Público, já que as autoridades paraguaias apuram possíveis irregularidades e conflitos de interesse.
Antes da intervenção, o Ueno administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos. Já cerca de 32 mil aposentados, cujos benefícios passavam pelo banco, estão sendo remanejados para outros oito bancos, segundo o Instituto de Previdência Social (IPS), que mantém o pagamento previsto para 17 de novembro.
Onde a garantia termina e o risco aparece
Até o teto de cerca de R$ 201 mil, a proteção está definida em regra; acima dele, o desfecho depende da liquidação, sem prazo. Muitos depositantes tendem a tratar garantia e devolução integral como sinônimos, mas o caso mostra que são coisas diferentes. Processos de liquidação costumam ser mais lentos do que as primeiras devoluções, o que tende a manter saldos maiores em suspenso por mais tempo.
A moeda acrescenta outra camada: como os pagamentos saem em guaranis, a variação cambial entre o saldo original e o recebimento pode alterar o valor em reais de quem é brasileiro. Os dados divulgados não trazem essa conversão, mas o efeito existe.
A sequência de solvência abaixo do mínimo, intervenção, impeachment e investigação sobre conflitos pode elevar a cautela com bancos digitais na hora de concentrar saldos. Acompanhar a liquidação e o cumprimento das datas de 9, 10 e 12 segue sendo o principal termômetro do caso.
