A Usiminas (USIM5) virou a página do prejuízo, mas não a da desconfiança do mercado. A siderúrgica reportou lucro líquido de R$ 243 milhões no terceiro trimestre de 2026, contra resultado negativo de R$ 3,5 bilhões um ano antes, e ainda assim apareceu entre as maiores baixas do Ibovespa no pregão desta sexta-feira (30): às 11h20, as ações recuavam 4,57%, a R$ 5,22. O que separa o lucro contábil da reação negativa é o Ebitda ajustado — o lucro da operação antes de juros, tributos, depreciação e amortização, medida que isola o caixa produzido pelo negócio antes de efeitos contábeis e financeiros — de R$ 558 milhões.
A base de comparação anual é dramática e, em certa medida, enganosa: o prejuízo bilionário de 2025 fez qualquer lucro parecer manchete positiva. O que o pregão parece ter cobrado é a qualidade desse lucro, não a sua existência. O Ebitda de R$ 558 milhões recuou 27% em um trimestre e ficou 10% abaixo do consenso, enquanto o lucro veio inferior aos R$ 280 milhões projetados e 43% menor que o do segundo trimestre.
O consenso de R$ 280 milhões e a distância até o lucro
Os R$ 280 milhões apontados pelo consenso compilado pela Bloomberg funcionavam como piso informal da expectativa. A companhia entregou R$ 243 milhões — abaixo, portanto. Em termos de tendência, o recuo de 43% sobre o segundo trimestre de 2026 indica perda de tração justamente no momento em que o mercado aguardava a consolidação da retomada. A resposta veio em tela: por volta das 11h20, USIM5 liderava as baixas do Ibovespa, com -4,57% e R$ 5,22 por ação.
| Indicador | Valor | Referência |
|---|---|---|
| Lucro líquido (3º tri/2026) | R$ 243 milhões | prejuízo de R$ 3,5 bi no 3º tri/2025 |
| Lucro vs. 2º tri/2026 | -43% | — |
| Consenso Bloomberg | R$ 280 milhões | resultado abaixo do esperado |
| Ebitda ajustado | R$ 558 milhões | -27% no trimestre; -10% vs. estimativas |
| USIM5 às 11h20 | R$ 5,22 | -4,57%, entre as maiores quedas do Ibovespa |
| BTG Pactual | alvo de R$ 10 | avaliação neutra |
| Safra | alvo de R$ 8,30 | avaliação neutra |
Ebitda de R$ 558 milhões: aço e minério abaixo do esperado
O BTG Pactual classificou o trimestre como fraco e explicou o Ebitda de R$ 558 milhões por um desempenho inferior ao previsto nas duas principais frentes de negócio, aço e minério de ferro. O banco calcula queda de 27% frente ao segundo trimestre e resultado 10% abaixo das próprias estimativas.
O lucro líquido, por si só, é um termômetro impreciso para siderúrgica: a linha final do balanço mistura efeito financeiro, variação de moeda e itens contábeis que pouco dizem sobre a capacidade de gerar caixa no forno e na mina. Por isso o mercado costuma mirar o Ebitda para julgar a operação — e foi ele que ficou devendo.
A XP Investimentos chegou a diagnóstico semelhante por outro caminho: o Ebitda da divisão de Siderurgia ficou abaixo tanto das projeções da casa quanto das metas já conservadoras sinalizadas pela administração. Havia mais aço sendo vendido, mas o custo subiu mais rápido — a inflação de matérias-primas, insumos e energia anulou o benefício que a alavancagem operacional (o ganho de eficiência obtido ao diluir custos fixos com volume maior) normalmente proporciona.
Quarto trimestre: mix pior, custo em alta e menos minério
A administração não sinalizou melhora imediata. A projeção para o quarto trimestre de 2026 é de deterioração moderada nos resultados de aço, combinando mix de vendas (a mistura de produtos e mercados atendidos) menos favorável e pressão contínua sobre custos. A expectativa é de mais vendas externas, o suficiente para compensar a queda sazonal do mercado interno, mas com receita líquida por tonelada menor no período.
Na frente siderúrgica, o cenário traçado prevê redução moderada dos resultados operacionais. Na mineração, a leitura é de menos volume embarcado, efeito do patamar dos preços internacionais e do frete marítimo elevado. O conjunto reforça que a companhia não projeta recuperação rápida de margem: mesmo com mais volume saindo, o preço realizado por tonelada cai e o custo unitário não acompanha essa queda.
Importação, frete e juro: o que a Usiminas não controla
O BTG Pactual vê espaço limitado para recuperação dos resultados no curto prazo, citando a concorrência persistente dos produtos importados no mercado brasileiro de aço e a deterioração dos preços do minério de ferro. O banco mantém avaliação neutra para USIM5, com preço-alvo de R$ 10.
A XP Investimentos segue cautelosa: juros mais altos e uma perspectiva doméstica mais desafiadora tendem a continuar restringindo a demanda e os preços do aço. No segmento de Mineração, o desempenho mais fraco do minério e o custo maior do frete transoceânico também sopram contra os resultados.
O Safra soma a esse quadro custos mais altos de carvão e coque que não são compensados pelo aumento esperado das exportações, além de volumes e preços menores no mercado doméstico. Para a Mineração, a companhia não forneceu orientação sobre a tendência dos resultados, e a casa trabalha com piora na comparação trimestral. O Safra também tem avaliação neutra para as ações, com preço-alvo de R$ 8,30.
As três casas descrevem o mesmo mecanismo por ângulos distintos, e nenhuma delas aponta alívio de margem no horizonte próximo. Importação, frete e juro são variáveis de fora do balanço — a empresa controla custo e mix, não o preço do aço no mercado internacional nem a taxa básica que define a demanda doméstica.
O que R$ 5,22 por ação dizem sobre a fase da siderúrgica
A distância entre o preço de tela e os alvos das casas que cobrem o papel — R$ 10 no BTG Pactual, R$ 8,30 no Safra — mede o descasamento entre o valor que os modelos atribuem à companhia e o que o mercado aceita pagar hoje. As duas avaliações neutras indicam que esse desconto não é lido como oportunidade imediata: falta gatilho operacional visível.
Ações de siderúrgica historicamente antecipam o ciclo de demanda doméstica, e o retrato traçado pelas três casas combina procura restringida por juro alto, preço de aço sob pressão de importados e minério sem sustentação. Enquanto esses três vetores não mudarem de direção, resultados contábeis positivos tendem a ser recebidos com desconto — e o Ebitda, não o lucro, deve seguir como a métrica que dita o humor do papel.
