Margem bruta de 65,0%: o número que o lucro esconde

A Vivara (VIVA3) encerrou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 114,8 milhões, recuo de 38,7% frente ao mesmo intervalo do ano anterior. O valor ficou um pouco acima da média das projeções de analistas, de R$ 111 milhões, segundo levantamento da LSEG. A linha que mais conta, porém, aparece adiante no balanço: a margem bruta reportada caiu para 65,0%, contra 71,3% no 3T25.

A distinção não é acadêmica. O lucro compara períodos e absorve efeitos contábeis; a margem indica quanto resta de cada real faturado. Uma perda de 6,3 pontos percentuais em doze meses significa que a companhia precisa embarcar mais volume para produzir o mesmo resultado — e o investidor tende a exigir prêmio maior de empresas que crescem com rentabilidade menor.

Indicador (3T26)ValorComparação anual
Lucro líquidoR$ 114,8 mi-38,7%
Receita líquidaR$ 692,9 mi+4,3%
Receita brutaR$ 867,4 mi+7,7%
Ebitda reportadoR$ 106 miR$ 210 mi no 3T25
Margem Ebitda reportada15,3%—
Ebitda ajustadoR$ 132,7 mi-22,4%
Margem bruta65,0%71,3% no 3T25
Vendas mesmas lojas+4,4%+10,7% no 3T25

Os R$ 39 milhões de PIS/Cofins que engordaram a base de 2025

Parte da queda do lucro é ótica. O terceiro trimestre do ano passado registrou créditos extemporâneos de PIS/Cofins — tributos cobrados sobre o faturamento — de R$ 39 milhões, o que elevou artificialmente o lucro daquele período. O consenso de mercado já contabilizava esse efeito.

O ajuste, contudo, não resolve a equação. O Ebitda (lucro antes de juros, tributos, depreciação e amortização) reportado somou R$ 106 milhões, com margem de 15,3%, bem abaixo dos R$ 210 milhões de um ano antes. Excluindo os lançamentos não recorrentes do trimestre, com impacto negativo de R$ 26,6 milhões, e também os créditos do 3T25, o Ebitda ajustado ficou em R$ 132,7 milhões — ainda 22,4% inferior. Sem os dois eventos extraordinários, a operação entregou menos, e não mais.

Relógios sobem 15,5%, joias avançam 2,1%

Do lado da receita, o desempenho foi positivo: R$ 692,9 milhões líquidos, alta de 4,3%, e R$ 867,4 milhões brutos, avanço de 7,7%. Relógios cresceram 15,5% e a linha Life, 10,3%.

O ponto de atenção é a composição. Joias respondem por aproximadamente metade do faturamento e avançaram apenas 2,1%. O motor principal girou devagar, e as linhas complementares fizeram o trabalho pesado do crescimento. O balanço relaciona o recuo da margem bruta aos lançamentos não recorrentes do período e a uma base de comparação mais exigente. Historicamente, quando a categoria central cresce pouco, a alavancagem operacional de uma rede de varejo perde força.

Vendas mesmas lojas: de 10,7% para 4,4%

As vendas mesmas lojas — métrica que isola lojas abertas há pelo menos doze meses, sem o efeito de unidades novas — subiram 4,4%, contra 10,7% um ano antes. A proximidade entre esse número e a alta de 4,3% da receita líquida sugere que a contribuição de pontos novos para o faturamento foi pequena neste trimestre.

A desaceleração de um indicador de produtividade, combinada à margem bruta menor, desloca a discussão do resultado contábil para a capacidade de a rede converter crescimento em lucro. O lucro veio em linha com o consenso, mas a qualidade do resultado piorou: menos margem, Ebitda ajustado em queda e lojas maduras vendendo em ritmo bem inferior ao do ano anterior. Para quem acompanha o papel, o tripé receita–margem–produtividade tende a ser mais informativo do que a manchete do lucro isolado.