A Zempack, fabricante de embalagens metálicas controlada pela JBS (JBSS32), quer levar suas latas a segmentos que ainda engatinham no mercado brasileiro: frutos do mar, suplementos e produtos farmacêuticos. A capacidade instalada passa de 1 bilhão de unidades por ano — o dobro do registrado uma década atrás —, e o movimento ocorre sobre uma base que já atende mais de 100 clientes.

Para o investidor pessoa física, o acesso a esse negócio é indireto: a Zempack não tem ações em bolsa e aparece na demonstração consolidada da controladora. O anúncio, ainda assim, ilumina uma camada de custo que costuma passar invisível na leitura de uma processadora de alimentos — a embalagem que protege o produto até a gôndola.

Seis por cento menos aço em uma linha de 1 bilhão de latas

Entre os ganhos de eficiência acumulados há um dado menos evidente que o discurso de expansão: as latas de milho e ervilha desenvolvidas pela empresa levam 6% menos aço, sem prejuízo de desempenho para o consumidor final. Numa linha que roda acima de 1 bilhão de unidades por ano e reúne mais de 2.500 itens, essa fração deixa de ser detalhe técnico e vira alavanca de custo.

A modernização se concentra em duas unidades no interior de São Paulo, Lins e Guaiçara, que empregam cerca de 700 pessoas. Desde 2015, a companhia aplicou mais de R$ 350 milhões em automação, produtividade e uso mais enxuto de matéria-prima e energia.

Espalhados por mais de uma década, os aportes desenham uma trajetória de melhoria contínua, e não um salto único de capacidade.

IndicadorValor
Capacidade anualmais de 1 bilhão de unidades
Investimento desde 2015mais de R$ 350 milhões
Plantas industriaisLins e Guaiçara (SP)
Funcionárioscerca de 700
Itens no portfóliomais de 2.500
Corte de aço em latas de milho e ervilha6%
Clientes atendidosmais de 100

De fornecedora da JBS a mais de 100 clientes, com ostras enlatadas na vitrine

A Zempack nasceu com uma função definida: abastecer as operações da própria JBS. Hoje a carteira vai além do grupo controlador e soma mais de uma centena de empresas. A frente mais recente são as latas para ostras enlatadas, nicho de baixa penetração no país e vitrine para outras indústrias.

Marcelo Jorcovix, diretor-executivo da Zempack, descreve a aposta: “A lata já faz parte da rotina do consumidor em diversas categorias, mas seu potencial vai além das aplicações mais conhecidas. Queremos mostrar a outras indústrias como a embalagem metálica pode ajudar a proteger seus produtos e abrir novas possibilidades de consumo”

Barreira contra luz e oxigênio: por que a lata mira remédio e suplemento

O argumento comercial se apoia em propriedades físicas: barreira contra luz e oxigênio, vedação hermética e resistência no transporte e na armazenagem. Em alimentos, o fechamento hermético somado ao tratamento térmico adequado alonga a validade sem exigir conservantes com essa finalidade específica.

Cada setor, porém, impõe exigências próprias, e é aí que um portfólio de mais de 2.500 itens precisa ser adaptado. Alimentos, suplementos e produtos farmacêuticos aparecem na lista de oportunidades identificadas pela fabricante.

Resíduos para a JBS Ambiental e a fundação do Prolata

Na ponta ambiental, resíduos industriais das fábricas seguem para a JBS Ambiental, responsável pelo tratamento e pela reinserção do material em cadeias produtivas. A Zempack também está entre as fundadoras do Prolata, arranjo de logística reversa voltado à coleta e à reciclagem de embalagens de aço depois do consumo.

O que a diversificação da Zempack sinaliza para quem tem JBSS32

O anúncio, isolado, não altera a tese de investimento da JBS. O que ele oferece é uma pista sobre a lógica industrial da controladora: em vez de comprar embalagem pronta no mercado, ela internaliza a produção e, com o excedente, atende clientes de fora do grupo — mantendo custo sob controle e criando uma receita que não depende apenas do ciclo de proteína animal.

A diversificação de clientes tende a reduzir a dependência de um comprador único e a diminuir a correlação da operação com os ciclos de preço da proteína animal. Já a entrada em suplementos e farmacêutica costuma exigir homologações e qualificação de linha que não se fecham em um trimestre, o que adia a conversão em volume.

Duas informações ficam de fora do material: quanto da receita já vem de fora da JBS e qual o prazo para que ostras, suplementos e farmacêuticos ganhem peso. São as perguntas que o anúncio deixa em aberto — e que pesam mais do que a manchete sobre dobrar a produção.