Na terça-feira (28), a 99 oficializou a chegada do 99Compras à capital paulista, injetando R$ 100 milhões na estruturação da nova frente de negócio. A expansão consolida a plataforma como um ecossistema multifuncional, agregando categorias como supermercados, farmácias, pet shops, bebidas, floriculturas, brinquedos e utensílios domésticos. O movimento amplia a capilaridade da empresa, que já opera em mais de 20 municípios da região metropolitana de São Paulo, incluindo Osasco, Mauá, Carapicuíba, Itaquaquecetuba e Barueri.
Expansão Geográfica e Ecossistema de Parceiros
A operação na capital conta com a adesão de aproximadamente 3.000 parceiros comerciais, destacando redes como Americanas, Carrefour, Cencosud, Cobasi, Petz, St. Marche e Ultrafarma. Para atender a demanda, a plataforma mobiliza mais de 200.000 entregadores cadastrados. Segundo Talita Poleto, diretora comercial da 99Compras, essa malha garante densidade logística para executar entregas com agilidade e segurança. A estratégia de expansão segue um modelo escalonado: o piloto começou no fim de março em Goiânia — praça que também testou o 99Food — e migrou, em junho, para o ABC Paulista e Guarulhos. A validação em Goiás indicou conversão robusta de usuários das verticais de mobilidade e delivery de refeições para a nova categoria de compras, justificando a aposta na base paulistana.
Diferenciais Logísticos e Complexidade Operacional
A arquitetura operacional do 99Compras exige uma camada logística distinta do delivery tradicional de refeições. Luis Felipe Gamper, diretor sênior de logística, ressalta que a plataforma utiliza sistemas proprietários de mapas, abandonando soluções de terceiros como Google Maps ou Waze. Essa escolha permite otimizar a roteirização (processo de planejamento de rotas para maximizar eficiência e reduzir custos) e manter governança técnica. A dinâmica também difere do 99Food: enquanto o delivery de comida dispara a corrida no momento do preparo, as compras maiores dependem do "picker" — colaborador do varejista encarregado da separação e embalagem dos produtos antes da coleta. Essa variável impõe estimativas de tempo mais rigorosas e justifica a implementação da entrega agendada, mitigando o risco de falha na receptividade do cliente. Além disso, a empresa fornece baús específicos para motocicletas, adaptando a frota ao transporte de itens volumosos ou frágeis. Bruno Rossini, diretor sênior de comunicação, enfatiza a complexidade inerente à integração de varejistas com catálogos de 1.000 a 2.000 itens, aliada à gestão de estoque em tempo real.
Métricas Operacionais e Desempenho por Categoria
| Indicador Chave | Valor / Dado Reportado |
|---|---|
| Investimento inicial na operação | R$ 100 milhões |
| Parceiros comerciais na capital | ~3.000 |
| Entregadores cadastrados na plataforma | >200.000 |
| Municípios atendidos na região metropolitana | >20 |
| Renda média estimada por corrida (entregadores) | Até R$ 20 |
| Participação da farmácia nos pedidos (Goiânia) | 28% |
| Participação da farmácia nos pedidos (Grande SP) | 22% |
| Tempo médio de entrega (categoria farmácia) | 24 minutos |
A categoria de farmácias emergiu como vetor estratégico, representando parcelas expressivas do volume de pedidos nas duas praças monitoradas. O tempo médio de entrega nesse segmento alcança patamar inferior ao supermercadista, uma vez que unidades farmacêuticas possuem layouts menores e dispensam a etapa de picking. Os itens de maior giro incluem nutrição infantil, higiene pessoal, testes de gravidez, fraldas, analgésicos e preservativos. Talita Poleto destaca que a comercialização de medicamentos exige tratamento regulatório específico, especialmente no que tange à logística reversa (retorno seguro de mercadorias não entregues) em caso de ausência do destinatário, dado que fármacos não podem ser simplesmente descartados ou deixados em locais inseguros.
Estratégia de Preços e Integração Tecnológica
A competitividade de preços frente a incumbentes como iFood e Rappi não se sustenta apenas em subsídios. A 99 distribui cupons de desconto e oferta frete grátis para os dois primeiros pedidos como tática de aquisição, mas a sustentabilidade do modelo repousa no relacionamento com varejistas e na otimização tecnológica. Luis Felipe Gamper pontua que o custo do frete permanece o principal obstáculo para viabilizar tickets baixos. A capilaridade da rede e o incremento no volume de rotas diluem o custo por quilômetro rodado, refletindo diretamente no preço final. Essa arquitetura tecnológica deriva do DiDi Shop, braço do grupo chinês DiDi — acionista controlador da 99 desde 2018. A plataforma já lidera operações no México e na Colômbia, onde impulsionou crescimento de 15% para pequenos e médios varejistas. Talita Poleto reforça que a base de 60 milhões de usuários no Brasil é majoritariamente composta pelas classes B, C e D, alinhando o produto a uma proposta de valor focada em acessibilidade.
O que isso significa para o investidor
A entrada de um player com capilaridade de mobilidade no varejo digital de última milha sinaliza uma disrupção na logística urbana brasileira. Para o investidor pessoa física, o movimento ilustra a consolidação do super app (aplicativo que concentra múltiplos serviços em uma única interface), onde o cross-selling (venda cruzada de produtos a uma base já cativa) reduz o CAC (Custo de Aquisição de Cliente). Em um ambiente macroeconômico onde a taxa Selic (taxa básica de juros da economia) e o CDI (Certificado de Depósito Interbancário) mantêm a atratividade da renda fixa, operações de varejo digital que priorizam eficiência logística e margens saudáveis ganham destaque. A estratégia da 99, focada em densidade e otimização de rotas, pode servir como benchmark para análise de empresas listadas nos setores de logística, tecnologia e consumo discricionário. A validação do modelo em praças secundárias antes da escala nacional demonstra prudência de capital, fator crucial em ciclos econômicos que exigem geração de caixa real e não apenas crescimento de receita bruta.
Fatores de Atenção e Riscos
- Complexidade de integração de estoques com varejistas, especialmente ao lidar com catálogos de 1.000 a 2.000 itens por parceiro.
- Dependência direta da precisão e disponibilidade dos "pickers" para cumprimento dos prazos de coleta.
- Rigor regulatório sanitário e necessidade de logística reversa para medicamentos em caso de falha na entrega.
- Pressão do custo do frete sobre a viabilidade econômica de pedidos de baixo valor unitário.
- Concorrência consolidada com incumbentes estabelecidos (iFood, Rappi) em um mercado de margens historicamente pressionadas.
Perspectivas e Próximos Passos
A 99 adota um roteiro de expansão cauteloso, replicando o ciclo de testes e ajustes aplicado ao 99Food. As próximas praças ainda aguardam definição oficial, enquanto a equipe técnica refina algoritmos de alocação de frotas, gestão de inventário e compliance regulatório para farmácias. O mercado monitorará a conversão da base de 60 milhões de usuários, a margem de contribuição por entrega e a velocidade de adoção das promoções semanais já testadas em outras verticais. A maturidade do modelo dependerá da capacidade de equilibrar densidade operacional com a pressão inflacionária sobre os custos de transporte e o poder de compra das classes B, C e D.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
