O desconto não muda o veredito do Bradesco BBI

O Bradesco BBI mantém postura defensiva para as ações argentinas e sustenta recomendação underweight — postura de exposição inferior à média do mercado, o equivalente a uma visão de venda — mesmo depois da correção recente que derrubou os preços dos ativos do país. O banco aponta três frentes de preocupação: um mercado de crédito sem tração, famílias inadimplentes em trajetória de alta e um câmbio que, segundo os estrategistas, os investidores ainda não precificaram por completo.

Preço e fundamento, na avaliação da casa, seguem em direções opostas. As ações ficaram mais baratas, mas os indicadores mais recentes de atividade não oferecem o combustível necessário para uma reprecificação ampla dos papéis argentinos. O relatório descreve o quadro como um ciclo de crédito em formato de serrucho, o termo em espanhol para serrote: momentos de recuperação seguidos por novas rodadas de deterioração. A dúvida que os estrategistas tentam responder é se a estabilização macroeconômica do país conseguirá, enfim, se converter em recuperação doméstica autossustentável. Os dados disponíveis não trazem essa confirmação.

Crédito fraco e inadimplência em alta

O crédito real retornou ao terreno negativo em julho, após avançar 3% sobre junho na comparação mensal. A confiança do consumidor continua deprimida, na casa dos 41 pontos. Desde março, os salários ganham poder de compra de forma gradual, mas isso ainda não aparece em mais crédito e consumo.

O elo mais frágil está nas famílias. A taxa de atraso das famílias passou de 12,8% em junho para 12,9% em julho — patamar mais de duas vezes superior ao registrado um ano atrás. Considerando o sistema como um todo, os empréstimos em atraso somam 7,7%. A deterioração se concentra nas pessoas físicas; a carteira corporativa segue comparativamente mais saudável.

Do lado dos bancos, o relatório aponta o recuo nos índices de cobertura de provisões, o que encolhe o colchão de proteção caso a carteira das famílias piore ainda mais. Na avaliação dos analistas, faltam justamente os ingredientes para uma reprecificação sustentável das ações do setor: crédito sem vigor, confiança baixa e inadimplência em curva ascendente.

A corrida ao dólar que não desacelerou

No mercado de câmbio, a busca das famílias por dólar segue intensa, mesmo com o peso argentino relativamente estável. Só em julho, as pessoas físicas adquiriram US$ 3,1 bilhões, o maior volume mensal de 2026, contra US$ 2,1 bilhões em junho. Nos primeiros sete meses do ano, as compras somam US$ 16,1 bilhões — ritmo que, anualizado, chegaria a US$ 27,6 bilhões.

O banco admite que o turismo ao exterior ligado à Copa do Mundo provavelmente inflou o número de julho, mas sustenta que a demanda estrutural por proteção em dólar permanece firme, sem que a eleição de 2027 esteja próxima no calendário.

O peso caro e o risco cambial

O peso continua caro na comparação histórica. O índice de taxa de câmbio efetiva real (REER, sigla em inglês para o conceito) opera na região de 86 pontos, enquanto sua média histórica ronda 113. Nas contas do Bradesco BBI, um retorno aos padrões históricos implicaria potencial de desvalorização da ordem de 31%.

Há vetores que podem ajudar. As vendas externas de grãos devem ganhar velocidade no quarto trimestre, e a produção de petróleo em Vaca Muerta segue subindo — dois fatores que tendem a reforçar a entrada de divisas. A desaceleração no acúmulo de reservas, porém, deixa em aberto a sustentabilidade desse caminho cambial até o pleito de 2027, segundo o relatório.

Política: reeleição de pé, margem menor

Na seara política, o tom do relatório é menos negativo. A aposta na reeleição do presidente Javier Milei não foi abandonada pela casa, embora venha perdendo folga. A medição de confiança no governo feita pela Universidade Torcuato Di Tella rompeu novamente o patamar de 2 pontos em agosto, e leituras da própria UTDT e da AtlasIntel indicaram acomodação depois de um junho e julho mais fracos. Sondagens recentes mantêm o presidente em disputa competitiva para 2027.

O risco apontado é a dependência: sem recuperação mais evidente da atividade doméstica, a manutenção do apoio político fica atrelada à continuidade da estabilização macroeconômica. E, na visão dos estrategistas, sinais de impaciência social encolhem a margem do governo para tropeços na política econômica.

Barato, mas sem gatilho

A correção recente produziu ao menos um efeito positivo para quem olha os múltiplos. O MSCI Argentina, índice que reúne as principais ações do país, aparece a 8,8 vezes o lucro projetado, contra média histórica de 10,4 vezes. No setor financeiro, o quadro chama atenção pelo valor patrimonial: os bancos argentinos operam perto de 1 vez o patrimônio, contra algo entre 1,3 e 1,5 vez no início do ano.

IndicadorNível atualMédia histórica
MSCI Argentina (P/L projetado)8,8x10,4x
Setor financeiro argentino (P/L)7,2x6,6x
Energia e utilities (P/L projetado)8,8x a 8,9xpróximas das médias de longo prazo

O P/L compara a cotação da ação com o lucro projetado por ação — quanto menor o múltiplo, mais barata a empresa em relação ao resultado que deve gerar. Já o P/VP usa o patrimônio contábil no lugar do lucro.

Ainda assim, o Bradesco BBI não encontra, no momento, motivo suficiente para uma reprecificação ampla dos ativos argentinos. A demanda por crédito e a retomada da atividade continuam empurradas para frente, a inadimplência avança e a confiança segue baixa. Há também cautela crescente com petróleo, gás e energia: o otimismo com Vaca Muerta permanece, mas o patamar elevado da commodity diminui, segundo o banco, a chance de uma nova leva de revisões para cima nos lucros. Energia e utilities aparecem entre 8,8 e 8,9 vezes o lucro estimado, faixa próxima das médias de longo prazo do segmento.

As cinco ações na lista do Bradesco BBI

A lista de preferências do Bradesco BBI dentro da Argentina reúne cinco nomes: TGS e IRSA, Banco Macro (BMA), Vista (VIST) e Pampa (PAMP). Segundo os estrategistas, essas empresas reúnem uma combinação de múltiplos com suporte, balanços sólidos e exposição à retomada gradual da economia argentina no horizonte longo.

Entre as ligadas à economia doméstica, Banco Macro e IRSA são as preferidas da casa. Já Vista, Pampa e TGS cumprem, na visão do banco, o papel de exposição a Vaca Muerta e ao avanço das exportações argentinas no horizonte mais longo. A lista é uma preferência declarada dentro de uma recomendação de exposição abaixo da média para o país — não um sinal de compra para o conjunto do mercado argentino.

Para quem acompanha o tema de fora, os pontos de observação estão no próprio relatório: a velocidade das exportações agrícolas no quarto trimestre, o comportamento das reservas e a resposta da atividade doméstica à estabilização macroeconômica.