Tese em 3 pontos
- A decisão de investimento, nesse momento, passa por equilibrar uma tese de longo prazo defendida pela XP Investimentos — que vê preço-alvo de R$ 74,50 e dividendos de 11% em 2026 e 14% em 2027 — com um curto prazo que a própria casa descreve como "tempestade antes da calmaria".
- A XP Investimentos projeta um EBITDA de R$ 5,9 bilhões para o terceiro trimestre, enquanto o consenso de mercado compilado pela Bloomberg aponta para aproximadamente R$ 7,6 bilhões.
- No lucro líquido, o IFRS saiu de um prejuízo de R$ 1,32 bilhão para um lucro de R$ 1,19 bilhão, um ganho de R$ 2,5 bilhões na comparação.
A Xia Energia (AXIA3) acumula alta de 38,60% nos últimos 12 meses e negocia a R$ 53,69, conforme os dados apresentados na análise. A decisão de investimento, nesse momento, passa por equilibrar uma tese de longo prazo defendida pela XP Investimentos — que vê preço-alvo de R$ 74,50 e dividendos de 11% em 2026 e 14% em 2027 — com um curto prazo que a própria casa descreve como "tempestade antes da calmaria". O papel já subiu 34,4% em 12 meses em outra medição citada ao longo do material, e a empresa avança na simplificação da estrutura acionária, com resgate de R$ 2,3 bilhões em ações.
Do lado oposto, a BlackRock reduziu sua participação na companhia, movimento que chama atenção naturalmente por vir da maior gestora de ativos do mundo. O trade-off, portanto, é claro: uma tese de retorno elevado no médio e longo prazos, com dividendos projetados em dois dígitos, contra a possibilidade de revisões negativas nos lucros de curto prazo e a sinalização de redução de posição por um investidor institucional relevante.
A tese da XP: tempestade de curto prazo, calmaria de longo
A XP Investimentos estrutura sua visão em dois momentos distintos. No curto prazo, a casa enxerga uma "tempestade antes da calmaria": resultados mais fracos, preços de energia decepcionantes e possibilidade de novas revisões negativas nas expectativas do mercado.
A XP Investimentos projeta um EBITDA de R$ 5,9 bilhões para o terceiro trimestre, enquanto o consenso de mercado compilado pela Bloomberg aponta para aproximadamente R$ 7,6 bilhões. A diferença de quase R$ 2 bilhões explicita o pessimismo de curto prazo embutido na visão da casa.
No médio e longo prazos, a recomendação muda de direção. A XP passa a recomendar compra das ações AXIA3 com preço-alvo de R$ 74,50, calculando um TIR real de 11,8% por ação e dividendos estimados em 11% em 2026 e 14% em 2027. A lógica da casa é que quem se antecipa e compra durante a fase de incerteza pode capturar um retorno maior do que quem espera a bonança se materializar — quando, por definição, o preço já terá subido e o prêmio de risco terá encolhido.
Preços de energia e o valor da flexibilidade hidrelétrica
O motivo central para o EBITDA abaixo do consenso está nos preços de energia de curto prazo. Chuvas mais fortes e temperaturas amenas elevaram os níveis dos reservatórios, pressionando os preços spot. Em junho, a XP já apontava quedas de 8% e 33% nos preços de curto prazo de determinados contratos mensais.
Mas a tese estrutural da casa vai além do trimestre. O argumento é que o mercado atribui pouco valor à flexibilidade das hidrelétricas da companhia. Uma usina com reservatório pode escolher quando gerar energia, armazenar água e aumentar a produção nos períodos de maior necessidade do sistema. À medida que fontes intermitentes como solar e eólica crescem, essa capacidade de oferecer potência rapidamente tende a se valorizar — quem preenche a lacuna quando o sol se põe, por exemplo, captura prêmios maiores.
As baterias e termelétricas também competem nesse espaço, mas as grandes hidrelétricas já existem e entregam potência de forma relativamente flexível. É essa opcionalidade que a XP acredita não estar totalmente refletida no preço de AXIA3.
Análise técnica: suportes, resistências e gatilhos
No gráfico semanal, cada candle representa uma semana de negociações. As ações saíram de aproximadamente R$ 28 no período da privatização até uma máxima próxima de R$ 68, uma alta de cerca de 137%. Depois, o mercado devolveu parte dos ganhos, mas encontrou sustentação na região de R$ 47,93 a R$ 49,96, considerada suporte relevante.
A partir dali, os preços voltaram a subir e testaram R$ 55,57 — região de resistência —, recuando novamente. Dessa vez, a queda se sustentou sobre a média móvel exponencial em R$ 53,60, o que pode indicar preparação para um novo movimento de alta. A expectativa técnica é de continuidade para testar R$ 61,36. O que reverteria esse cenário é a perda do candle da semana de 31 de agosto, com oscilação abaixo de R$ 52,88, o que aumentaria a possibilidade de retorno à congestão de suporte.
Fundamentos do 2T2026: o que o balanço mostra
O segundo trimestre de 2026 foi operacionalmente forte. O EBITDA regulatório ajustado cresceu 21,5% na comparação ano contra ano. Os investimentos somaram R$ 3,11 bilhões, alta de 52,6% na mesma base, mostrando retomada do capex da empresa — direcionado principalmente a transmissão, reforços, melhorias, leilões e HVDC, linhas com previsibilidade de caixa e RAP bilionária.
A margem de geração no ACL e no MCP subiu de R$ 73 para R$ 96 na comparação com o segundo trimestre de 2025, indicando melhor captura das condições comerciais e operacionais.
No desempenho financeiro, a receita bruta ajustada subiu de R$ 11,19 bilhões para R$ 12,91 bilhões, alta de 5,9%. Na base regulatória, a receita foi de R$ 11,58 bilhões para R$ 11,72 bilhões, alta de 1,2%.
No lucro líquido, o IFRS saiu de um prejuízo de R$ 1,32 bilhão para um lucro de R$ 1,19 bilhão, um ganho de R$ 2,5 bilhões na comparação. No IFRS ajustado, o ganho foi de R$ 100 milhões.
O capex semestral cresceu 47%, de R$ 3 bilhões para R$ 4,47 bilhões. A empresa tem um capex total de R$ 15,54 bilhões contratado. O alerta que acompanha esse número é conhecido: investir muito só cria valor se o retorno superar o custo de capital, o que exige controle de orçamento e eficiência na execução.
| Métrica | 2T2025 | 2T2026 | Variação |
|---|---|---|---|
| Receita bruta ajustada | R$ 11,19 bi | R$ 12,91 bi | +5,9% |
| Receita regulatória | R$ 11,58 bi | R$ 11,72 bi | +1,2% |
| Lucro IFRS | -R$ 1,32 bi | R$ 1,19 bi | +R$ 2,5 bi |
| Investimentos (capex) | — | R$ 3,11 bi | +52,6% |
Múltiplos e dividendos: o que o mercado já precifica
O P/L da companhia está em 13,13, dentro da faixa de referência para boas empresas no Brasil (entre 10 e 12 vezes, com o benchmark americano em até 15). O P/VP está 30% acima do valor patrimonial. O dividend yield atual é de 3,5%, mas com expectativa de aumento.
Em 2025, a empresa pagou R$ 4,54 por ação AXIA3, seu recorde, com a última data-com em 19/12/2025. Em 2026, ainda não houve pagamento. A projeção da XP de dividendos de 11% em 2026 e 14% em 2027 sustenta a tese de retorno ao acionista.
BlackRock reduz posição: o que o movimento sinaliza
A BlackRock reduziu sua participação na Axia Energia. Quando a maior gestora de ativos do mundo vende ações de uma empresa, a manchete naturalmente chama atenção. O movimento pode refletir rebalanceamento de portfólio, avaliação de risco ou simplesmente a materialização da tese de curto prazo descrita pela XP. O fato é que a decisão do investidor institucional adiciona uma camada de incerteza ao curto prazo, enquanto a tese de longo prazo segue ancorada nos fundamentos operacionais e na flexibilidade hidrelétrica.
Dividendos sintéticos e as outras empresas citadas
No contexto de geração de renda com as próprias ações, a análise cita operações de dividendos sintéticos com AXIA3, CPLE3 e TAEE11. Com AXIA3, foram 18 centavos por ação ordinária. Com a Copel (CPLE3), 11 centavos por ação. Com a Taesa (TAEE11), 15 centavos por ação. Essas operações usam as ações já existentes em carteira, sem anúncio de dividendo pela empresa, para gerar renda mensal.
O que muda para investidores
A decisão sobre AXIA3, neste momento, depende do horizonte de investimento e da tolerância a volatilidade. Para quem olha o curto prazo, a combinação de preços de energia pressionados, EBITDA projetado abaixo do consenso e redução de posição pela BlackRock adiciona incerteza. Para quem olha o médio e longo prazos, a tese da XP — com preço-alvo de R$ 74,50, TIR real de 11,8% e dividendos de 11% a 14% — sustenta um caso de retorno que ainda não estaria totalmente precificado.
Os gatilhos a acompanhar são claros: a recuperação dos preços de energia, a execução do capex de transmissão, a materialização dos dividendos projetados e a sustentação técnica acima da média móvel de R$ 53,60. A perda do suporte em R$ 52,88 e a região de R$ 47,93 a R$ 49,96 são os níveis que, se rompidos, tendem a invalidar o cenário de continuidade de alta.
Renda variável não tem garantia de rentabilidade. O que se pode fazer é estudar o cenário mais provável e dimensionar o risco.
