Um projeto apresentado pela B3 na sexta-feira (6) prevê negociar ações 24 horas por dia, sete dias por semana, inclusive em madrugadas, fins de semana e feriados. Para isso, a bolsa planeja réplicas digitais dos papéis em blockchain e liquidação quase imediata, no lugar do prazo atual de D+2, ou seja, dois dias úteis. A iniciativa, ainda experimental, pode alterar a rotina de quem negocia ações no país, mas não tem data de lançamento.
Como o modelo funcionaria
A ideia central é criar um segundo ambiente de negociação, ligado à infraestrutura tradicional da B3, porém sem pausas. Nele, investidores poderiam comprar e vender representações digitais de ações já existentes, inclusive quando o pregão convencional estivesse encerrado. A referência técnica é o conceito de gêmeo digital (digital twin): cada token corresponde a uma ação registrada na bolsa.
A titularidade formal dos papéis continuaria registrada na depositária central, instituição que zela pelo cadastro dos valores mobiliários. Quando certa quantidade de ações fosse levada a uma estrutura específica, os tokens correspondentes poderiam ser gerados; o caminho inverso eliminaria essas representações e devolveria os ativos ao ambiente tradicional. No vocabulário cripto, essas duas etapas recebem os nomes de mint (criação de tokens) e burn (destruição de tokens).
A engenharia do sistema busca manter cada token amarrado ao ativo original, para que não existam representações digitais sem lastro nos registros da bolsa. Também seria preciso conciliar os dois ambientes e acompanhar eventos corporativos, como distribuição de proventos, desdobramentos, grupamentos e fusões, que alteram as características dos papéis.
Ordens fora da blockchain e o papel do dinheiro tokenizado
Há um detalhe que costuma passar despercebido: a execução das ordens de compra e venda não ocorreria dentro da blockchain. A B3 manteria um sistema próprio para casar ofertas, reservando o registro distribuído para representar os ativos e concluir a liquidação. O projeto também prevê que as transações sejam quitadas com dinheiro tokenizado.
O mecanismo que sustenta essa promessa é a liquidação atômica, na qual a entrega da ação tokenizada e o pagamento acontecem em um único movimento. Assim, comprador e vendedor trocam ativo e dinheiro simultaneamente, o que elimina a janela em que uma parte cumpre sua obrigação e a outra ainda não. Segundo a apresentação, o arranjo também enxugaria etapas de conciliação e processamento usadas na infraestrutura financeira tradicional.
Sobre o meio de pagamento, a discussão passou pela necessidade de uma stablecoin, criptoativo que busca manter cotação estável em relação a uma moeda de referência.
Os executivos destacaram que a compensação tradicional segue com vantagens, sobretudo na eficiência financeira obtida ao agrupar operações diferentes. Por isso, a proposta é deixar as duas estruturas convivendo e oferecer alternativas conforme as características de cada mercado.
Calendário: o que mudou desde outubro
Essa apresentação avança sobre um plano já divulgado. Humberto Costa, responsável pela área de produtos de balcão e ativos digitais, havia indicado em outubro que a companhia almejava começar a negociar papéis tokenizados em janeiro de 2027, mas sem sessões ininterruptas e sem liquidação instantânea.
Naquele desenho inicial, os ativos tokenizados seriam negociados no mesmo livro de ofertas das ações tradicionais, o que preservaria a liquidez e manteria o D+2 exigido pelas regras atuais. Costa também disse que a B3 tem capacidade para tokenizar todo o conjunto de ações listadas em sua plataforma, mas ainda não definiu quantos papéis entrariam na primeira etapa.
| Aspecto | Hoje | Projeto apresentado |
|---|---|---|
| Horário de negociação | Pregão em horários específicos | 24 horas, sete dias por semana |
| Liquidação | D+2 | Praticamente instantânea |
| Objeto negociado | Ações registradas na B3 | Tokens que representam essas ações |
| Status | Em vigor | Fase experimental, sem data de lançamento |
Na prática, a diferença é grande: a troca de ativo e dinheiro deixaria de depender de um prazo de dois dias e o ambiente continuaria ativo em feriados. Mesmo assim, a bolsa deixou claro que o projeto não representa o início imediato de um mercado ininterrupto.
Testes e fiscalização em tempo real
Os testes devem durar cerca de oito semanas e abranger a criação e a eliminação de tokens, a execução de negociações e a ligação com os sistemas de supervisão.
Segundo Raphael de Almeida Torlay, representante da B3, a estrutura terá interfaces de programação, as APIs, apenas para leitura. Com elas, a CVM consultaria informações sobre transações, participantes e registros gerados nos experimentos, acompanhando o mercado em tempo real e fazendo verificações sem alterar o funcionamento da rede. Esse acesso ajudaria a identificar movimentações suspeitas e a reconstruir operações.
O desafio está no fato de o mercado não fechar. A B3 admitiu que um ambiente contínuo exigirá monitoramento capaz de detectar irregularidades e reagir a incidentes em madrugadas, feriados e fins de semana. Ferramentas de inteligência artificial poderiam ajudar nessa tarefa, mas, segundo a bolsa, precisariam andar junto de times de atendimento e de estruturas de controle apropriadas.
Base regulatória: Resolução 249 e Programa Piloto DLT
A base jurídica dos testes é a Resolução 249, publicada pela CVM em outubro. Ela estruturou o Programa Piloto DLT, voltado a experimentos que abarquem o ciclo completo de títulos negociáveis, desde a emissão até a liquidação, em redes de registro distribuído (DLT, na sigla em inglês para distributed ledger technology).
A regra aceita testes com diversos modelos de tokenização, de ações a títulos de dívida corporativa e cotas de fundos. Nesse ambiente, porém, só podem circular ativos e recursos fictícios, sem investidores reais e sem movimentação financeira efetiva. A finalidade é examinar se essas estruturas funcionam do ponto de vista técnico, operacional e jurídico, além de mapear riscos e fornecer subsídios para decisões futuras.
Paralelamente, o regulador quer examinar de que maneira inovações podem elevar a eficiência do mercado de capitais sem enfraquecer a proteção a quem investe e a supervisão.
Leitura para o investidor
Para quem investe hoje, nada muda de imediato: o pregão atual, a liquidação em D+2 e as formas de negociação seguem como estão. O projeto, por ora, é um conjunto de testes.
- Sem data definida: a B3 não anunciou quando o modelo chegará aos investidores, e a implementação depende dos resultados dos testes e de mudanças nas regras de negociação e liquidação.
- Titularidade preservada: a propriedade continuaria na depositária central, e cada token seria apenas a representação de uma ação registrada na bolsa.
- Risco operacional fora do horário: incidentes em madrugadas, feriados e fins de semana teriam de ser tratados sem a pausa do pregão, o que exige estrutura própria de monitoramento.
- Ponto de atenção: o plano de outubro e o novo projeto coexistem como alternativas, e ainda não há definição sobre quantos papéis entrariam na primeira etapa.
Se a proposta avançar, a mudança tende a aproximar o mercado acionário brasileiro da lógica de operação contínua das criptomoedas. Até lá, o acompanhamento deve se concentrar nos resultados dos testes de oito semanas, na regulamentação que a CVM vier a adotar e nos calendários que a B3 publicar.
