Principais pontos

  • A justificativa combina desaceleração econômica, menor estímulo fiscal e social e pressão inflacionária ligada à alta recente de commodities e petróleo.
  • Com a mudança de recomendação, o Bradesco (BBDC4) tornou-se o único grande banco brasileiro com recomendação outperform na cobertura do Itaú BBA.
  • O índice de atraso acima de 90 dias entre pessoas físicas avançou para 8,41%, enquanto a inadimplência em cartões de crédito atingiu 14,6%.

Itaú BBA corta projeções e muda o ranking dos bancos

O Itaú BBA revisou para baixo suas estimativas para o setor bancário brasileiro, com cortes concentrados em 2027, e rebaixou o Nubank (BDR: ROXO34) de Outperform — desempenho acima da média do mercado, equivalente à compra — para Market Perform, equivalente a neutro. O preço-alvo para o fim de 2027 da ação negociada em Nova York passou de US$ 20 para US$ 18. A instituição ainda cortou em 8% as projeções de lucro da fintech e passou a trabalhar com números cerca de 15% abaixo do consenso de mercado.

A justificativa combina desaceleração econômica, menor estímulo fiscal e social e pressão inflacionária ligada à alta recente de commodities e petróleo. Para os analistas, a fintech segue vista como vencedora no longo prazo e deve entregar resultados sólidos no curto prazo, mas o ritmo de crescimento tende a perder força em 2027. Pesam contra o consumidor brasileiro um ambiente mais desafiador, o amadurecimento da carteira de crédito pessoal e a expansão nos Estados Unidos, que exige investimentos adicionais.

Entrou no radar também a possibilidade de o Banco Central adotar medidas macroprudenciais sobre linhas de crédito de maior custo às famílias, o que atingiria parte relevante da operação da companhia.

Bradesco sobe a única compra entre os bancões

Com a mudança de recomendação, o Bradesco (BBDC4) tornou-se o único grande banco brasileiro com recomendação outperform na cobertura do Itaú BBA. Os analistas enxergam na instituição a melhor relação risco-retorno do setor, negociada a cerca de 1,1 vez o valor patrimonial (a relação entre preço e patrimônio líquido) e 7 vezes o lucro projetado para 2026, com preço-alvo mantido em R$ 22.

Apesar de pequenos ajustes negativos nas projeções de lucro, a casa aponta sinais crescentes de melhora operacional tanto no varejo quanto no segmento corporativo. A leitura é reforçada pela área de seguros, que responde por mais de 40% dos lucros do grupo e deve seguir crescendo em ritmo de dois dígitos. O Itaú BBA avalia que o mercado ainda concede pouco benefício da dúvida à instituição, o que abriria espaço para uma reprecificação positiva caso a entrega operacional continue evoluindo.

O mapa completo da cobertura

AtivoTickerPosição na cobertura do Itaú BBA
B3B3SA3Preferido, ligado ao mercado de capitais
BTG PactualBPAC11Preferido
XPXPBR31Preferido
BradescoBBDC4Único bancão com recomendação outperform
NubankROXO34Rebaixado para Market Perform
Banco do BrasilBBAS3Projeções conservadoras mantidas

A casa reforçou a preferência por empresas ligadas ao mercado de capitais — B3 (B3SA3), BTG Pactual (BPAC11) e XP (BDR: XPBR31) — em detrimento dos bancos tradicionais. É nesse movimento que o rebaixamento do Nubank e a promoção do Bradesco ganham sentido: a revisão não é um corte uniforme, mas uma redistribuição de preferência dentro do setor.

Para o investidor que acompanha o setor, a leitura prática é que a casa deixou de tratar os bancos como um bloco único. As companhias de mercado de capitais aparecem à frente na ordem de preferência, enquanto os bancos tradicionais passam a ser avaliados caso a caso, com o Bradesco em posição isolada como compra e o Nubank rebaixado a neutro.

Banco do Brasil e a agenda do agronegócio

No caso do Banco do Brasil (BBAS3), as alterações foram mais limitadas. O Itaú BBA manteve projeções relativamente conservadoras para provisões, mas apontou a carteira do agronegócio como principal fonte de incerteza. A instituição também chamou atenção para a deterioração recente da inadimplência no varejo.

O índice de atraso acima de 90 dias entre pessoas físicas avançou para 8,41%, enquanto a inadimplência em cartões de crédito atingiu 14,6%. A administração do banco trabalha com custo de risco abaixo de 5% em 2027 e perto de 3,5% no longo prazo.

Crédito não preocupa, mas a conta pode mudar

O mercado demonstrou preocupação crescente com a qualidade das carteiras de crédito, e o Itaú BBA sustenta que parte da deterioração nos indicadores agregados decorre de fatores técnicos e estruturais, não de um problema generalizado dos grandes bancos.

Entre esses fatores, a casa cita mudanças nas regras de baixa de créditos inadimplentes, que elevaram artificialmente os índices de atraso divulgados pelo Banco Central, e a maior participação de fintechs e bancos digitais no sistema. Como essas instituições operam com inadimplência mais alta que os bancos tradicionais, a expansão das carteiras pressiona os indicadores consolidados do mercado.

A avaliação é que os grandes bancos privados seguem com comportamento de crédito melhor que o sistema como um todo. O cenário-base do Itaú BBA continua sendo um "pouso suave" para a qualidade dos ativos, sem deterioração relevante no curto prazo.

Ainda assim, a casa alerta que o ambiente para 2027 tende a ser menos favorável, com crescimento econômico mais lento, menor suporte fiscal ao consumo e potenciais pressões inflacionárias vindas da alta de commodities — o conjunto de fatores que justificou a revisão mais conservadora para todo o setor bancário brasileiro.

A revisão não é um corte uniforme: é uma troca de preferências dentro do setor, com o mercado de capitais à frente e a qualidade de crédito no centro da discussão.