Tese em 3 pontos
- A inadimplência acima de 90 dias do Banco do Brasil saiu de 3,96% e chegou a 5,61%, depois de já ter marcado 5,05% em março.
- A carteira expandida cresceu 1,5% de junho de 2025 até junho de 2026 e apenas 0,6% do primeiro para o segundo trimestre.
- Conforme o relatório, o múltiplo preço sobre lucro projetado da bolsa passou de aproximadamente 8,4 para 9,5 vezes depois do rally, e poderia alcançar 11,6 vezes no cenário otimista.
BBAS3 x BBDC4: o que a decisão do JP Morgan muda na tese
Para quem tem os dois papéis na carteira ou estuda trocar um pelo outro, o corte do JP Morgan para BBAS3 e a elevação da recomendação para o Bradesco (BBDC4) não são apenas uma troca de cadeiras entre analistas: reforçam uma divergência que já aparece nos números de crédito dos dois bancos. Segundo a fonte, a notícia derrubou as ações do Banco do Brasil em cerca de 6% e impulsionou o Bradesco em cerca de 4% no mesmo movimento.
O que muda é a natureza do risco em cada caso. De um lado, uma tese que depende de a qualidade das novas safras de crédito melhorar — algo que ainda não aparece com clareza nos indicadores. Do outro, uma tese que depende da continuidade de uma recuperação já em curso. O trade-off pode ser resumido assim: quem carrega BBAS3 aceita a incerteza do ciclo de crédito no agronegócio e na pessoa física em troca de um papel historicamente mais descontado; quem carrega BBDC4 paga por uma trajetória que, até aqui, vem sendo entregue com consistência.
Nos cinco dias que antecederam o relatório, a diferença de comportamento já era visível: o BBDC4 chegou a valorizar 24,86% e preservava 19,21% de alta, enquanto o BBAS3 chegou a subir 16,5%, cedeu 9,30% em um único dia e mantinha 4,81% de ganho acumulado.
Banco do Brasil: crédito, agronegócio e o peso de R$ 1,3 trilhão
A inadimplência acima de 90 dias do Banco do Brasil saiu de 3,96% e chegou a 5,61%, depois de já ter marcado 5,05% em março. Com uma carteira de crédito expandida de R$ 1,3 trilhão, o salto da inadimplência acima de 90 dias tende a ser o dado que ancora o caso negativo do Banco do Brasil, porque o impacto em provisões pressiona diretamente o lucro e, na sequência, a capacidade de distribuição de dividendos.
O agronegócio continua sendo o maior ofensor dentro do custo de crédito, seguido pela pessoa física, enquanto a pessoa jurídica responde pela menor parcela de perdas, em torno de R$ 2,8 bilhões. O custo do crédito recuou 2,1% na comparação trimestral, mas avançou 16,1% ano contra ano — ou seja, o banco segue gerando receita, mas parte dela volta para as provisões.
O crescimento da carteira ajuda a explicar o problema: A carteira expandida cresceu 1,5% de junho de 2025 até junho de 2026 e apenas 0,6% do primeiro para o segundo trimestre. Na prática, a expansão se concentrou nas linhas que mais geram perda, o que tende a manter o indicador de inadimplência sob pressão enquanto as novas safras não apresentarem melhora.
Os números do balanço do BBAS3
- Lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões, alta de 13,9% sobre o trimestre imediatamente anterior e de 3,3% ano contra ano.
- Margem financeira bruta de R$ 27,5 bilhões, praticamente estável na comparação trimestral (+0,2%) e em alta de 9,6% ano contra ano.
- Receitas com prestação de serviços de R$ 9,1 bilhões, com avanço de 3,4% na comparação trimestral e de 4,2% ano contra ano.
- Despesas administrativas com alta de 0,6% na comparação trimestral e de 4,1% ano contra ano.
- Índice de capital principal de 11,27%.
O que a análise técnica do BBAS3 sinaliza
Na leitura semanal, o papel chegou a superar R$ 27 na semana de 5 de outubro, mas não conseguiu superar o topo anterior: R$ 27,36, registrado em 23 de fevereiro, e R$ 27,19 na semana seguinte ao pico. O candle de alta forte acabou virando candle de baixa, em uma semana de domínio vendedor. A região de suporte historicamente trabalhada está em R$ 23,28; uma reversão da tendência de alta de médio prazo passaria pela perda de R$ 21,04, que quebraria a estrutura de suporte entre R$ 21,27 e R$ 21,04. São referências técnicas, não garantias — renda variável não tem rentabilidade assegurada.
Bradesco: rompimento de canal, dividendo e máxima histórica
Do outro lado do balcão, o cenário descrito é o oposto. O Bradesco reformulou linhas de crédito, refez estratégias e vem melhorando gradualmente o ROE enquanto reduz inadimplência e custo do crédito. O lucro líquido recorrente chegou a R$ 7,1 bilhões, com alta de 3,5% sobre o trimestre anterior e de 16,2% na comparação ano contra ano — sequência que a fonte classifica como difícil de encontrar em outros bancos.
Na análise semanal, o canal de baixa foi rompido no candle da semana de 28 de setembro, com alta de 7,66% embalada pelo anúncio de pagamento de dividendos. Depois, o chamado trade eleitoral empurrou o papel por mais 14,20%, levando o Bradesco a máxima histórica. Do topo ao topo do movimento, a valorização foi próxima de 20%, com alguma acomodação na semana seguinte. O gap aberto na subida fica na região de R$ 19,41, ponto que pode ser revisitado em uma correção.
BBAS3 x BBDC4 no último balanço
| Indicador | BBAS3 | BBDC4 |
|---|---|---|
| Lucro ajustado/recorrente | R$ 3,9 bi | R$ 7,1 bi |
| Variação trimestral | +13,9% | +3,5% |
| Variação ano contra ano | +3,3% | +16,2% |
Morgan Stanley eleva o Brasil para compra e projeta 250 mil pontos
O movimento dos bancos acontece em um pano de fundo mais amplo. O Morgan Stanley elevou a recomendação para as ações brasileiras de neutra para overweight — equivalente a compra — após o primeiro turno das eleições, e projeta valorização adicional de 15% a 20% do índice até o final do ano, com alvo de 250.000 pontos em cenário otimista para 2027. O Ibovespa estava em torno de 204.000 pontos e, em 5 de outubro, disparou 7,7%, chegando a 206.912 pontos e superando os 209.000 em determinado momento do dia.
A tese não se apoia apenas em lucros maiores no curto prazo. Conforme o relatório, o múltiplo preço sobre lucro projetado da bolsa passou de aproximadamente 8,4 para 9,5 vezes depois do rally, e poderia alcançar 11,6 vezes no cenário otimista. O combustível seria a redução do prêmio de risco-país: com menos percepção de risco econômico, o investidor exige retorno menor e o valor presente dos lucros futuros sobe — o que ajuda a explicar altas antes da melhora dos resultados. O cenário descrito envolve queda do custo de capital, aumento do investimento privado e migração de recursos da renda fixa para a bolsa.
Vale registrar o alerta que acompanha a projeção: parte do cenário positivo já foi antecipada pelo mercado e o segundo turno ainda não havia acontecido no momento da análise.
Os setores no radar do relatório
- Mercado de capitais, com ganho de volume de negociações e investimentos: B3, XP e BTG Pactual são citados como beneficiários diretos.
- Elétricas e infraestrutura, setores intensivos em capital e sensíveis à queda do custo de capital.
- Data centers e inteligência artificial, que demandam investimentos expressivos em energia e equipamentos.
O que muda para investidores
A decisão de manter, reduzir ou aumentar exposição a bancos passa por uma pergunta simples: a tese depende de algo que já está acontecendo ou de algo que precisa começar a acontecer? No caso do Bradesco, os números apresentados são de uma recuperação em curso, com lucro crescente e inadimplência em queda gradual — o risco está no preço, que já embutiu parte da melhora e agora trabalha em máxima histórica. No caso do Banco do Brasil, o desconto relativo convive com um indicador de inadimplência em 5,61% sobre uma carteira de R$ 1,3 trilhão, e a melhora depende de safras de crédito que ainda não mostraram recuperação consistente.
Nenhum dos dois cenários é definitivo, e a fonte não projeta preço-alvo formal para os papéis. O que os dados permitem dizer é que a assimetria mudou de lado neste momento: o papel tratado como barato porém problemático segue com o problema em aberto, enquanto o papel que exigia paciência começou a entregar resultados. Cabe a cada carteira definir qual desses riscos pode ser carregado — e por quanto tempo.
