Tese em 3 pontos
- O Bradesco BBI cortou o preço-alvo de R$ 15 para R$ 13 e manteve recomendação neutra, enquanto a ação acumulou alta de quase 11% em cinco dias.
- a política de distribuição de 50% do lucro líquido e a projeção de R$ 1,60 por ação em dividendos seguem como âncoras do caso de investimento.
- a empresa pretende investir aproximadamente R$ 43,7 bilhões entre 2026 e 2030
O fim da privatização da CEMIG (CMIG4) tirou do radar um gatilho que parte do mercado enxergava, mas não simplificou a tese: ela mudou de endereço. Com o governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo, descartando a venda da estatal e sinalizando o uso dos lucros em política pública, o debate migrou da privatização para a alocação de capital. O Bradesco BBI cortou o preço-alvo de R$ 15 para R$ 13 e manteve recomendação neutra, enquanto a ação acumulou alta de quase 11% em cinco dias.
Na leitura do Ativo Virtual, o cenário tende a preservar o desconto de estatal, mas não invalida o caso de renda: a política de distribuição de 50% do lucro líquido e a projeção de R$ 1,60 por ação em dividendos seguem como âncoras do caso de investimento. O que muda é a natureza do risco — menos evento societário, mais dependência das decisões do controlador e do ritmo de investimento.
O fim da privatização e o novo debate sobre capital
A eleição em Minas Gerais resolveu uma das principais dúvidas que rondavam CMIG4 nos últimos anos. Cleitinho Azevedo, eleito com 55,4% dos votos, afirmou que não pretende vender estatais lucrativas e citou nominalmente a CEMIG. A sinalização encerra, ao menos no horizonte político atual, a discussão de privatização que chegou a ser formalmente proposta no governo de Romeu Zema.
O ponto que mais interessa ao acionista não é a recusa em vender, e sim a declaração seguinte: o governador sugeriu usar os lucros da companhia para subsidiar a conta de energia dos mineiros. É aí que a discussão muda de figura — sai da privatização e entra na alocação de capital. Para quem investe em CMIG4, desaparece um gatilho que parte do mercado enxergava como capaz de reduzir o chamado desconto de estatal.
Dividendos: o que a CEMIG já anunciou
A companhia anunciou R$ 631 milhões em juros sobre capital próprio (JCP), equivalentes a R$ 0,22 por ação. A atual política prevê distribuição obrigatória de 50% do lucro líquido, observadas as regras legais e estatutárias. O pagamento foi programado em duas parcelas, em 30/06/2027 e 30/12/2027 — um cronograma que decepcionou parte do mercado, mas dentro do esperado para o período.
O ponto de atenção é a disputa natural pelo caixa. Entre investimentos, dívida e dividendos, o novo controlador passa a ter uma variável adicional para gerenciar. Manter a CEMIG estatal não é necessariamente negativo para os resultados, mas a menção a uso dos lucros como política pública pode reforçar o desconto que o mercado costuma aplicar a empresas controladas pelo governo.
Resultados e investimentos: operação forte, alavancagem em alta
O trimestre mostrou uma operação robusta. O EBITDA — lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações — somou R$ 2,5 bilhões, enquanto o capex, que representa os investimentos em redes, subestações, transmissão e geração, ficou em R$ 1,8 bilhão. No mesmo período, a empresa captou R$ 4,6 bilhões em dívidas para os braços de distribuição e de geração e transmissão.
No consolidado do primeiro semestre, a CEMIG investiu R$ 3,3 bilhões, o equivalente a 49% do plano para 2026. A maior parte foi para distribuição (R$ 2,6 bilhões), seguida por transmissão (R$ 275 milhões). A companhia entregou 14 subestações, ampliou redes e adicionou capacidade em geração solar.
O plano total para 2026 é de R$ 6,73 bilhões, e a empresa pretende investir aproximadamente R$ 43,7 bilhões entre 2026 e 2030. A tese, portanto, não é apenas de dividendos: há crescimento via expansão da base regulatória. O risco é que esse crescimento exige capital — se a dívida subir demais, parte do ganho operacional pode ser consumida por despesa financeira.
Bradesco BBI, preço-alvo e preço-teto
O Bradesco BBI revisou o preço-alvo de CMIG4 de R$ 15 para R$ 13, mantendo recomendação neutra. O banco calculou uma TIR real de 12,3% e considerou justificável algum desconto em relação às elétricas privadas.
Na projeção do Ativo Virtual, com lucro projetado de R$ 4,69 bilhões e payout de 65%, a companhia pagaria cerca de R$ 1,60 por ação em dividendos. A partir disso, o preço-teto varia conforme o dividend yield exigido:
| Dividend yield alvo | Preço-teto |
|---|---|
| 4% | R$ 26,63 |
| 6% | R$ 17,75 |
| 8% | R$ 13,32 |
| 10% | R$ 10,65 |
Em múltiplos, a ação negociava a um P/L de 7,46, P/VP cerca de 17% acima do valor patrimonial e dividend yield de 10%, com lucro por ação de R$ 1,61. Pela fórmula de Benjamin Graham citada na análise, o preço justo seria de R$ 19,22, o que implicaria potencial de alta de 60% — número que, como toda estimativa, depende das premissas de lucro e payout se confirmarem.
Análise técnica: onde estão os gatilhos
No gráfico semanal, a ação rompeu a região de resistência anterior, em torno de R$ 11,17, e chegou a superar os R$ 12,25. A leitura técnica aponta uma nova linha de resistência nesse patamar, com o mercado testando a máxima histórica. Uma correção poderia levar o papel a retestar a faixa de R$ 11,27, e a perda do candle de rompimento, abaixo de R$ 10,73, sinalizaria reversão de tendência.
As ações acumulavam R$ 11,99, com valorização de 20,19% nos últimos 12 meses. Vale lembrar que o investidor também pode se expor a CMIG4 por meio de operações de dividendo sintético e compra premiada com opções, tema recorrente nas análises do Ativo Virtual — mas esse tipo de estratégia exige técnica e gestão de risco adequadas.
O que muda para investidores
A tese de CMIG4 passa por uma troca de risco. O gatilho de privatização saiu de cena, e o que sobra é uma combinação de renda elevada, múltiplos baixos e um plano de investimentos pesado. No cenário favorável, a política de 50% do lucro e o crescimento da base regulatória podem sustentar os dividendos e justificar o preço-teto mais alto. No cenário adverso, a sinalização de uso dos lucros em política pública e o aumento da alavancagem podem reforçar o desconto de estatal e pressionar o papel.
Para quem acompanha o ativo, os pontos a monitorar são claros: a definição da política de dividendos sob o novo governo, o ritmo de execução do capex de R$ 6,73 bilhões em 2026, a evolução da dívida e a confirmação — ou não — das projeções de lucro que sustentam o preço-teto. Nenhum desses elementos, isoladamente, define a decisão; juntos, eles mostram se a assimetria risco/retorno tende a melhorar ou a piorar.
