Principais pontos

  • O dado que ficou fora do título da cobertura é o avanço de 57% na média de faturamento dos expositores na comparação com a edição anterior.
  • A Buzz Editora relatou um crescimento de 360% nas vendas, impulsionado pelo selo Neon, voltado ao público jovem.
  • Três autoras brasileiras foram responsáveis pela venda de mais de 4 mil livros durante o período da Bienal.

Bienal do Livro de SP fecha com recorde de público e de faturamento

A 28.ª edição da Bienal do Livro de São Paulo encerrou neste domingo, 13, depois de 10 dias de programação no Distrito Anhembi iniciados em 4 de setembro. Segundo a organização, o evento recebeu 760 mil visitantes, marca que supera os 722 mil da edição de 2024 e configura a maior da história do encontro. Foram cerca de 760 mil visitantes ao longo dos 10 dias, contra 722 mil na edição de 2024, com corredores lotados em boa parte dos dias e 5 dias com ingressos esgotados.

O dado que ficou fora do título da cobertura é o avanço de 57% na média de faturamento dos expositores na comparação com a edição anterior. A leitura do Ativo Virtual é que esse percentual informa mais sobre comportamento de consumo do que o próprio recorde de público: ele sugere que a multidão que passou pelo Anhembi não apenas compareceu, mas gastou mais por expositor do que na edição de 2024.

Por que esse número importa para quem acompanha consumo

Nenhuma companhia de capital aberto aparece entre os grupos editoriais citados na apuração, o que limita a transposição direta do dado para uma tese de investimento em renda variável. O valor informativo está em outro lugar: no retrato de consumo que o evento expõe em 10 dias de operação.

O desempenho reforça a percepção de que o gasto com bens culturais e com produtos ligados a comunidades digitais — caso dos títulos impulsionados por redes sociais — segue encontrando espaço no orçamento das faixas mais jovens. Historicamente, esse tipo de demanda tende a reagir menos a oscilações conjunturais do que o consumo de bens duráveis, ainda que dependa de renda disponível e de preço de capa. Trata-se de um sinal qualitativo, não de uma métrica de resultado para companhias listadas.

A apuração também deixa claro onde está a demanda: o público que lotou os corredores comprou, em volume relevante, títulos de autores com tração em redes sociais — Lynn Painter e Ali Hazelwood são os exemplos mais evidentes — e obras longas, com mais de 500 páginas. Isso tende a favorecer o formato físico e as edições especiais, itens de ticket mais alto que ajudam a explicar o avanço do faturamento médio dos expositores.

Editora por editora: quem cresceu mais

As bases de comparação mudam de casa para casa — algumas falam da edição anterior, outras de 2024, e há quem use a Bienal do Rio de Janeiro como referência. A tabela abaixo organiza o que cada grupo informou.

Grupo editorialVariação de faturamentoBase de comparação informada
Companhia das Letras (com Bloom Brasil, Seguinte e Paralela)+67% na receita e +55% no volumeedição anterior
Harper Collins (com Pitaya, HarperKids, Thomas Nelson Brasil e Harlequin)2,5 vezes o faturamentoedição de 2024
Rocco+121%2025
Intrínseca+85%edição de 2024
Globo Livros e Alt+100%vendas de 2024
Grupo Editorial Record+76% e 170 mil livros vendidosúltima Bienal em São Paulo
Sextante e Arqueiro+82%edição anterior
Autêntica e Gutemberg+84%edição de 2024
Buzz Editora+360%período da Bienal

Enquanto a média dos expositores avançou 57%, há grupos relatando saltos de três dígitos, como a Buzz Editora (+360%) e a Rocco (+121%). A dispersão indica que o ganho não se distribui de forma homogênea e tende a se concentrar em catálogos fortes em fantasia, romance e títulos com tração em redes sociais.

A Rocco merece um parágrafo próprio: o avanço de 121% foi medido em relação a 2025 e descrito pela editora como o maior de todos os tempos para a casa em bienais do livro. O estande foi decorado com referências a antigos cinemas de rua.

Na outra ponta da tabela, a Companhia das Letras registrou aumento de 67% em faturamento e de 55% em volume, já considerando seus selos Bloom Brasil, Seguinte e Paralela. O Grupo Editorial Record informou 170 mil livros vendidos até este domingo, 13, ganho de 76% em relação ao mesmo período da última Bienal paulista — com avanço de 30% entre os autores brasileiros. A Harper Collins, dona dos direitos de venda de clássicos como J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis e Agatha Christie, afirmou ter superado em duas vezes e meia o faturamento de 2024.

Os best-sellers e o retrato do leitor jovem

Raphael Montes é o nome que domina a lista da Companhia das Letras: o autor emplacou o 1.º, o 2.º, o 4.º, o 5.º, o 6.º, o 8.º, o 12.º e o 15.º títulos mais vendidos da editora. A presença massiva de jovens é o traço que o próprio mercado destacou.

"A Bienal da esperança, pela presença maciça de jovens com entusiasmo e amor pelos livros."

A frase é de Luiz Schwarcz, fundador e CEO da Companhia das Letras. Ela resume o tom geral dos comunicados: as editoras atribuem o resultado à faixa mais jovem, que comprou tanto autores de redes sociais quanto obras de fantasia de mais de 500 páginas.

A Intrínseca registrou um dos momentos de maior lotação nas sessões de autógrafos de SenLinYu e relata que fantasia e comédia lideraram, seguidas por suspense e terror. Lynn Painter, uma das favoritas do público adolescente, emplacou seis títulos entre os mais vendidos da casa. A Sextante e a Arqueiro foram impulsionadas por Ali Hazelwood, neurocientista italiana cujos livros viralizaram no TikTok e chegaram a ganhar adaptações na Netflix, além de Murdoku, que mistura solução de mistérios ao clássico Sudoku.

Um contraponto interessante aparece na Rocco: ao lado de títulos de fantasia jovem, a lista traz A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, e três obras de Suzanne Collins, sinal de que o catálogo de backlist continua puxando vendas.

Os livros mais vendidos, editora por editora

Companhia das Letras — Top 15

  • A estranha na cama, Raphael Montes
  • Jantar secreto, Raphael Montes
  • Binding 13, Chloe Walsh
  • Jantar secreto (edição especial), Raphael Montes
  • Suicidas, Raphael Montes
  • Dias perfeitos (edição especial), Raphael Montes
  • Box Amores improváveis, Elle Kenedy
  • Uma família feliz, Raphael Montes
  • O acordo (série Amores improváveis), Elle Kenedy
  • A cabeça do santo, Socorro Acioli
  • Heartstopper #6, Alice Oseman
  • Uma mulher no escuro, Raphael Montes
  • Dias perfeitos, Raphael Montes
  • O risco (série Mindf*ck), S. T. Abby
  • Bom dia, Verônica, Raphael Montes e Ilana Casoy

Harper Collins

  • Dungeons & Drama – Kristy Boyce
  • Dates & Dragons – Kristy Boyce
  • Dados & Disputas – Kristy Boyce
  • Lembranças de quando te amei – Paola Aleksandra
  • A canção dos dragões perdidos – Sarah A. Parker
  • O despertar da lua caída – Sarah A. Parker
  • O profeta de ferro – Cristina Bomfim
  • Box de Luxo Pocket – O Senhor dos Anéis + O Hobbit – J.R.R. Tolkien
  • Cartas de um Diabo a seu Aprendiz – C.S. Lewis
  • Diário de uma garota esquisita 2: entre likes e surtos digitais – Thalita Rebouças

Rocco — Top 10

  • Coração de Cristal Partido (Ariani Castelo)
  • Kiwi e Os Garotos Perdidos (Ana Jeckel)
  • Bons Tempos: Yesteryear (Caro Claire Burke)
  • Ignis Lacrimosa (Helena Lopes)
  • Powerless (Lauren Roberts)
  • O Abismo de Celina (Ariani Castelo)
  • A Hora da Estrela (Clarice Lispector)
  • Box com a trilogia Jogos Vorazes (Suzanne Collins)
  • Amanhecer na Colheita (Suzanne Collins)
  • Jogos Vorazes (Suzanne Collins)

Intrínseca

  • Patinando no amor, de Lynn Painter
  • Melhor do que nos filmes, de Lynn Painter
  • O massacre da família Hope, de Raley Sager
  • Não é como nos filmes, de Lynn Painter
  • Apostando no amor, de Lynn Painter
  • Série Não Mexa, de Mikito Chinen
  • Alchemised, de SenLinYu
  • A guerra da papoula, de R. F. Kuang
  • Confusões do amor, de Lynn Painter
  • Mil vezes amor, de Lynn Painter

Globo Livros e Alt — Top 5

  • Adversária do Vilão (Hannah Nicole Maehrer)
  • Jogo a longo prazo (Rachel Reid)
  • Diários de uma apotecária (Natsu Hyuuga)
  • Box da série Os Naturais (Jennifer Lynn Barnes)
  • Em rota de colisão (Bal Khabra)

A editora relatou aumento de 100% na comparação com as vendas de 2024 e recebeu nomes como Hannah Bonam-Young e Bal Khabra no estande, segundo Mauro Palermo, diretor da casa.

Grupo Editorial Record

  • Verity (Colleen Hoover)
  • Quando (Carla Madeira)
  • Meu Mafioso Favorito (Babi A. Sette)

Os autores de maior peso na soma total de vendas, segundo a editora, são Colleen Hoover, Sarah J. Maas, Holly Black, Freida McFadden, Carla Madeira e Babi A. Sette.

Sextante

  • Murdoku (Manuel Garand)
  • A Morte É Um Dia Que Vale a Pena Viver (Ana Claudia Quintana Arantes)
  • Vertigem (Lela Brandão)

Arqueiro

  • Jogo de Amor para Dois (Ali Hazelwood)
  • A Hipótese do Amor (Ali Hazelwood)
  • Amor, Teoricamente (Ali Hazelwood)
  • No Fundo É Amor (Ali Hazelwood)
  • A Última Carta (Rebecca Yarros)

Autêntica e Gutemberg

  • A música da minha vida – volume 1, de Paula Pimenta
  • Era uma vez um coração partido, de Stephanie Garber
  • Caraval, de Stephanie Garber
  • Balada do felizes para nunca, de Stephanie Garber
  • Minha vida fora de série – 1ª temporada, de Paula Pimenta
  • Minha vida fora de série – 5ª temporada, de Paula Pimenta
  • Cine Killer, de Renné França
  • O que resta de nós, de Virginie Grimaldi
  • A lenda da caixa das almas, de Paola Siviero
  • A relíquia perdida, de Alejandro G. Roemmers
  • Fora de jogo, de Avery Keelan
  • Fazendo meu filme – volume 1, de Paula Pimenta
  • Apelo final, de Janice Hallet
  • Talvez você deva conversar com alguém, de Lori Gottlieb
  • De volta aos 15, de Bruna Vieira

O grupo destacou aumento de 84% na arrecadação total em relação a 2024. Na comparação com a Bienal do Rio de Janeiro do ano anterior, a cifra foi 160% maior.

Buzz Editora

A Buzz Editora relatou um crescimento de 360% nas vendas, impulsionado pelo selo Neon, voltado ao público jovem. Três autoras brasileiras foram responsáveis pela venda de mais de 4 mil livros durante o período da Bienal: Andresa Rios (Até que a Morte nos Contrate), Marina Dutra (Sonho e Pesadelo) e Nicole Oliveira (Altarin).

Os números oficiais da 28.ª edição

IndicadorNúmero divulgado
Visitantes760 mil
Área total87 mil m²
Área expositiva75 mil m²
Expositores269
Autores800, sendo 91% brasileiros
Livros ofertados3,65 milhões
Aumento médio de faturamento dos expositores57% sobre 2024
Vales-livro distribuídosR$ 20 milhões
Estudantes beneficiados52 mil
Servidores da rede municipal beneficiados154 mil
Servidores e colaboradores da Secretaria Municipal de Cultura de SP2 mil
Dias com ingressos esgotados5

O volume de vales-livro e o alcance das políticas de acesso — 52 mil estudantes e 154 mil servidores da rede municipal — ajudam a dimensionar uma parte da demanda que não vem apenas do consumidor final pagante. É um componente de política pública que sustenta o piso de público do evento e, por consequência, o giro dos estandes.

Book charms, cashback e o caso Ghostface

A edição consolidou duas tendências de consumo que já vinham ganhando tração: os Book Charms, miniaturas de livros em formato de chaveiro, e o uso do cashback dos ingressos para compras dentro do evento. O cashback funciona como devolução parcial do valor pago pelo ingresso, convertida em crédito para gastar nos estandes — um mecanismo que tende a elevar o ticket médio por visitante, exatamente o indicador que a organização viu subir 57% em média.

Nem tudo foi previsível. Houve cancelamentos de última hora, como o da ministra do STF Carmen Lúcia e o da biógrafa de Freddie Mercury, Lesley-Ann Jones, sem que isso comprometesse o andamento geral da programação.

Ganhou repercussão também o episódio envolvendo um homem mascarado como o personagem Ghostface que, no estande da Fruto Proibido, protagonizou vídeos em que beijava e fazia outros atos sugestivos com visitantes. A editora alega que não contratou o indivíduo, que compareceu fantasiado de maneira espontânea.

O que observar daqui para frente

O resultado da 28.ª edição deixa três frentes de atenção para quem acompanha o setor de consumo. A primeira é a consolidação do público jovem como principal vetor de receita das editoras, o que desloca o peso do catálogo para fantasia, romance e autores com presença digital. A segunda é o amadurecimento de mecanismos de incentivo ao gasto no local, como o cashback de ingresso. A terceira é a capilaridade das políticas de acesso, que ampliam o público para além do comprador espontâneo.

Restam em aberto os desdobramentos do caso envolvendo o estande da Fruto Proibido, que segue sob apuração editorial. Para o leitor que acompanha o comportamento de consumo brasileiro, o dado a retter é o de 57%: ele é o termômetro mais direto de quanto o visitante estava disposto a gastar — não apenas de quantas pessoas passaram pela porta.