Principais pontos
- A XP projeta corte de 0,25 ponto percentual na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom, colegiado do Banco Central que define o juro básico) nos dias 15 e 16 de setembro, com a Selic (taxa básica de juros da economia) recuando para 13,75%.
- Para 2027, a projeção aponta juro terminal (patamar final do ciclo de cortes) em 11,50%, a depender da política fiscal do próximo governo e dos choques de oferta globais.
- O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, indicador oficial de inflação) registrou deflação de 0,32% em agosto, puxada pela queda de bens administrados (preços regulados por contrato ou pelo poder público).
A XP projeta corte de 0,25 ponto percentual na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom, colegiado do Banco Central que define o juro básico) nos dias 15 e 16 de setembro, com a Selic (taxa básica de juros da economia) recuando para 13,75%.
A leitura é de um ciclo de calibração (sequência de ajustes graduais nos juros) sem interrupções até 13,25% no fim de 2026, mesmo com inflação global pressionada e comunicado marcado por cautela.
Corte contínuo quando a pausa parecia defensável
Para 2027, a projeção aponta juro terminal (patamar final do ciclo de cortes) em 11,50%, a depender da política fiscal do próximo governo e dos choques de oferta globais.
Segundo a fonte, a equipe de economistas da XP, liderada por Caio Megale, sustenta a trajetória de alívio com base na perda de ritmo da atividade doméstica e no processo de desinflação local. A intensidade da calibração futura ficaria condicionada às definições fiscais da próxima gestão e à evolução das pressões de oferta no exterior.
O ponto mais revelador do relatório está no contraste entre diagnóstico e aposta. Os economistas avaliam que uma interrupção do ciclo seria a conduta mais prudente diante do choque de oferta, das projeções de inflação elevadas e das incertezas eleitorais. Ainda assim, não esperam que o colegiado adote essa pausa.
Na avaliação da XP, a interrupção seria defensável no momento atual, mas o Copom deve manter a sequência de reduções graduais.
Por se tratar de movimento amplamente antecipado pelo mercado, a decisão de setembro tende a provocar reflexo apenas moderado sobre os preços dos ativos, segundo a instituição.
Para quem acompanha risco e custo no Brasil, a combinação descrita cria um quadro dividido. De um lado, atividade mais fraca e inflação corrente mais baixa abrem espaço para juro básico menor ao longo do tempo. De outro, petróleo alto, juro longo global em elevação e expectativas domésticas em alta tendem a manter o prêmio de risco e a limitar a transmissão do alívio da Selic para prazos mais longos.
Roteiro de setembro e horizonte alongado do Copom
A expectativa é de que o comunicado preserve a estrutura anterior, com ênfase em serenidade e cautela na condução da política monetária. A justificativa para calibrar, na visão da XP, virá da menção às dúvidas sobre a desaceleração da economia e o andamento da desinflação.
| Etapa do ciclo | Taxa projetada pela XP |
|---|---|
| Setembro de 2026, após corte de 0,25 ponto | 13,75% |
| Fim de 2026, sem pausas | 13,25% |
| Terminal em 2027, condicional ao fiscal e à oferta global | 11,50% |
No campo das projeções oficiais, a XP calcula que o Copom levará a estimativa para o IPCA de 2026 de 5,1% para 4,9%. Para 2027, a estimativa subiria de 3,8% para 3,9%, enquanto a inflação do primeiro trimestre de 2028, horizonte relevante atual da política monetária, passaria de 3,2% para 3,3%.
A interpretação da XP é que o colegiado deve dar peso maior aos horizontes mais longos para fundamentar a redução dos juros, mesmo com a piora marginal das projeções para 2027 e para o início de 2028.
Pressão externa: petróleo, juro longo e clima
No exterior, o relatório aponta o barril de petróleo acima de US$ 100 em razão do conflito entre Estados Unidos e Irã. As taxas longas avançaram em várias regiões diante do risco fiscal ampliado por economias mais endividadas.
Os títulos do Tesouro americano de 10 anos (papéis da dívida pública dos Estados Unidos), referência global para o custo do dinheiro no longo prazo, aproximaram-se de 5%, maior nível das últimas duas décadas, de acordo com a XP. Na Europa, o Banco Central Europeu (autoridade monetária da zona do euro) elevou as taxas, enquanto há sinais de que o Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos) também pode enrijecer a política monetária nesta quarta-feira.
As dúvidas ligadas ao fenômeno climático El Niño completam o quadro, com potencial de encarecer alimentos in natura no último trimestre de 2026 e no primeiro semestre de 2027.
Esse descompasso entre alívio doméstico e aperto externo ajuda a entender o tom esperado para o comunicado. A cautela com o ambiente global funciona como proteção de comunicação: permite cortar agora, ancorado na desaceleração interna, sem sinalizar compromisso com um ritmo automático à frente.
Brasil desacelera, mas riscos altistas seguem no radar
No plano interno, os dados mostram perda de tração. O resultado do PIB (Produto Interno Bruto, soma de bens e serviços produzidos) do segundo trimestre levou a XP a reduzir a estimativa de crescimento de 2026 de 2,0% para 1,7%.
O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, indicador oficial de inflação) registrou deflação de 0,32% em agosto, puxada pela queda de bens administrados (preços regulados por contrato ou pelo poder público). O câmbio seguiu resiliente mesmo com juros globais mais altos, sustentado por exportações de commodities brasileiras e pelo ingresso líquido de investimentos estrangeiros.
À frente, porém, há vetores de alta. Os debates no Congresso Nacional sobre o fim da jornada de trabalho 6x1 podem elevar custos de produção, na avaliação da XP, e o diesel segue sem paridade internacional (alinhamento aos preços externos), o que mantém espaço para reajustes até o fim do ano.
O relatório registra alta do câmbio de R$/US$ 5,10 para R$/US$ 5,15. As expectativas de inflação de médio prazo subiram de 4,22% para 4,30% no fim de 2027. Para os 12 meses até março de 2028, a previsão passou de 4,04% para 4,05%.
