Principais pontos
- O Bank of America (BofA) cortou suas projeções de PIB e Selic para 2026 e 2027 depois de concluir que a atividade econômica brasileira desacelera em ritmo mais intenso do que estimava.
- O consumo privado, um dos dois motores recentes do crescimento brasileiro ao lado das exportações, contraiu 0,4% na comparação trimestral ajustada sazonalmente.
- apenas cerca de 20% da capacidade total de empréstimo será efetivamente utilizada, porque muitos tomadores não atenderam aos critérios de concessão dos bancos.
O Bank of America (BofA) cortou suas projeções de PIB e Selic para 2026 e 2027 depois de concluir que a atividade econômica brasileira desacelera em ritmo mais intenso do que estimava. No relatório assinado por David Beker, Natacha Perez e Gustavo Mendes, o banco reduziu a expansão do PIB de 2,3% para 1,8% em 2026 e de 1,3% para 0,9% em 2027. Para a Selic (a taxa básica de juros que baliza todo o crédito da economia), a projeção de fim de 2026 recuou de 13,75% para 13,25%.
O detalhe que motivou a revisão é menos conhecido do que o corte em si. O PIB do 2º trimestre de 2026, divulgado no início de setembro, pareceu sólido à primeira vista, mas a composição do indicador contou outra história: quase todo o crescimento veio da acumulação de estoques (+0,9 p.p.), enquanto a demanda final subtraiu 0,4 p.p. do resultado no período.
O que os estoques escondem
Estoques (mercadorias produzidas e ainda não vendidas) inflam o PIB pelo lado da produção, mas não viram consumo nem investimento no trimestre seguinte. Na leitura do BofA, esse foi o motor praticamente único da expansão entre abril e junho: a demanda doméstica ficou estável e as exportações líquidas subtraíram 0,4 p.p. do crescimento trimestral ajustado sazonalmente.
A leitura do Ativo Virtual é que o número da manchete, a redução das projeções, importa menos do que a razão por trás dela. A atividade brasileira não sofreu um choque isolado; perdeu a base que a sustentava. Quando o crescimento depende de estocagem, a demanda que o justificaria já não está presente, e o ajuste tende a aparecer nos trimestres seguintes, ainda mais num quadro de juros elevados e crédito em desaceleração.
Os dados mensais reforçam essa direção. A produção industrial contraiu 1,8% em junho na comparação mensal ajustada, após queda de 0,9% em maio. As vendas no varejo ampliado recuaram 1,0% e 0,3% nos mesmos meses, e o volume de serviços ficou estável em junho depois de contrair 0,24% em maio. O IBC-Br (índice do Banco Central que serve de prévia mensal para o PIB) caiu 0,6% em junho, após estagnar em maio.
Para julho, os primeiros dados seguem mostrando moderação: produção industrial a 0,2% e volume de serviços a 0,0% na comparação mensal. "Nosso medidor de atividade aponta para nova desaceleração no 3º trimestre", registra o relatório.
Consumo em contração apesar dos estímulos
O consumo privado, um dos dois motores recentes do crescimento brasileiro ao lado das exportações, contraiu 0,4% na comparação trimestral ajustada sazonalmente. O dado chama atenção porque veio na contramão de uma leva de estímulos pré-eleitorais, que incluiu aumento de 0,4% no consumo do governo e uma série de medidas de crédito desenhadas para manter o ritmo da atividade.
O BofA afirma que já sinalizava essa exaustão antes da divulgação do PIB. "Os dados de alta frequência, a inflação em desaceleração e o crédito mais fraco apontam todos na mesma direção. Agora vemos uma desaceleração mais acentuada à frente, abrindo espaço para afrouxamento monetário, mesmo com riscos fiscais e externos ainda presentes", diz o documento.
O crédito corporativo vem desacelerando desde meados de 2025, o que reflete a maior sensibilidade das empresas a juros altos em comparação com as famílias. O estímulo oficial ao crédito, por sua vez, foi concentrado em pessoas físicas, com o consignado privado como iniciativa emblemática. O relatório alerta, porém, que o endividamento das famílias segue batendo recordes a cada divulgação de dados do Banco Central, sinal de que o canal do crédito como impulsionador do consumo pode estar perdendo força.
Um exemplo citado é o programa Move Brasil, que oferece subsídios para o financiamento de automóveis. A demanda ficou bem abaixo do esperado: segundo estimativas do governo, apenas cerca de 20% da capacidade total de empréstimo será efetivamente utilizada, porque muitos tomadores não atenderam aos critérios de concessão dos bancos.
O mapa das revisões
O BofA atualizou o cenário-base em 8 de setembro. A projeção passou a prever cortes consecutivos de 25 pontos-base em todas as reuniões de política monetária até dezembro de 2027. Antes, o banco esperava que os cortes só fossem retomados no 2º semestre de 2027.
| Indicador | Projeção anterior | Projeção atual |
|---|---|---|
| Selic fim de 2026 | 13,75% | 13,25% |
| Selic fim de 2027 | 12,75% | 11,25% |
| Selic fim de 2028 | 11,75% | 11,25% |
| PIB 2026 | 2,3% | 1,8% |
| PIB 2027 | 1,3% | 0,9% |
| IPCA 2026 | 5,5% | 5,0% |
A revisão do IPCA (índice oficial de inflação) para 5,0% em 2026 ocorreu no fim de julho, depois de o IPCA-15 trazer uma surpresa benigna. Desde então, a inflação evoluiu de forma favorável, com nova surpresa negativa no IPCA-15 de agosto. O IPCA de agosto também registrou dado deflacionário, com a inflação de núcleos cedendo ainda mais, devido à precificação benigna de bens.
Juros em queda mais cedo, sob condições
A mudança de trajetória é o ponto central da revisão. Na projeção anterior, os cortes só seriam retomados no 2º semestre de 2027; agora, o banco projeta afrouxamento contínuo de 25 pontos-base por reunião até dezembro de 2027. A diferença de 1,5 ponto percentual na Selic de fim de 2027, de 12,75% para 11,25%, ajuda a medir o tamanho do ajuste.
Para quem acompanha a renda fixa e o custo do crédito, a leitura é de um cenário-base com juros caindo mais cedo, mas condicionado a duas variáveis que o próprio banco trata como incertas: a política fiscal após a eleição e o ambiente externo. Sem essas condições, o afrouxamento tende a ser mais lento do que o cenário-base sugere.
Riscos: eleição, fiscal e cenário externo
As projeções seguem expostas a dois riscos principais, segundo o banco: a política econômica do próximo presidente da República e um Real mais fraco caso os bancos centrais de economias desenvolvidas se tornem mais restritivos.
Na avaliação do BofA, há fontes de pressão inflacionária que podem afetar as expectativas de médio e longo prazo: choques climáticos ligados ao El Niño, a implementação da reforma tributária, ajustes nos preços domésticos de combustíveis, mudanças metodológicas na cesta do IPCA que ampliem o peso de itens de serviços e medidas trabalhistas que elevem custos em setores específicos.
O ritmo da desinflação também dependerá do arcabouço fiscal adotado após a eleição. Sem maior disciplina fiscal e reformas voltadas a conter o crescimento dos gastos obrigatórios, a demanda doméstica pode seguir mais resiliente que o esperado, atrasando a convergência da inflação à meta e limitando o espaço para afrouxamento monetário.
No cenário externo, uma postura mais restritiva nas economias desenvolvidas tende a apertar as condições financeiras globais e a limitar a apreciação do Real, desacelerando a desinflação via preços importados. Um ambiente externo mais favorável, por outro lado, facilitaria a convergência da inflação. Na visão do banco, porém, crescimento doméstico, dinâmica de preços e política fiscal continuam sendo os principais determinantes da função de reação do Banco Central nos próximos trimestres.
