O Bitcoin rompeu o piso de US$ 81 mil nesta quinta-feira (15) e voltou a testar uma faixa técnica defendida pelos compradores em duas ocasiões recentes. A maior criptomoeda do mercado recuava 2,6% em 24 horas, cotada a US$ 80.910 — o equivalente a R$ 409.935. O gatilho veio de fora do mercado cripto: a inflação americana de setembro surpreendeu para cima e recolocou no radar a chance de juros mais altos por mais tempo nos Estados Unidos, em uma sessão de vendas pesadas nas bolsas asiáticas e nas ações de tecnologia.
Cripto no vermelho: os números do dia
A realização atingiu todo o setor de ativos digitais, com perdas mais fortes entre as altcoins. O Ethereum cedeu 5,2%, a US$ 2.360. O XRP recuou 3,8%, a Solana perdeu 3,7% e a BNB caiu 2,5%.
| Ativo | Variação em 24h | Cotação |
|---|---|---|
| Bitcoin (BTC) | -2,6% | US$ 80.910 |
| Ethereum (ETH) | -5,2% | US$ 2.360 |
| XRP | -3,8% | não informada |
| Solana (SOL) | -3,7% | não informada |
| BNB | -2,5% | não informada |
CPI acima do consenso reacende o debate sobre juros
O CPI (índice de preços ao consumidor americano, termômetro usado pelo Federal Reserve para calibrar a política monetária) avançou 3,7% em setembro na comparação anual. Economistas projetavam 3,6%, e agosto havia registrado 3,4%. O núcleo do indicador, que exclui alimentos e energia por serem mais voláteis, subiu 2,6% em 12 meses, contra 2,5% esperados.
As apostas para a reunião do Fed de 27 e 28 de outubro mudaram rapidamente. Antes do CPI, o mercado atribuía cerca de 22% de chance a uma nova alta de juros. Depois, essa probabilidade saltou para quase 47%, segundo o FedWatch, ferramenta do CME Group que monitora os contratos futuros. No fim do dia, recuou para perto de 26% — a manutenção da taxa segue como cenário mais provável, mas com incerteza maior.
A taxa básica americana está na faixa de 3,75% a 4% ao ano, após a alta anunciada em setembro. Juros mais altos tendem a elevar a atratividade da renda fixa americana e a reduzir o apetite por ativos de risco.
Para Vikram Subburaj, CEO da exchange indiana Giottus, “A inflação mais forte nos Estados Unidos renovou as preocupações de que os juros permanecerão elevados por mais tempo”. O executivo também apontou fragilidade na demanda institucional: os ETFs americanos com exposição direta ao Bitcoin registraram saídas líquidas de US$ 150,5 milhões na quarta-feira, revertendo entradas de US$ 175,7 milhões do dia anterior.
Incerteza reduz liquidez, avalia a STS Digital
A empresa de negociação de criptoativos STS Digital avaliou que a dúvida sobre a decisão do Fed prejudica a liquidez do mercado e diminui a disposição dos investidores para assumir riscos. Para a companhia, o Bitcoin está cada vez mais sensível à economia global, dos preços da energia às oscilações dos juros e às avaliações das empresas de inteligência artificial.
Ásia e IA: o contágio vem das ações
Na Coreia do Sul, o Kospi chegou a despencar 8% no pregão, acionando os circuit breakers — mecanismos que interrompem automaticamente as negociações para conter movimentos extremos. As fabricantes de semicondutores Samsung Electronics e SK Hynix ficaram entre as mais castigadas, com quedas acima de 9%. No Japão, o Nikkei 225 recuou cerca de 5%, e os futuros do Nasdaq 100 apontavam perdas de aproximadamente 1,2%.
A pressão sobre a inteligência artificial aumentou depois que a Anthropic, desenvolvedora do Claude, apresentou a potenciais investidores informações que indicavam desaceleração no crescimento de suas receitas. O sinal reforçou as dúvidas sobre as avaliações das empresas de tecnologia.
Dominick John, analista da Zeus Research, avalia que as quedas simultâneas de bolsas e criptomoedas refletem uma redução generalizada do apetite por risco, e não um movimento isolado do setor cripto.
Alavancagem: US$ 951 milhões liquidados em 24 horas
Nas últimas 24 horas, cerca de US$ 951 milhões em posições alavancadas foram liquidadas no mercado cripto, segundo a CoinGlass. Do total, aproximadamente US$ 876 milhões correspondiam a posições compradas — apostas na alta dos preços. A liquidação é o encerramento forçado de uma operação que usou dinheiro emprestado e não resistiu à oscilação contrária.
Rick Maeda, chefe de mercados da Laevitas, plataforma de análise de derivativos, afirmou que o volume de liquidações indica que uma parcela relevante das posições alavancadas já foi eliminada. A questão agora, segundo ele, é saber se a demanda por compras à vista voltará ou se as preocupações econômicas seguirão pressionando as cotações.
O suporte de US$ 80 mil entra no radar técnico
O Bitcoin chegou a cair para aproximadamente US$ 80.400 na sessão, perto da mínima de US$ 80.430 da semana passada. Na leitura técnica predominante no mercado, um fechamento diário abaixo dessa região indicaria a perda de um suporte defendido pelos compradores em duas oportunidades recentes, abrindo espaço para novas quedas. O mercado acompanha, agora, se o patamar de US$ 80 mil será abandonado de forma definitiva.
O que isso significa para o investidor brasileiro
O dia reforça uma característica dos últimos anos: o Bitcoin já não anda descolado do restante do mercado global. Quando a inflação americana surpreende, a curva de juros dos Estados Unidos se desloca e a disposição para carregar risco diminui — a criptomoeda sente o efeito junto com as ações de tecnologia.
Há ainda um detalhe para quem investe a partir do Brasil: a cotação em reais (R$ 409.935) incorpora o efeito do câmbio. O desempenho visto em reais pode, portanto, divergir do movimento medido em dólar, dependendo do comportamento do real no dia.
Três frentes merecem atenção: as apostas para a reunião do Fed de 27 e 28 de outubro, o fluxo dos ETFs americanos de Bitcoin e a disputa em torno do suporte de US$ 80 mil. É a combinação desses fatores, e não um evento isolado, que deve orientar os preços no curto prazo.
