Stablecoins já movimentam trilhões de dólares e protocolos descentralizados, sistemas financeiros automatizados por código, passam a oferecer crédito e liquidez. Para Bernardo Bonjean, CEO da Metrix, a discussão sobre a utilidade da blockchain perde força, e o investidor precisa responder a outra pergunta, quanto desse crescimento chega a quem possui os tokens?

Acertar a tecnologia não garante retorno

No fim dos anos 1990, as previsões sobre o impacto da internet se confirmaram em grande parte, mas muitas pioneiras desapareceram, enquanto companhias posteriores capturaram fatia extraordinária do valor criado.

Bonjean usa a própria experiência como exemplo. Quando atuava no mercado tradicional, comprou ações da Apple apostando no iPod. O aparelho deixou de existir em 2022, mas o valor migrou: o streaming musical cresceu, o Spotify passou a capturar parte relevante desse consumo e a Apple se reinventou com o iPhone. Para o autor, a inovação pode gerar retorno em modelos de negócio que nem existiam no momento do investimento.

Blockchain encontra inteligência artificial

Para Bonjean, a convergência com a inteligência artificial pode acelerar essa migração. A Pantera Capital aventa que bilhões de agentes de IA venham a contratar serviços, negociar recursos e pagar de forma autônoma, criando uma nova classe de participantes econômicos cujo alcance o mercado ainda não consegue dimensionar.

Receita, lucro e token não são sinônimos

No mercado de ações, uma boa companhia não equivale a uma boa ação. No universo cripto, essa distinção pesa ainda mais: um protocolo pode processar bilhões de dólares em transações e gerar receitas expressivas sem que o token tenha direito econômico relevante sobre elas. Há ainda desenhos em que parte da receita financia a recompra de tokens, a remuneração de participantes ou a queima, destruição de unidades que reduz a oferta em circulação.

ConceitoO que representaRelação com o detentor do token
Volume de transaçõesAtividade bruta processada pela redeNão gera direito automático
ReceitaMontante arrecadado pelo protocoloDepende do desenho econômico do token
Lucro econômicoReceita após custos e capital empregadoNão implica retorno automático
Retorno do investidorValorização e eventuais distribuiçõesDepende também do preço pago

Segundo o autor, o mercado de cripto se acostumou a precificar narrativas, comunidades e expectativas de adoção antes de avaliar a geração de caixa dos protocolos.

A Hyperliquid, que opera infraestrutura de negociação de derivativos (contratos atrelados ao preço de outro ativo), destina parte relevante de suas receitas à recompra do próprio token. Segundo Bonjean, isso não torna o token barato nem a valorização inevitável, mas evidencia um mecanismo econômico que pode ser analisado e comparado a outras alternativas.

O que a análise da Metrix propõe

Bonjean afirma que a Metrix avalia protocolos como negócios: origem das receitas, vantagens competitivas, capital necessário para crescer e caminho do valor até o investidor. Para ele, a próxima fase do setor dependerá menos de novas tecnologias e mais de modelos que extraiam valor de maneira duradoura. Para quem analisou empresas por décadas, essa diferenciação soa elementar, mas ainda é recente no setor cripto.

As perguntas centrais, na leitura do autor, são:

  • Qual é a origem das receitas do protocolo e quão duradouras elas parecem?
  • O token tem direito econômico sobre essa atividade ou apenas acompanha o movimento de preços?
  • Há mecanismos de recompra, remuneração ou queima que levem o resultado ao detentor?
  • Quanto capital o protocolo precisa para crescer?

As análises da Metrix contam com o apoio do Dr. Metrix, sistema proprietário de inteligência artificial voltado à análise on-chain, ou seja, ao exame de dados registrados diretamente na blockchain. Bonjean sustenta que a tecnologia pode se tornar infraestrutura central da economia, sem que isso garanta sucesso de todos os protocolos ou bons resultados para todos os tokens. A indagação final é simples, quem fica com o resultado gerado?