O BTG Pactual (BPAC11) recebeu, na terça-feira (29), o aval da SBS (Superintendência de Banca, Seguros e AFP), regulador do sistema financeiro peruano, para atuar como instituição bancária no país. A nova subsidiária será o Banco BTG Pactual Perú S.A., que exigirá um capital inicial de US$ 100 milhões e coroa uma presença de mais de 14 anos no Peru — até agora limitada a corretora, gestão de recursos e banco de investimento.

O que importa a quem acompanha BPAC11 é o desenho que essa autorização expõe. O BTG vem deslocando parte do balanço para fora do Brasil e transformando o exterior em fonte relevante tanto de crédito quanto de faturamento, e a licença peruana acelera esse movimento. A mudança tem dois lados para o investidor: dilui a dependência do ciclo doméstico e, em contrapartida, amplia a exposição a câmbio, a regulação estrangeira e ao risco de crédito de outras economias.

O que a licença peruana destrava

Com o registro bancário, o grupo passa a reunir crédito corporativo, serviços de tesouraria e banco de investimento sob uma única estrutura no Peru. Tesouraria é a área responsável por administrar caixa, câmbio e posições de juros de uma instituição financeira. O pedido formal foi protocolado em julho de 2025, mas a resposta favorável do regulador não coloca a operação na rua de imediato: resta ao conglomerado concluir os últimos ajustes internos antes de a nova estrutura entrar em atividade.

Em nota, o CEO do BTG Pactual, Roberto Sallouti, afirmou: “Estamos aprofundando nossa presença na América Latina, e a licença para operar um banco no Peru representa mais um passo nessa estratégia”. Na leitura do executivo, essa frente foi erguida aos poucos, com dinheiro aplicado em tecnologia, criação de produtos e chegada a novas praças.

Uma década e meia de aquisições fora do Brasil

A licença peruana não é movimento isolado. O grupo empilhou, nos últimos anos, compras que ampliaram sua presença nas Américas e na Europa:

OperaçãoQuandoValor
Licença bancária no Perusetembro de 2026capital de US$ 100 milhões
HSBC Uruguaijulho deste ano—
M.Y. Safra Bank (EUA)janeiro deste ano—
FIS Privatbank (Luxemburgo)2023213 milhões de euros

Na Europa, o BTG já contava com presença em Portugal, Espanha e Reino Unido antes de comprar o FIS Privatbank. Com a estrutura peruana, o banco soma mais uma operação própria na América Latina, em uma fase em que o faturamento e o crédito do grupo dependem cada vez mais das praças estrangeiras.

A diferença desta vez está no tipo de veículo. Em vez de adquirir uma instituição já em atividade, o grupo constituiu um banco do zero, com capital próprio, o que deixa a operação peruana sob controle direto do conglomerado brasileiro — algo que as demais frentes internacionais, nascidas de aquisições, não replicam da mesma forma.

Crédito: o motor que o próprio banco apontou

No segundo trimestre de 2026, o CFO Renato Cohn sinalizou que a frente internacional seria um dos motores do crescimento do crédito do banco nos anos seguintes. Os números posteriores dão sustentação a esse discurso. No ano passado, a fatia do crédito originada fora do país girava em torno de 20%; ao término do último trimestre, beirava 25%. Do faturamento total, perto de 20% nasce em operações realizadas além da fronteira brasileira.

O que observar daqui para frente

A licença fecha uma etapa regulatória, não a operação. Sem prazo divulgado, os últimos preparativos definem quando o banco peruano começa a atender clientes — e é essa transição, da autorização para a receita, que separa o anúncio de um resultado concreto no balanço.

A métrica que tende a ganhar relevância nas próximas divulgações é a fatia do exterior no crédito e nas receitas: se ela segue subindo, o grupo se torna menos sensível ao ciclo doméstico; se estaciona, o capital aportado nas novas praças demora mais a compensar.

Ampliar presença em mercados com moedas e ciclos de juros distintos costuma reduzir a dependência exclusiva da economia brasileira, mas cobra em complexidade de gestão, exigência de capital e esforço de integração — como os US$ 100 milhões que a subsidiária peruana demanda antes de faturar.