O juro de 10 anos que reordena o câmbio

O dólar à vista encerrou a segunda-feira (28) cotado a R$ 5,2265, alta de 0,86% sobre o ajuste anterior, em uma sessão em que o real sentiu o peso de três forças simultâneas: a disparada dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA, o impasse em torno do Estreito de Ormuz e a contagem regressiva para o primeiro turno eleitoral.

A valorização da moeda americana não é exclusividade brasileira. O DXY, índice que compara o dólar a uma cesta de seis divisas — euro e libra entre elas —, subia 0,23% por volta das 17h (horário de Brasília), aos 101,203 pontos. Mas o dado que ancora a sessão está nos juros longos: o Treasury de 10 anos operava a 5,232%, acima dos 5,181% registrados no ajuste anterior.

Com o retorno dos títulos americanos em patamares que não apareciam há anos, o prêmio exigido para carregar ativos de países emergentes tende a subir. Na prática, esse movimento encarece o custo do hedge cambial e comprime o diferencial de juros que sustenta a atratividade do real — um mecanismo que se materializou no fechamento desta segunda-feira.

A combinação de yields longos elevados nos EUA com a incerteza eleitoral doméstica tende a reduzir o apetite por risco em ativos brasileiros. Historicamente, períodos de juros americanos em alta coincidem com maior volatilidade no Ibovespa e no câmbio, à medida que o capital global migra para a renda fixa dos Estados Unidos.

IndicadorValor
Dólar à vista (fechamento)R$ 5,2265 (+0,86%)
DXY (17h, Brasília)101,203 pts (+0,23%)
Treasury de 10 anos5,232% (ante 5,181%)
Brent (dez/26, ICE Londres)US$ 97,83 (+0,4%)

Ormuz: proposta, recusa e impasse

O pano de fundo geopolítico veio da região do Estreito de Ormuz. Conforme a agência de notícias estudantil iraniana Isna, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, apresentou aos EUA uma proposta para reabrir a hidrovia, condicionada à liberação de fundos e ativos iranianos congelados.

Segundo a agência, a oferta foi levada a Washington em Nova York, na presença de mediadores. O presidente americano, Donald Trump, afirmou ter recusado os termos, mas mensagens circularam entre as partes na tentativa de retomar a mesa de negociações.

O impasse mantém o prêmio de risco embutido no petróleo. Na ICE, em Londres, o Brent para dezembro fechou em alta de 0,4%, a US$ 97,83 o barril. A resiliência da commodity reforça a leitura de que a inflação global segue sem trégua, o que sustenta a busca por proteção em dólar.

Eleição no Brasil entra na conta

O cenário doméstico acrescenta cautela. Levantamento do BTG Pactual com a Nexus mostra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) tecnicamente empatados em um eventual segundo turno. Na Quaest, Lula segue à frente no primeiro turno, enquanto os dois nomes aparecem com 42% em um hipotético segundo turno.

Na leitura de Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, o mercado tende a ficar mais apreensivo à medida que o primeiro turno se aproxima, ainda que as pesquisas divulgadas recentemente tragam pouca novidade em relação às anteriores. O foco, segundo ele, recai sobre o quadro fiscal — em especial, como cada candidato pretende lidar com as contas públicas depois do pleito.

O que muda para quem investe

Um dólar mais forte altera a conta em duas frentes. De um lado, encarece insumos e bens importados e pressiona a inflação, o que historicamente costuma transbordar para as expectativas de IPCA e para a discussão em torno da trajetória da Selic. De outro, valoriza o resultado de companhias com receita dolarizada e muda o cálculo de quem carrega exposição internacional.

A ferramenta Fed Watch, do CME Group, sinaliza que o mercado projeta ao menos duas altas de 0,25 ponto percentual na taxa do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Um Fed mais duro por mais tempo tende a manter o dólar globalmente sustentado e o real sob pressão enquanto os yields americanos seguirem elevados.

Vale separar o curto prazo do estrutural. O salto dos retornos longos nos EUA pressiona moedas emergentes de forma ampla, e não apenas o real — o comportamento do DXY confirma esse caráter global. Para o investidor brasileiro, isso sugere que a volatilidade do câmbio tende a seguir elevada enquanto o quadro fiscal doméstico não oferecer maior clareza.

Para quem acompanha o câmbio, os dois vetores que marcaram esta segunda-feira — o comportamento dos Treasuries e os desdobramentos de Ormuz — seguem como os principais gatilhos a observar nas próximas sessões.